Det Statistiske Centralbyra,a
I. Rikets toldintrader i juli 1912, sammenlignet med tidligere aar
Ao nascermos, segundo Heller, assumimos continuamente “papéis sociais” na e para a vida cotidiana. Conforme já apontamos, o indivíduo é inserido num mundo repleto de contradições, normas, regras, valores, costumes, culturas, instituições, sistemas e/ou estruturas consuetudinários, juízos provisórios, ultrageneralizações, representações, ou seja, “num mundo já dado” – já constituído antes mesmo de nascermos.
Nascemos em condições sociais reais e concretas, em sistemas, estruturas, determinações, expectativas, instituições, modos de ser social e historicamente determinadas. A assimilação deste contexto, as ciências da psique já explicam - se dá pelos sentidos e através de representações – ou se quisermos, por condicionamentos.
Aprendemos primeiramente a usar e manipular as coisas, a apropriar mecanicamente dos elementos/substâncias, em conformidade aos hábitos e costumes de cada época, da estrutura e estratificação social, dos contextos sociais distintos, momentos históricos diferenciados, enfim, de acordo com os padrões sociais já estabelecidos.
Heller109 aponta que essa assimilação é realizada, particularmente, através de imitações110 (mímesis111). A mímesis está relacionada à característica constitutiva
109 HELLER, 2004, p. 87-110.
110 Segundo Guimarães (2002, p. 16), em termos helleriano, a imitação se considera como “a primeira ação do cotidiano, pois antes de os sujeitos terem consciência, obedecerem a regras e normas etc., existe o comportamento que se constitui por imitações e que se faz presente a partir dos primeiros anos de vida das pessoas. [...] A imitação constitui-se numa objetivação em si, porque, a partir da imitação de um comportamento ou pensamento, passo a me apropriar de algo ou de alguma coisa. Esta característica pode permanecer presente durante toda a vida das pessoas, pois é um comportamento, que muitas vezes é reforçado socialmente”.
111 Mímesis ou mimese (do grego – μίμησις – imitação), conceito utilizado inicialmente por Platão, no Livro X d’A República, que, segundo Gagnebin (1993, p. 68) se referia a um “modelo a ser seguido” através da imitação ou representação desse modelo. Contra Platão, Aristóteles, no livro Poética, reabilita a mímesis enquanto “forma humana privilegiada de aprendizagem” (idem, p. 70), conceito que acreditamos mais apropriado nesta investigação.
e particular de aprendizagem do ser social, sobretudo, na infância. Portanto, a
mímesis faz parte da natureza humana.
Ao assimilar as imagens112, modos, condutas, ações, representações, opiniões, usos e costumes, ou seja, ao tomar contato com as coisas e situações do cotidiano, o indivíduo traz para sua mente as imagens e representações da realidade. Em sua particularidade, o ser social se adapta as formas sociais (LUKÁCS, 1971, p. 09).
Para Aristóteles (1984), “[...] o imitar é congênito no homem”. É por meio da
mímesis que o humano aprende as primeiras noções das coisas e da vida social.
[...] Nós contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, por exemplo, [as representações de] animais ferozes e [de] cadáveres. Causa é que o aprender não só apraz aos filósofos, mas também, igualmente, aos demais homens, se bem que menos participem dele. Efetivamente, tal é o motivo por que se deleitam perante as imagens: olhando-as, aprendem e discorrem sobre o que seja cada uma delas, [e dirão], por exemplo, “este é tal”. (ARISTÓTELES, 1984, p. 243).
Diferente dos animais, o humano é capaz de imitar não apenas momentos e funções isoladas, mas também modos inteiros de conduta e de ação. No exemplo já referido das meninas-lobos, o processo de imitação/representação se apresentou restrito ao mundo animal, tal a similitude encontrada. Ao serem introduzidas no universo social, não foram capazes de assimilá-lo em sua totalidade. Este é um caso assaz interessante para análises, porém, não nos cabe aqui nem é nosso propósito fazê-las.
Mas esta imitação/representação não se apresenta de modo absoluto. O ser social não só se apresenta enquanto simulacro, mas parte da mímesis para os diversos estágios do desenvolvimento social: “[...] o homem não pode alienar-se de sua natureza de um modo absoluto [...]”113.
