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II. Vigtigste indførsels - artikler
Desde o início, este estudo foi orientado na busca de uma interpretação do
corpus teórico do pensamento helleriano, tendo em vista que, principalmente no
âmbito do Serviço Social brasileiro, até o presente momento, encontrarmos poucos estudos específicos e direcionados a este fim ou sobre Agnes Heller, filósofa húngara que é considerada por alguns intelectuais, como uma pensadora secundária.
A princípio, esta consideração, nos incomodou, porque no ambiente da sala de aula e as experiências cotidianas se mostraram acolhedoras para este referencial. Conforme já apontamos na introdução, estas experiências se deram no trato com os/as discentes em Serviço Social e em outras experiências didático/pedagógicas, nas quais observamos que a teoria helleriana contribuía satisfatoriamente para o despertar de uma consciência ética e política do ser social.
Tal constatação nos levou a buscar um conhecimento mais aprofundado sobre o seu pensamento e a entender qual seria de fato sua contribuição. Assim, iniciamos nossa busca nessa direção.
É necessário esclarecer inicialmente que o conceito de ética de que nos apropriamos diz respeito à “tomada de consciência” do ser social, ou seja, do momento em que se humaniza a si mesmo e humaniza a humanidade6´7, bem como o conceito de política que, em seu sentido lato, refere-se a toda atividade humana “[...] dirigida à transformação, à modificação ou à reforma da sociedade”8.
6 Para melhor leitura e clareza, omitiremos as referências das obras de Heller nas citações diretas e indiretas no corpo do texto, apontando-as em notas de rodapé de acordo com as bibliografias da autora utilizadas para a construção dessa pesquisa e contidas nas referências dessa dissertação. Somente referenciaremos no corpo do texto as que acharmos estritamente necessárias.
7 HELLER, 2004, p. 121. 8
A hipótese de que há uma contribuição teórico-conceitual do pensamento helleriano para o campo do estudo da consciência ética e da política na e para a vida cotidiana, levou-nos a realizar, primeiramente, um estudo monográfico que abordasse o conjunto de sua obra em sua totalidade. Porém, no início, não tínhamos conhecimento do volume de sua produção intelectual.
Numa primeira pesquisa, buscamos verificar sua utilização no campo das dissertações, teses, artigos, livros - enfim, onde e como Heller estava sendo estudada e utilizada. Pouca coisa em português foi encontrada, mas o pouco que encontramos, tinha como base, principalmente, a sua teoria do cotidiano.
Também notamos que Heller era muito estudada tanto na Europa como nos Estados Unidos, de uma forma pluralista, principalmente no campo dos estudos referentes à pós-modernidade. Tendo em vista que essa não era a nossa proposta de estudo e ainda, dado a dificuldade em conseguir estes materiais, abandonamos essa intenção.
Partimos para uma segunda pesquisa, tendo em mente que o pensamento helleriano, segundo algumas opiniões particulares, constituía-se em duas fases distintas: uma marxista e uma neokantiana. Fazer uma análise para demonstrar essa hipótese, também nos parecia inviável no momento, acreditando que isso não traria nenhuma contribuição para o Serviço Social, além do mais teríamos que fazer um estudo em toda a sua obra e isso, conforme já colocamos, seria inviável.
Tendo em vista os fundamentos marxistas do Serviço Social brasileiro, demarcamos um espaço temporal que contemplasse somente a fase marxista de Heller ou os anos de sua permanência na Hungria - entre os anos de 1950 até o final dos anos de 1970. Buscamos, então, levantar os seus escritos desta época.
Qual não foi a nossa surpresa ao verificar a extensão, a dificuldade e complexidade do campo de análise teórico-filosófica desta pensadora, ao longo dos seus oitenta e três anos de existência. Além disso, percebemos que a grande maioria dos seus livros não foram escritos e editados obedecendo a sua cronologia e linearidade.
Percebemos que havia uma distinção em suas fases assaz interessante, que Ángel Prior apontou em seu livro Axiologia de la modernidad: ensayos sobre Agnes
Heller, publicado em 2002 pela Universidade de Valéncia, Espanha.
Nesse livro, Prior destaca três momentos de seu pensamento e que circunscreviam aspectos distintos da vida cotidiana de Heller: a primeira fase
compreende o seu nascimento e a sua permanência na Hungria (1929-1977), a outra contempla sua estada na Austrália (1978-1986) e a última quando passou a viver nos Estados Unidos a partir de 1986 até os dias atuais.
