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Nesse Capítulo tratarei de duas constelações marginais ao ciclo principal de constelações dos índios Tukano e ainda vou narrar o mito e o significado geral que a Via-Láctea tem para esse grupo.
As constelações de Sipé Phairó ou jararaca de ânus grande e Uphaig¨,
cágado, foram consideradas fora do ciclo principal de constelações porque não estão associadas às enchentes. Isso não implica, no entanto, que elas sejam desconsideradas ou que tenham pouca importância.
A jararaca Sipé Phairó tem um ânus grande, como já foi dito (Capítulo 3) e por isso, os peixes entram no animal e somem dos rios na época em que essa constelação está se pondo. O cágado Uphaig¨ tem propriedades mágicas para a benzedura de crianças recém nascidas ou para mães gestantes. Seu poderoso sangue vivifica, isto é, reanima aqueles que são banhados e benzidos, quando crianças, num casco de jabuti.
Certamente existem outras tantas constelações que estão fora do ciclo principal e são importantes para os povos do Alto Rio Negro. Especificamente para os Tukano há algumas constelações que representam animais peçonhentos e que se encontram, no Céu, próximos das jararacas (Aña Diaso e Siphé Phairó). Mas essas constelações vão aparecendo aos poucos nas narrativas e se revelam em cada detalhe nas viagens ou nas oficinas que desenvolvo com eles. Talvez seja porque essas constelações possuam importância ritual e eles as revelem aos poucos para alguém de fora, ou ainda porque algumas vão sendo criadas e recriadas na dinâmica dos nossos encontros. Ainda é difícil de saber ao certo.
É verdade que há constelações imaginárias que nem correspondem, ao certo, a quaisquer estrelas, ou ainda que mudem de posição no céu ao sabor da criatividade. É um terreno de incerteza e, por isso mesmo, de beleza e descoberta, ou criação.
Na esteira das constelações que estão fora do Ciclo Principal encontramos a Via Láctea, que não é uma constelação, obviamente, mas que serve de suporte para várias constelações de etnias indígenas diversas, no Brasil. O nome para os nossos
antepassados lembrava aquilo que conseguimos, ainda hoje, observar sem auxílio de instrumentos, isto é, uma grande faixa irregular que se apresenta como uma massa de aspecto leitoso. Ela cobre toda uma área do céu, mais facilmente visível em locais de pouca poluição e iluminação. Cada Cultura vê de maneira diferente esse rio de leite e por isso vou me deter na narrativa de um mito dos Tukano, dos Dessano e dos Tuyuka sobre essa faixa nebular. Vale a pena estudá-la de maneira mais aprofundada em face de algumas suspeitas levantadas por pesquisadores em Etnoastronomia brasileira.
4.1. Sipé Phairó 4.1. Sipé Phairó 4.1. Sipé Phairó
4.1. Sipé Phairó –––– Jararaca de ânus grande Jararaca de ânus grande Jararaca de ânus grande Jararaca de ânus grande
Estou tratando aqui de mais uma jararaca entre tantas outras, ou tantos outros animais peçonhentos que são vistos no céu Tukano110. Sipé Phairó (jararaca de ânus grande) pode ser considerada mais uma representação associada a um ciclo natural, um marcador temporal (BORGES, s/d, p. 40) ligado ao período de diminuição de peixes no médio Tiquié.
Os índios dizem que ao encostar seu ânus no rio essa jararaca o abre e os peixes entram por ele, ficando no interior da cobra. Ninguém soube dizer ao certo, se os peixes reapareciam em outro lugar, serviam de alimento para a cobra ou retornavam para o rio, entre outras soluções para esse enigma. Essa lógica causal que nós exigimos dos nossos raciocínios não é aquela que, necessariamente, é utilizada por esses grupos.
A constelação em questão está voltada para os lados do norte do céu e por isso mesmo suas estrelas passam pelo horizonte noroeste quando anoitece, entre os meses de julho e setembro. A constelação é bastante extensa e ocupa entre suas extremidades mais de 50º de céu.