[...] A sociedade não poderia funcionar se não contasse com sistemas consuetudinários de certo modo estereotipados. Esses sistemas constituem o fundamento do sistema de “reflexos consuetudinários” do homem, sistema que permite aos membros de uma sociedade mecanizar a maior parte de suas ações, praticá-las de um modo instintivo (mas instintivo por aquisição, não como resíduo de uma estrutura biológica), ou seja,
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Imagem aqui é usada enquanto representação dos cinco sentidos do ser social – visão, olfato, audição, paladar e tato.
concentrar o pensamento, a força moral etc., nos pontos concretos exigidos pela realização de novas tarefas. (HELLER, 2004, p. 88).
A vida cotidiana se tornaria complicada, ou até mesmo impossível de ser realizada sem as imitações/representações. Os nossos atos mais corriqueiros se tornariam impossível de serem realizados se parássemos a cada momento para refletir sobre eles. Por exemplo, o simples ato de escovar os dentes pela manhã, tornar-se-ia complicado se já não absorvêssemos os mecanismos próprios para a sua realização. Se fossemos refletir a cada manhã sobre o seu processo ou significado deste ato, não conseguiríamos nem mesmo sair de casa ou realizar as demais tarefas cotidianas114.
A reciprocidade social é substantiva e resultante das relações sociais que, em outras palavras, é o reconhecimento mútuo dos seres diante da mesma espécie e que partilham as mesmas atividades, portanto, social, plural e heterogênea115.
Na imediaticidade116, em sua particularidade e singularidade, os indivíduos respondem117 à sua sobrevivência e manutenção imediatamente. É na imediaticidade que se instaura o processo de alienação, ao produzir e reproduzir as imitações/representações sociais carregadas de juízos provisórios118 e de
114
As tarefas cotidianas são realizadas, em sua grande maioria pela repetição. Guimarães (2002, p. 13-14) salienta que podem acontece na esfera do particular/individual – repetição de movimentos já
treinados e assimilados -, ou seja, ações que desempenhamos sem mesmo nos darmos conta (abrir e
fechar portas, janela, torneiras, escovar os dentes etc.) – ações automáticas, repetitivas, objetivas e sem concentração. Como também na esfera do economicismo, ou seja, no intuito de economizar tempo, ações rápidas e breves, como por exemplo, “para obter alimento, não preciso plantar, esperar crescer, colher, vou direto ao supermercado e compro o que desejo” (idem, p. 14), ou seja, na esfera da imediaticidade.
115
A heteroneidade da vida cotidiana compreende as “atividades que compõem o conjunto das objetivações do ser social” (NETTO; CARVALHO, 2010, p. 67). Em outras palavras, compõe a hierarquia concreta das atividades intrínseca, extrínsecas e estritamente humanas incomum, heterogêneas e variáveis. Para Guimarães (2002, p. 13), essa heteroneidade “se caracteriza por sermos todos diferentes; não há pessoas iguais, é a alteridade a partir da singularidade”.
116 Relativo às ações (ou objetivações) imediatas da vida cotidiana que, na sua grande maioria, se apresentam na esfera do pragmatismo, ou seja, “ações baseada num pensamento essencialmente prático, empírico, que não necessita de teorias que explique, pois a prática diária confirma que aquilo é o verdadeiro” (GUIMARÃES, 2002, p. 16).
117 Lukács (2004, p. 39) em sua Ontologia do ser social afirma que o ser social é “capaz de dar respostas”.
118
Heller (2004, p. 43-63) traz uma importante contribuição para as análises sobre os preconceitos – uma forma de juízo provisório. As formas de preconceitos impedem categoricamente as possibilidades de liberdade do ser social. Buscaremos mais a frente detalhar com melhor clareza esta categoria vinculada ao pensamento helleriano. Para Guimarães (2002, p. 17), os juízos provisórios “são assim considerados porque não possuem nenhuma teoria que os sustentem, ou seja, são pensamentos empíricos baseados na experiência cotidiana e social das pessoas, sendo que a prática os confirma como verdadeiros” ou não.
ultrageneralizações119 - portanto, representações miméticas alienadas -, se afirmando, deste modo, enquanto ser-ai120 alienado/a.