Esta divisão cronológica apontava sempre para a temática central: a busca de uma filosofia da vida, ou seja, “viver a vida de outra maneira” (MUÑOZ apud PRIOR, 2002, p. 11). Acerca disso, Muñoz, ao apresentar a obra de Prior, salienta que o debate trazido por Prior afirma que essa perspectiva está diretamente relacionada com o tempo e a própria evolução do pensamento de Agnes Heller, apontado para o contexto histórico e social em que ela estava e está situada e que, portanto, na atualidade, não poderia deixar de se preocupar com uma “filosofia moral e política ocidental” (idem, ibidem).
Muñoz ainda pontua que em sua permanência na Hungria, Heller estava envolta nas temáticas de sua época e pelas discussões e circunstâncias ao redor de Georgy Lukács, ou seja, a busca de um “renascimento do marxismo” e na “possível transformação socialista da cotidianidade herdada” (idem, ibidem).
Partindo do pressuposto de que os posicionamentos ético-políticos do Serviço Social brasileiro contemporâneo, sintetizam a tomada de posição frente à realidade regida pela lógica do capital, percebemos que a vida cotidiana está demarcada pelas relações objetuais e coisais. O humano, eminentemente social, se coisifica, assim como seu modus vivendi.
Deste modo, acomoda-se com os sistemas consuetudinários9 da vida burguesa, com o modo de produção capitalista e seu aparente bem-estar eminentemente econômico. Porém, para a grande maioria da população mundial, isto apenas significa que uma minúscula população concentra a riqueza socialmente produzida, gerando, assim, um ambiente contraditório e de exploração.
Nessa direção, a vida humana acaba sendo desvalorada e uma alta parcela da população acaba por incorporar a lógica do capital e da mercantilização, passando a ser vitima de si mesma. Para sair desse amalgama, dessa situação de alienação/alienante, tem-se que buscar um posicionamento contrário a esse processo de reificação da vida humana.
Assim, definimos que nossas análises deveriam circunscrever os anos de sua juventude e aos acontecimentos mais significativos da vida de Agnes Heller deste
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Entende-se por sistemas consuetudinários aqueles constituídos por normas, regras e costumes que passam de geração em geração (ex.: sistemas conservadores, moral conservadora etc.).
período e os que mais influenciaram em sua produção intelectual - o encontro de Heller com seu mestre Georgy Lukács, a “Escola de Budapeste”10 e a Hungria até o final dos anos de 1970 -, constituindo, assim, a fase em que Heller comungava com as ideias de seu mestre e o referencial teórico eminentemente marxiano e marxista.
Na medida em que fomos tomando contato com sua obra, surgiu a necessidade de conhecer mais de perto esta filósofa e o contexto sócio-histórico em que fora inserida. Numa verdadeira garimpagem, conseguimos levantar praticamente todas as obras da periodização demarcada, assim como algumas de outros períodos.
Seus livros, em grande maioria, foram traduzidos para a língua espanhola, sendo apenas dois deles, desta fase, foram traduzidos para o português: O cotidiano
e a história e O homem do Renascimento. Em sua fase intermediária, ou seja, entre
a Hungria e a sua estadia na Austrália, traduziu-se para o português as obras
Filosofia radical e Teoria da História. Algumas outras traduções de seus textos
posteriores também podem ser encontradas no Brasil.
Por conseguinte, mais um problema se colocava à nossa frente, dado ao vasto material a ser analisado: por onde começar?
Pela carência de guias de estudos, sobretudo, sobre o seu pensamento em sua totalidade e, principalmente, pelo espinhoso problema da evolução de suas reflexões, tendo em vista ainda as polêmicas endereçadas a esta personalidade e da ruptura com os posicionamentos defendidos até meados dos anos de 1980. Desse modo, ficava ainda mais complexa esta empreitada.
Precisávamos entrar no universo de Agnes Heller, viver os seus dias, introjetar tudo que fosse possível em nossas veias, num verdadeiro mergulho helleriano “por inteiro”. Foi nesse momento que tivemos a oportunidade de tecer um contato, via e-mail, com a própria Agnes Heller, que gentilmente respondia às nossas primeiras indagações.