O fenômeno do desaparecimento ou substancial diminuição dos peixes foi observado por mim durante minha segunda estada na área Tukano. Havia poucos
110 É o caso de Siropé que é uma jararaca a leste, no céu, não identificada ainda como constelação, betó (curva
literalmente ou anel também em algumas acepções) que é mais uma jararaca e possivelmente uma constelação reconhecível, segundo eles dizem. Ainda existe kaneteró que possivelmente é mais uma constelação que representa uma jararaca, além do lagarto venenoso: aña d¨hpoa, que literalmente significa cabeça da jararaca,
peixes e um dos motivos apontados era a presença de Sipé Phairó, todos os dias, ao anoitecer, passando pelo horizonte. Alguns chegaram a afirmar que essa constelação traria um pouco de chuva, mas que não chegava a produzir uma enchente ou poero (enchente em Tukano), como no caso de outras constelações (Capítulo 3).
Considero muito interessante o caso específico dessa constelação porque ela é um marcador temporal ligeiramente diferente daqueles assumidos para as outras constelações. O ciclo observado aqui se relaciona diretamente ao dos peixes e não com alguma enchente determinada. Esse foi o principal motivo pelo qual eu a considerei fora do ciclo principal de constelações. Ela também está afastada para os lados do norte e por isso mesmo não se encontra na faixa de constelações típicas do ciclo principal.
As estrelas de Sipé Phairó (jararaca de ânus grande) são brilhantes, fáceis de identificar e essencialmente fazem parte da constelação que associamos com a Ursa Maior na tradição greco-romana. Devido à baixa latitude terrestre da área Tukano esse conjunto de estrelas é visto relativamente alto no céu e desaparece por completo até meados de setembro, para voltar a chamar a atenção depois dos primeiros meses do ano seguinte, por volta de abril.
O ânus dessa jararaca é para nós a estrela η (éta) da Ursa Maior conhecida pelo nome árabe de Alkaid e sua cabeça é a estrela mais brilhante do conjunto: α (alfa) da Ursa Maior que recebe o nome de Dubhe, na nossa tradição. As estrelas que constituem o restante da constelação entre a cabeça e sua cauda são as conhecidas estrelas da Ursa Maior principalmente para os habitantes do Hemisfério Norte: Merak que é β (beta) da Ursa Maior, Phecda que é γ (gama) da Ursa Maior,
Megrez que é δ (delta) da mesma constelação, Alioth, ε (épsilon) da Ursa Maior,
Mizar que é a estrela ζ (zeta) da Ursa Maior para finalmente chegarmos a Alkaid.
Sipé Phairó (jararaca de ânus grande) fica relativamente perto da constelação de Yhé (garça) e aproximadamente à mesma distância angular de sua siõka
(iluminador). Para os índios Tukano a siõka de Sipé Phairó corresponde à estrela conhecida pelo nome de Arcturus - α (alfa) de Bootes, Boieiro ou Boiadeiro que é uma de nossas constelações dos não índios. Alguns membros da comunidade disseram que a constelação de Sipé Phairó começa em seguida de sua siõka. Isso não se confirmou pelo depoimento de outros, mas, se por ventura for verdade, talvez
faça parte dessa constelação Izar que é ε (épsilon) do Boieiro e Seginus que é γ (gama) dessa constelação.
Apesar do reconhecimento aparentemente inequívoco no céu graças às estrelas brilhantes que a compõem, os Tukano não fizeram desenhos dessa constelação e todos riem muito quando repetem que a jararaca tem ânus grande. Pouco importa quantas vezes falem do assunto. As crianças são as primeiras a rir e repetir o nome da constelação realçando as características dessa jararaca. Os depoimentos também apontaram que Sipé Phairó é uma espécie de filha ou, no mínimo, parente111 da jararaca principal que é Aña Diaso (jararaca d’água) que é a constelação associada à nossa constelação do escorpião (Capítulo 3).
4.2. Uphaig 4.2. Uphaig 4.2. Uphaig
4.2. Uphaig¨¨¨¨ –––– Cágado Cágado Cágado Cágado
Se de um lado a constelação de Sipé Phairó (jararaca de ânus grande) está na região norte do céu, o cágado se encontra na região celeste sul. As estrelas que estão identificadas com essa constelação representam em grande parte o nosso Cruzeiro do Sul, segundo a identificação dos Tukano. Como estamos praticamente no Equador da Terra a constelação do Cruzeiro não ganha grande altura nessa Latitude (Apêndice).