Para Heller (2004, p. 102-103),
[...] o capitalismo desenvolvido aliena todas as relações humanas, cristalizando em papéis todos os sistemas consuetudinários, todas as hierarquias de comportamento etc., de tal modo que os fatos vitais imprescindíveis para a convivência humana, tais como a imitação, os estereótipos básicos, a relação com a tradição, os costumes etc., passam a aparecer sob forma de papéis.
No mundo regido pela lógica capitalista as imitações/representações sociais aparecem, genericamente, estranhas e hostis à natureza. Para Heller, “[...] o caráter estruturado do uso, a presença simultânea de várias reações consuetudinárias (sistema tanto mais complexo quanto mais desenvolvida é a sociedade), é um dos pressupostos da função papel” 121.
Ao objetivar-se no cotidiano, em sua imediaticidade122, o ser social apropria- se somente de alguns aspectos de suas capacidades genéricas123, outros, porém, podem não aparecer ou aparecem como estranhos, necessitando, assim, de
estímulos para a sua consciência:
[...] apropriar-se das habilidades do ambiente dado, preparar-se124 para o mundo dado, significa, portanto, não somente interiorizar e desenvolver as capacidades humanas, mas também e ao mesmo tempo – tendo em conta
119
A ultrageneralização é um “tipo de juízo provisório ou uma regra provisória de comportamento:
provisória porque se antecipa à atividade possível e nem sempre, muito pelo contrário, encontra
confirmação no infinito processo da prática” (HELLER, 2004, 44-46 – grifos da autora), podendo ser científicas ou cotidianas, com base em fatos e/ou dados reais ou do senso comum, verdadeiros ou falsos.
120 Referência ao ser-assim (LUKÁCS apud HELLER, 1977, p. 9-10). 121
HELLER, 2004, p. 88. Grifos nossos.
122 O ser social, em sua imediaticidade, assimila os aspectos e substâncias da sua própria realidade, daqueles que estão circunvizinhos a sua esfera de possibilidades, outros lhe aparecem estranhos. A serem estimulados (consciente ou inconscientemente) ou ser social pode ou não apropriar-se destas novas situações que podem apresentar-se inesperadamente. A falta de possibilidades também pode ser fator de procura e descoberta, portanto, aparecem como estímulos. Em sua Teoria das
necessidades em Marx, Heller traça um horizonte para entendermos mais amiúde como podem se
manifestar ou não os estímulos. Não é nossa proposta entrar no campo da psicologia para compreendermos melhor estes aspectos, apenas de trazer a tona alguns dos aspectos mais relevantes das obras de Heller.
123 Entende-se enquanto humano-genérico a totalidade das ações e reações humanas social e historicamente constituídas, ou seja, é “sempre representado pela comunidade ‘através’ da qual passa o percurso, a história da humanidade” (HELLER, 2004, p. 21).
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No original em espanhol, o tradutor utiliza o verbo madurar que, segundo tradução quer dizer “alcançar ou haver alcançado um desenvolvimento completo” (VOX, 2010, p. 710), portanto, processo pelo qual o ser social assume a sua maturidade.
a sociedade em seu conjunto – apropriar-se da alienação. (HELLER, 1977, p. 29)125.
Ao produzir/reproduzir ações sociais alienadas, alienantes e reificadas, em outras palavras, fundamentadas pela lógica do “mais forte”, do “mais rápido”, do “descartável”, o ser social passa a reproduzir “papéis” objetuais, negando a sua própria natureza e enquanto ser de consciência126, ou seja, enquanto ser ético e político, enquanto ser de liberdade.
Contudo, o ser social paralelamente ao desenvolvimento social, e em proporção crescente, transforma suas próprias carências e necessidades em potencialidades, que podem ou não serem objetivadas. O êxito, a falta dele ou a sua negação, podem contribuir para que o ser social procure superar a sua situação imediata, como também pode não reagir ou, até mesmo, criar novas formas de agir: “[...] a negação é um importante impulso para a realização de novas formas de vida”127.
Para Heller128, “[...] toda negação é, ao mesmo tempo, afirmação: esse princípio também se amplia plenamente ao caráter”, conforme já exemplificamos anteriormente. Contudo, ao negar a sua própria negação - negação enquanto humano-genérico -, afirma-se na sua singularidade enquanto ser consciente de si-
mesmo e ao objetivar-se enquanto ser consciente de si-mesmo, objetiva-se
particularmente em-si-mesmo.