Ao “mergulhar de cabeça” nesse universo, ver suas últimas entrevistas - em vídeo e publicações -, fotos, vídeos, seus amigos e amigas intelectuais, a Hungria, os acontecimentos mais significativos de sua vida, filmes relacionados, o holocausto, as guerras mundiais, a Revolução Húngara de 1956, os acontecimentos do Leste
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Conforme já apontamos na introdução, esta expressão se refere a um grupo de jovens intelectuais que se reuniu ao redor de Lukács entre os anos de final de 1950 até o ano de sua morte em 1971, posterior a esta data, ainda mantiveram os mesmo laços, mas sob outros propósitos. Analisaremos com mais detalhes este grupo no Capítulo III dessa dissertação.
Europeu e, sobretudo, Georgy Lukács, aquele que foi o principal responsável pela sua trajetória intelectual, descobrimos um universo a ser desvelado. Assim, surgiu a ideia de contextualizar, cronologicamente, os fatos mais relevantes de sua vida particular e intelectual, num esforço de construir uma biografia aproximada de Agnes Heller.
Depois de reconstruir rigorosamente sua vida e obra – da fase em análise -, percebemos que alguns pontos delineavam basicamente seu modo de pensar: a vida cotidiana, a democracia e a liberdade, tendo em vista o contexto histórico vivido por Heller.
Mas, por que essas temáticas implicaram tão profundamente em sua produção intelectual? Tal resposta pôde ser encontrada quando nos defrontamos com os acontecimentos e com a história da Hungria que exprime o sentimento do povo húngaro na luta pela transformação da realidade, ou seja, por meio de um “socialismo verdadeiro”.
Até o final dos anos de 1970, tanto a Hungria como o restante do mundo, passaram por grandes efervescências: duas guerras mundiais, crises econômicas, políticas, culturais e sociais, a ascensão do comunismo no Leste Europeu, a opressão dos regimes totalitários, o desenvolvimentismo avassalador do capitalismo, a “Guerra Fria”, dentre outros acontecimentos que, sem sombra de dúvidas, marcaram a história de Agnes Heller.
Desse modo, o contexto histórico em que Heller viveu, somados a ânsia por uma “redenção” e “autoafirmação” enquanto sobrevivente do holocausto, foram elementos constitutivos e constituintes que influenciaram a sua tomada de posição.
Como se não bastasse encontrou um amplo campo teórico, altamente desenvolvido e a oportunidade de viver seu desenvolvimento intelectual ao lado de Georgy Lukács, enquanto aluna e assistente, como também encontrou um berço de colegas e amigos que comungavam com o mesmo ideal.
Outra questão está diretamente relacionada aos acontecimentos sócio- históricos e políticos daquela época. Conforme os apontamentos de Heller (1982b), só quem viveu naquele período os horrores do nazi-fascismo de Hitler e o totalitarismo-fascista de Stalin, pode entender porque o sentimento de liberdade e democracia são tão significativos para aqueles/as que estiveram diretamente imersos neste universo, sobretudo, para aqueles/as que eram estimulados/as na
formação e consolidação do sujeito revolucionário individual e/ou coletivo – seja por livre vontade ou por necessidade.
Portanto, levantar a história da Hungria até aquele período foi uma tarefa assaz interessante e prazerosa. A história daquele país está indelevelmente vinculada à luta pela liberdade e pela emancipação. Não é por mera coincidência que os judeus se identificaram com aquele pequeno “país satélite” dos grandes impérios invasores.
Pensar o cotidiano como um universo tão contraditório, constitui um campo infindável e encantador a ser desvelado para alguém que buscava uma “causa” para sua vida, como foi o caso de Heller. Por conseguinte, por que não extrair do próprio cotidiano vivido os elementos para a construção de um arcabouço teórico-conceitual- filosófico, fundamentado numa determinada proposta ética e política? Não foi por mero acaso que Heller empreendeu-se nesse desbravamento.
Já de início é preciso definir o cotidiano de vida social. O cotidiano é o “mundo da vida” que se produz e se reproduz dialeticamente, num eterno movimento: “[...] é o mundo das objetivações”11. O conceito de cotidiano está relacionado àquilo que é vivido e a vida social ao que se apresenta, um e outro se relacionam.
