Em concreto não possuímos elementos que nos permitam reconstruir o trabalho desta irmandade. Sabemos que existiu, na Igreja Paroquial de Santiago, dadas as poucas referências encontradas, nomeadamente na primeira metade do século XVIII.454 No entanto, as Memórias Paroquiais de 1758 aludem a existência da devoção mas referem que não existiria, na altura,
uma confraria nesta igreja sendo “ (…) a Padroeira é a Capela do Espírito Santo dos homens
marítimos (…) ” 455
Nossa Senhora de Guadalupe teria uma forte devoção em Sesimbra, considerando a existência de uma imagem na Capela de S. Sebastião456 e a um altar na Capela do Espírito Santo.457
Segundo Isabel Drumond Braga458, o início do culto a Nossa Senhora de Guadalupe, remonta
ao tempo do apóstolo S. Lucas, o qual ter-se-á feito sepultar com uma imagem mariana, na Ásia Menor. No seculo IV, esta imagem, teria sido reencontrada aquando da transladação dos seus restos mortais para Bizâncio. São vários os milagres atribuídos à imagem da Senhora de Guadalupe, ao longo de todo o trajeto que teria feito até Sevilha. Desde logo, contra o flagelo da peste em Roma, em 582; depois, na viagem marítima de Roma para Sevilha, uma forte tempestade pôs em risco a vida de todos que pediram proteção a Nossa Senhora; por último, estando já em Sevilha, onde permanece até à invasão muçulmana,459 “um grupo de religiosos levam a imagem para Toledo escapando assim à mão dos infiéis.” Estes ao passarem por
“uma montanha junto ao rio Guadalupe e, a que os naturais davam o nome de Villauercas,
encontraram uma pequena ermida de pedra e cortiça na qual havia uma sepultura de mármore.” A imagem foi guardada nesse local “onde terá permanecido até ser redescoberta por um pastor durante o reinado de D. Afonso X ou de D. Afonso XI de Castela e Leão.” 460
Dá-se então o 3º milagre. Um pastor terá perdido uma vaca da sua manada, sendo que
454 Nomeadamente em 1729 e 1736 (AMS, ERM Livro de Visitação da Igreja de Santiago anos 1666-1773, p.
26 e 29).
455 ANTT, Memórias Paroquiais de 1758, Dicionário Geográfico de Portugal, vol. 10 c3, nº 285, p. 1941 – 1956 456 AMS, ERM Inventário de ornamentos e objectos pertencentes á Igreja da Freguesia de Santiago e Ermida de S. Sebastião, 1913, p. 19-20
457 SERRÃO, Eduardo da Cunha e SERRÃO, op. cit., 1997, p. 41. De referir que as Memórias Paroquiais de 1758 mencionam a existência de uma Irmandade a Nossa Senhora de Guadalupe na Igreja de Nossa Senhora da
Consolação do Castelo. (ANTT, Memórias Paroquiais de 1758, Dicionário Geográfico de Portugal, vol. 10 c3, nº 285, p. 1941 – 1956).
458 BRAGA, Isabel M.R. Mendes Drumond - O Mosteiro de Guadalupe e Portugal. Séculos XIV-XVIII:
contribuição para o estudo da religiosidade peninsular, Lisboa, Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica: Centro de História da Universidade de Lisboa, 1994
459 Idem, ibidem, p. 11-12 460 Idem, ibidem, p. 13
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encontrando-se a descansar junto ao rio Guadalupe, ao 3º dia, “vê a vaca morta e não
possuindo esta qualquer tipo de mordedura ou ferida prepara-se para a esfolar quando a vaca ressuscita.”461 Neste ato, ter-lhe-á aparecido Nossa Senhora que lhe diz que lhe dá a
vaca para a manada na condição de o pastor “avisar os clérigos de Cáceres, terra do pastor,
para ali irem desenterrar a imagem.”462 Entretanto, quando o pastor chega a casa encontra o
filho morto. Confiando na Virgem, invoca-a para a ressurreição do filho o que veio a acontecer. “Os clérigos vão então buscar a imagem e no local foi edificada uma casa de
pedras e palhas” onde colocaram imagem que se tornou um centro de peregrinação, a qual
começou a ser conhecida pelo nome de Guadalupe.463 Será neste 3º milagre que reside o culto
de Nossa Senhora de Guadalupe, o resgate da imagem de poder cair nas mãos dos infiéis. Também, aquando da Batalha do Salado, D Afonso XI “pede auxílio a Santa Maria de
Guadalupe derrotando os mouros (…), com ajuda dos contingentes português, aragonês e ainda alguns ingleses.”464
Em agradecimento pelas mercês recebidas, o Mosteiro de Guadalupe torna-se um importante centro de devoção, e sobretudo ponto de ligação para a redenção dos cativos praticada pelo mosteiro e pela comunidade de religiosos ali inicialmente estabelecida, a Ordem das Mercês. No estudo exaustivo que efetuou Isabel Braga indica várias ajudas dos reis de Portugal ao Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe.465 Salienta-se as de D. Afonso V, no sentido de
fazer “face aos falsos procuradores que pediam esmolas invocando Nª Srª de Guadalupe, sem
que tais dinheiros se lhe destinassem”466. Durante a regência de D. Pedro, D. João de Castela
autoriza a vinda de pão para Portugal em troca de pescado seco para o Mosteiro de Guadalupe. Os reis portugueses concederam vários privilégios ao Mosteiro de Guadalupe. D. Afonso V, fervoroso devoto da Senhora de Guadalupe, além das verbas recebidas no âmbito dos peditórios de esmolas, concedia ainda,
“o recebimento da décima relativa aos mamposteiros, (…) e a isenção do pagamento de direitos de
pescado, sal e outros produtos necessários ao mosteiro (…)467 Em 1497, D. Manuel I confirma a licença
461 Idem, ibidem, p. 13 462 Idem, ibidem, p. 13 463 Idem, ibidem, p. 14 464 Idem, ibidem, p. 17-18 465 Idem, ibidem, p. 31-34 466 Idem, ibidem, p. 31 467 Idem, ibidem, p. 60
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concedida por D. João II, que o prior e frades guadalupenses possuíam para enviarem 15 mamposteiros
para Portugal onde recolheriam esmolas para o mosteiro.”468
A Senhora de Guadalupe é invocada em “horas de aflição face à doença, eminência da morte,
perigos da natureza como tempestades [com eminência de naufrágios], sismos e maus anos agrícolas.” Isabel Drumond Braga aponta como motivos de peregrinação ao Mosteiro de
Guadalupe:469
No século XV: a saúde (36%) (o contágio pela peste era o grande flagelo dos séculos XIV e XV), tempestade e naufrágios (19%), fuga ao cativeiro (17%) (as esmolas recolhidas conjuntamente com a ação da Ordem da Santíssima Trindade muitos terão contribuído para o resgate de cativos que se encontravam no Norte de África, e sobre a qual falaremos em capitulo próprio), questões de justiça (11%) e outros motivos (17%).
No século XVI: a saúde (33%), tempestade e naufrágio (15%), fuga ao cativeiro (17%), questões de justiça (10%) e outros motivos (25%)
No século XVII: a saúde (73%), tempestade e naufrágio (6%), fuga ao cativeiro (2%), questões de justiça (4%) e outros motivos (15%).
5.3.10 Senhor Jesus dos Passos da Cruz, vulgo Senhor dos Passos, e a Irmandade da