Quanto maior a sua exposição à realidade fetichizada, maior será a sua identificação particular com os “papéis sociais” alienados e alienantes, por conseguinte, contribui para o aumento das suas objetivações alienadas e alienantes. Contudo, quanto mais se afirmar em-si-mesmo enquanto ser consciente de-si-
mesmo, maior será o campo das possibilidades que se abrem para uma consciência
ética e política para-si-mesmo, por conseguinte, maior será a extensão das possibilidades e liberdades.
125
Grifos da autora.
126 Kosik (2010, p. 241-242) define consciência humana como a “atividade do sujeito que cria a realidade humano-social como unidade de existente e de significados, de realidade e de sentido”, portanto, onto-criativa. Porém, para nossas exposições, este conceito se apresenta muito restrito, não contemplando nossas análises. Desta forma, o estágio de consciência do qual estamos trabalhando, merece aprofundamentos mais detalhados que apresentaremos mais adiante.
127
HELLER, 1982, p. 156. 128 HELLER, 2004, p. 108.
Este jogo de palavras – que não são palavras soltas, mas sim categorias constitutivas e constituintes da ontologia do ser social – indicam a complexidade da ontologia do ser social.
O ser social é sempre e simultaneamente, ser particular e ser genérico: particular enquanto resultante da síntese de múltiplas determinações genéricas; genérico porque é a sínteses de múltiplas determinações histórico-sociais; e, por fim, singular enquanto síntese entre o particular e o genérico.
O indivíduo social – enquanto consciente de-si-mesmo -, não expressa a sua singularidade enquanto ser isolado, mas sim enquanto síntese de múltiplas determinações sociais - é o ser social em sua singularidade-individualidade, simultaneamente social e consciente de seu lugar na e para a vida social.
Não representa a essência da Humanidade – ou o humano-genérico -, mas contém em si sua substância. Ao mesmo tempo em que é singular – enquanto indivíduo social – é particular e genérico – enquanto ser social. Tal é a antropologia- ontológica de sua genericidade.
Essas objetivações fundam e enriquecem a sua própria atividade teleológica129, estabelecendo mediações bastante articuladas, de modo que não só a responda no campo da imediaticidade, mas também a pergunte, produzindo na sua consciência as possibilidades de objetivação e, dentre elas, escolhe a que melhor satisfaça às estas suas carências e necessidades (LUKÁCS, 2004, p. 39).
É na tensão e contradição dos acontecimentos cotidianos que se expressa o palco da vida e a vida de todos nós. Historicamente, homens e mulheres, delegaram a outrem ou a instituições a sua colocação na vida social, representando “papéis sociais”, deixando-se conduzir por caminhos já traçados e planificados por outras pessoas ou por interesses que nem sempre constituem a satisfação das necessidades mais prementes da genericidade humana, determinando e condicionando vidas, muitas vezes, a modos de ser alienados e alienantes.
129
Vázquez (2007a, p. 77) aponta que “[...] toda ação especificamente humana exige certa consciência de um fim, ou antecipação ideal do resultado que se pretende alcançar”, portanto, teleologia é a “capacidade humana de projetar finalidade às ações; finalidades que contêm uma intenção ideal e um conjunto de valores direcionados ao que se julga melhor em relação ao presente” (BARROCO, 1999, p. 122). Segundo Abbagnano (2007, p.1110), teleologia é “a parte da filosofia natural que explica os fins das coisas”. A dimensão teleológica compreende a capacidade do ser social de “projetar antecipadamente na sua imaginação o resultado a ser alcançado pelo trabalho, de modo que, ao realizá-lo, não apenas provoca uma mudança de forma da matéria natural, mas nela realiza seus próprios fins” (IAMAMOTO, 2006, p. 40).
Contudo, o modo de ser e a consciência ética e política não pode se reconhecer na alienação. Desse modo, torna-se necessário lutar contra qualquer tipo ou modo de alienação, jamais podemos permitir que outrem o/a reduza à “condição de verme”, contudo, “[...] quem se considera como um verme, não pode depois reclamar de ser pisoteado”130.
CAPÍTULO II
2. PANORAMA DA VIDA COTIDIANA
“A diferença radical ‘apenas’ – e este ‘apenas’ representa o mundo inteiro – está basicamente no fato de que a totalidade do mundo ‘dado’ não assume para o indivíduo a sua quase transcendência”.
Agnes Heller