O cotidiano é a vida em sua justaposição, numa “sucessão aparentemente caótica” dos fatos, acontecimentos, objetos, substâncias, fenômenos, implementos, relações sociais, história dentre outros fatores. A vida cotidiana aparece como a “[...] base de todas as reações espontâneas dos homens ao seu ambiente social, na qual, frequentemente parece atuar de forma caótica”12.
A existência humana implica necessariamente a existência da vida cotidiana. Não há como desassociar existência e cotidianidade, assim como, não há como viver totalmente imerso na não-cotidianidade (estado de suspensão da cotidianidade). É o mundo da vida: “[...] é o conjunto de atividades que caracterizam a reprodução dos homens particulares13, os quais, por sua vez, criam possibilidade da reprodução social”14.
É na cotidianidade que homens e mulheres exteriorizam suas paixões, seus sentidos, suas capacidades intelectuais suas habilidades manuais, suas habilidades
11
HELLER, 1977, p. 07. 12
LUKÁCS apud HELLER, 1977, p. 12. 13 HELLER, 1977, p. 19. Grifos nossos. 14
manipulativas, seus sentimentos, suas ideias, suas ideologias, suas crenças, seus gostos e pendores, enfim, todas as suas potencialidades e capacidades.
[...] A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma exceção, qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e físico. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-générica a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade. E, ao contrário, não há nenhum homem, por mais “insubstancial” que seja, que viva tão- somente na cotidianidade, embora essa o absorva preponderantemente. (HELLER, 2004, p. 17).
A vida cotidiana é o espaço da vida dos sujeitos sociais15 em suas intrincáveis e complexas relações sociais, dinâmica e dialética, ou seja, em sua forma de vida e que carrega em si múltiplas determinações (historicidade, contradições, estratificação e estrutura social, ultrageneralizações, imanências etc.)16.
Inseridos nesse contexto, homens e mulheres nascem, crescem, desenvolvem-se, educam-se, trabalham, reproduzem-se, vivem e morrem. São atuantes, desempenham seus papéis ativos, passivos, receptivos ou não, nos mais variados espaços da vida social (ou esferas heterogêneas).
Porém, muitas vezes, dado o alto grau de alienação das relações sociais, não aguçam ou mesmo não percebem suas capacidades e/ou potencialidades em sua intensidade.
No que diz respeito à Agnes Heller, as condições objetivas conspiravam para que desenvolvesse suas capacidades/potencialidades “por inteiro”, porém, ainda, tinha a possibilidade de escolha: deixar envolver-se pela cotidianidade ou buscar uma vida reflexiva? E porque não dizer revolucionária?
Na busca pelo conhecimento, primeiramente, buscou nas ciências algo que respondesse aos seus anseios, depois, mergulhou “por inteiro” no universo reflexivo da filosofia - da arte, da ética e da política. Posicionar-se ética e politicamente num cotidiano tão conturbado como os anos de sua juventude, muito mais do que uma simples escolha, era também um dever-ser.
Heller (2004) aponta que o ser social, inserido na cotidianidade, pode desenvolver ou não por si mesmo, ou seja, pode adquirir habilidades que o mantenha ativo e receptivo diante da realidade apresentada. Esse amadurecimento humano está diretamente ligado às suas habilidades e potencialidades de
15 Ser social consciente e ativo ética e politicamente.
manipulação das coisas, como também, está relacionado às relações sociais que estabelece ao longo de sua vida, o meio em que se insere (ou é inserido), as respostas aos estímulos e aos interesses, singulares e particulares, que lhe são colocados à sua frente. As respostas de Heller foram de uma vida reflexiva e revolucionária.
Para uma vida reflexiva e revolucionária, consciente, ética e politicamente, há de se fazer uma verdadeira “revolução do modo de vida”17, enquanto “ser da práxis18” (BARROCO, 2008).
Heller aponta em seu estudo Teoría, praxis y necesidades humanas19, que práxis no sentido lato é “[...] todo tipo de atividade social e, em última instância, a atividade humana em geral”20, em outras palavras, implica em toda atividade humano-social que se objetiva teórico/práxis na vida cotidiana, que implique uma atividade, ou ação dinâmica e de mudança, consequentemente, uma ação político- revolucionária21.
A vida de Heller é um verdadeiro posicionamento teórico/práxis e práxis/teórico na e para a vida social. Esta práxis-político-revolucionária implicava, necessariamente, na transformação da hierarquia das suas necessidades.
