Platão tende a apresentar a escritura como uma potência oculta e, por conseguinte, suspeita. Como a pintura, à qual ele comparará mais adiante (...) e as técnicas da mimeses em geral. Sabe-se também de sua desconfiança diante da mântica, dos mágicos, dos feiticeiros, dos mestres dos feitiços (DERRIDA, 1997, p.44).
Podemos fazer a experiência: podemos falar e depois escrever em um bilhete o conteúdo
de nossa fala. Quando falamos, parecemos “coincidir” mais fortemente com a gente mesmo se
comparado com o que acontece quando escrevermos. As palavras faladas parecem imediatamente presente para o entendimento e a voz que fala se torna um veículo confiável, espontâneo e íntimo. Por outro lado, quando escrevemos, parece que a significação foge de nosso controle: entregamos nossos pensamentos ao veículo impessoal da letra escrita, que pode ser circulada, reproduzida, citada de várias maneiras por mim nem previstas e pretendidas. Escrever é uma atitude que rouba o nosso ser. É uma forma de comunicação alternativa, uma transcrição pálida e perigosa da fala, algo que sempre vai estar a uma certa distância da minha consciência. É por isso que Derrida vai dizer que a tradição filosófica, desde Platão, sempre privilegiou a fala, a voz viva, e criticou a escrita como um fantasma, uma forma de expressão sem vida e alienada.
Por trás dessa valorização da fala está uma certa visão do homem filósofo: um homem capaz de criar espontaneamente e de expressar suas significações de forma objetiva, de estar em plena posse de si mesmo e de dominar a linguagem como um instrumento transparente. “É esta forma da vida da memória que a escrita viria hipnotizar: fazendo-a, sair, então, de si e adormecendo-a no momento” (DERRIDA, 1997, p. 52). O que essa visão não percebe é que a voz viva é tão problemática quanto a palavra escrita: mesmo os signos falados só funcionam dentro de um processo de diferenciação. No entanto, a história da filosofia sempre foi logocêntrica e falocentrica, centrando-se na voz viva e olhando com desconfiança para o discurso escrito. Ela acredita que uma palavra especial (essência, verdade, ideia, Deus, ser) poderia se oferecer como a realidade derradeira, servindo como base para todo o nosso pensamento, nossa linguagem e nossa experiência. Essa é a busca por um signo que deveria dar significação a todos os demais: uma significação básica, inquestionável, para qual os nossos demais signos podem constantemente voltar. Para ocupar essa vaga privilegiada muitos signos ao longo da história da filosofia mandaram seus currículos: Deus, ideia, ser, substância, matéria, verdade. Como cada um desses conceitos pretende fundamentar todo o nosso sistema de pensamento e linguagem, ele precisa estar fora desse sistema, sem ser contaminado pelo diferir da linguagem. Ou seja, ele não pode estar participando do jogo da linguagem, mas deve ser capaz de ordenar e fundamentar esse jogo. Ele precisa ser, de alguma forma, anterior à fala,
tendo existido antes dela. Deve ter uma significação mas sem ser o produto de uma diferenciação. Deve ser um tipo de sentido dos sentidos, a metáfora das metáforas, na linguagem rortyana, o amparo de todo sistema de pensamento, o sol do significado que faz tudo dançar obedientemente ao seu redor. É por não favorecer nenhum dos candidatos ao sentido do sentido é que a escrita é perigosa:
Por que o suplemento é perigoso? Ele não o é, se assim se pode dizer, em si, no que ele poderia se apresentar como uma coisa, como um ente presente. Ele seria então tranquilizador. O suplemento aqui não é, não é um ente. Mas ele também não é um simples não ente. Seu deslizar o furta à alternativa simples da presença e da ausência. Tal é o perigo. (DERRIDA, 1997, p.56).
Como mostra Derrida em seu livro, a fala humana sempre foi vista como um privilégio da espécie humana. Ela era aquilo que dividia o ser humano e os demais animais, definindo, dessa forma, a singular existência humana e colocando ela acima do silêncio das plantas e do miar dos gatos. Dessa forma, o ser humano era especial assim como era por ser capaz de tomar a palavra. Como a palavra chegou até ele poderia ser um mistério, mas uma vez possuidor de fala, o ser humano estava livre do grande silêncio da matéria. Isso separava o ser humano do mundo do animal.
Devido ao privilégio da fala viva, o ato de escrever era visto como um perigo. Escrever, na solidão do homem no silêncio da criação, é altamente suspeito. O silêncio da escrita é uma tentação a qual o ser humano não pode sucumbir. A escrita possui uma criatividade demoníaca que não pode ser controlada. “A escritura será descrita como a própria errância, a vulnerabilidade muda a todas as agressões. A escritura não reside em nada” (DERRIDA, 1997, p.72). A escrita é perigosa porque sempre é uma possibilidade de transgredir as fronteiras do
discurso falado. “Ela permite-lhe interiorizar tudo e qualquer limite como sendo e como sendo
o seu próprio. Permite-lhe no mesmo lance excedê-lo e guardá-lo em si” (DERRIDA, 1997, p.21). Ela pode ir além e o escritor corre sempre o risco de ser alguém que foi longe demais. Falar é dizer menos do que escrever e, por isso, é ser mais preciso. E é precisamente porque não devemos ir mais longe, porque a escrita falha na tentativa de ser precisa, que devemos privilegiar o discurso falado. Esse reconhecimento da derrota da escrita entrou na história ocidental: a palavra escrita não pode transmitir com a mesma precisão do que a palavra falada e por isso ela foi relacionada com o phármakon platônico:
Esse prahármakon, essa medicina, esse filtro, ao mesmo tempo remédio e veneno, já se introduz no corpo do discurso com toda a sua ambivalência. Esse encanto, essa virtude de fascinação, essa potência de feitiço, podem ser – alternada ou simultaneamente – benéficas e maléficas. O phármakon seria uma substância, com tudo o que essa palavra pode conotar, no que diz respeito à matéria, de virtudes
ocultas, de profundidade crítica recusando sua ambivalência à análise, preparando, desde então, o espaço da alquimia, caso não devamos seguir mais longe reconhecendo-a a própria anti-subistância: o que resiste a todo filosofema, excedendo- o indefinidamente como não-identidade, não essência, não substância, e fornecendo- lhe, por isso mesmo, a inesgotável adversidade do seu fundo e de sua ausência de fundo (DERRIDA, 1997, p.14).
As coisas mudaram radicalmente depois que Derrida atravessou o oceano. Nos escritores da desconstrução era como se a escrita quisesse vingar-se daqueles que a condenaram a ser subalterna da fala. Por isso seus escritores eram dedicados à pratica de escrever de forma confusa. Dispersos nesse pântano de obscuridade, suas frases eram de uma verbosidade fascinante. Sua escrita tinha o objetivo de fazer ver a precariedade das pessoas que usam a linguagem. Com sua escrita confusa – que os analíticos da época chamavam de “obscura” – os escritores da desconstrução abriram um buraco no tecido da linguagem e assim expuseram não só a própria condição mas também a nossa. Precisamos ver mais de perto a questão da escrita nos textos da desconstrução.