Por conseguinte, para que uma teoria se converta em uma práxis revolucionária22, deve se propor a observar determinado movimento social e suas
17 HELLER, 1978, p. 169.
18 O termo práxis (do grego – πράξις – ação) utilizado aqui em seu sentido lato como o conjunto de todos os tipos de atividades humano-sociais objetivadas no cotidiano; e em seu sentido stricto como ação transformadora do ser social através do trabalho, em outras palavras, ao transformar a natureza, o ser social transforma a si mesmo concomitantemente, numa relação dinâmica e dialética. A ação
transformadora é entendida enquanto atividade específica do ser social. Atividade prática consciente
capaz de criar e re-criar necessidades e capacidades materiais e/ou espirituais, instituindo, por sua vez, um ponto concreto, antes inexistente. Segundo Vázquez (2007, p. 28), “[...] a práxis ocupa lugar central na filosofia que se concebe a si mesma não só como interpretação do mundo, mas também como elemento do processo de sua transformação”, portanto, é uma atividade prático-consciente, capaz de criar e recriar possibilidades objetivas às suas carências e necessidades objetivas e subjetivas.
19 Este estudo se encontra como Apêndice da obra Teoria de las necessidades em Marx (1978), compreendendo as páginas 161 a 182.
20
HELLER, 1978, p. 164.
21 Opção condicionada direta e historicamente a uma ação direcionada à alterar a realidade dada: “[...] o que é a revolução sem a transformação profunda da vida dos homens?” (HELLER, 1982b, p. 121).
22
Entendemos aqui como práxis revolucionária o movimento de transformação social concreta e dinâmica da vida social. Para Marx, em suas Teses sobre Feurerbach, “os filósofos apenas interpretaram o mundo diferentemente, importa é transformá-lo” (MARX; ENGELS, 2007, p. 29 – grifos do autor). Não basta somente interpretar, expor, refletir sobre as condições ou circunstâncias objetivas ou subjetivas de aspectos relacionados à vida humana, mas sim, ir além, procurar condições e possibilidades concretas e objetivas de reverter ou minorar situações que impedem que a vida humana se exponha a condições subumanas de sobrevivência.
situações concretas. A práxis contém em si os meios adequados para cada situação/objetivação concreta e em sua totalidade (HELLER, 1978).
Heller, enquanto individualidade consciente do seu papel social e de suas ações, por si só e pela própria condição de ser social inserida num cotidiano tão diverso, plural e contraditório, merecia um estudo mais aprofundado. Deste modo, passou a ser nossa preocupação apropriarmo-nos de seu pensamento, do seu cotidiano, para somente depois, darmos sequência a nossa proposta investigativa.
Dada à dimensão e erudição de seus escritos, fixamo-nos em suas análises sobre o cotidiano e o ser social, buscando a sua essência filosófica. Partindo das contradições inerentes aos fenômenos e às mudanças dialéticas que ocorrem na sociedade contemporânea e do universo helleriano, em sua totalidade, tendo como objetivo entender a antropologia-ontológica produzida por Heller no intuito de entender o indivíduo social em sua particularidade, singularidade e genericidade.
Deste modo, nos apropriamos dos referenciais teórico-metodológicos de cariz marxiano e marxista, buscando apoderar do objeto em seus pormenores e em suas diferentes formas de desenvolvimento, perquirindo uma conexão íntima entre elas, para somente depois, descrever adequadamente, a(s) essência(s) velada(s) pela aparência.
A vida de Heller, assim como a de qualquer pessoa, não estava livre das implicações e determinações cotidianas e das vivências de outras pessoas, principalmente as que dividiram o mesmo contexto histórico-social de sua época. Sua vida, tanto objetiva como subjetiva, desenvolveu-se repleta de acontecimentos constituintes de qualquer cotidiano, porém, no caso dela, acontecimentos particulares e próprios daquele contexto, direcionaram-na para um determinado modo de pensar e agir numa determinada direção.
Não podemos esquecer que em cada época e contexto social há particularidades, estruturas, sistemas político-econômico-culturais, enfim, realidades diversas e distintas em suas formas, tessituras, ritmo, substâncias dentre outros elementos constitutivos e constituintes, como também, cada pessoa em sua singularidade-particularidade reage de uma maneira a essas determinações.