Desde a primeira viagem a área Tukano, em 2005, que essa constelação já havia sido descrita pelos índios. No dia 30 de novembro de 2005 os meus registros mostram que há duas descrições para o mesmo conjunto de estrelas. O primeiro é o de Yurara, palavra que os índios simplesmente identificaram com o Cruzeiro do Sul ou o símbolo de Jesus Cristo no céu112. Depois, em seguida, a palavra foi identificada com Yerhowá que, segundo os Tukano representa uma garça. Como os
111 Quando eles dizem: parente, podem estar querendo conotar o mesmo tipo de grau de parentesco que os índios
de tribos diferentes têm entre si ou ainda sobre as sibs que se relacionam a um mesmo grupo étnico. Essa questão ainda carece de melhor investigação, mas é razoável supor que eles considerem sibs entre as constelações, principalmente as jararacas, a exemplo do relacionamento social entre eles mesmos.
112 É bem possível que a influência dos Salesianos tenha sido determinante nesse caso. Não foi possível fazer
uma investigação mais aprofundada, mas é razoável supor que os padres conhecessem a constelação do Cruzeiro e sua ligação com um dos signos máximos do cristianismo, induzindo os índios a fazerem a correspondência que ora se apresenta. Em outras regiões do Brasil essa influência de nome é bem mais evidente como é o caso dos Guarani que o chamam de (Curuxu) numa forte alusão sonora ao Cruzeiro do Sul. (AFONSO, s/d, p. 53).
dois nomes são muito parecidos poderiam representar o mesmo ente, mas depois eles disseram que se tratavam de palavras diferentes. Cada qual representava uma garça ou um cágado. Eu fiquei confuso com tudo o que se apresentava e não quis forçar uma identificação de maneira precipitada. A informação geral era de que essa garça Yerhowá, estaria nascendo no céu enquanto a outra garça (Yhé) estava se pondo. Depois que eu descobri a localização da garça (Yhé) no céu, que corresponde a nossa constelação da Cabeleira da Berenice percebi, na verdade, que ambas as constelações se põem juntas: o Cruzeiro e a Cabeleira da Berenice ou Yurara/ Yerhowá e Yhé.
Em 2006, na segunda viagem (oficina 2) a área de São José II eu voltei à constelação de Yurara e os Tukano passaram também a chamá-la de Uphaig¨.
Essa palavra representa um cágado que eles também chamaram de Yurara, afirmando que esse último termo se relacionava com o nome do animal em língua geral (Nheengatu). As descrições da garça (Yerhowá) desapareceram. Como o nome Uphaig¨ também foi usado pelos sábios de outras comunidades incluindo os Dessanos e Tuyukas presentes, eu assumi essa descrição como sendo válida, apesar de ainda existirem possibilidades de variações sobre essas descrições e pesquisadores que consideram outros pontos de vista. É o caso de Germano Afonso que afirma:
Verificamos que etnias diferentes – distintas culturalmente, como seria de esperar – possuem um conjunto muito semelhante de conhecimentos astronômicos, utilizados para materializar tanto o calendário como os sistemas de orientação. Esse conjunto comum se refere principalmente, ao Sol, Lua, Vênus, Via Láctea e às constelações do Cruzeiro do Sul, Plêiades e das regiões do céu onde se situam Órion e Escorpião, constelações ocidentais que surgem, respectivamente no verão e no inverno, no Hemisfério Sul. (AFONSO, s/d, p. 48).
Para esse pesquisador a região correspondente ao Cruzeiro do Sul está num dos limites da figura de uma Ema (Guyra Nhandu). Sua cabeça está numa região do Cruzeiro conhecida como saco de carvão. Para o mito guarani, ainda segundo esse pesquisador, a constelação do Cruzeiro do Sul segura a cabeça da Ema. Caso ela se solte, beberá toda a água da Terra e morreremos de seca e sede. (AFONSO, s/d, p. 54).
Figura 4.01: Figura 4.01: Figura 4.01:
Figura 4.01: Representação da Constelação da Ema Representação da Constelação da Ema Representação da Constelação da Ema Representação da Constelação da Ema Fonte: Figura 4.01 <
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Figura 4.02: Asterismo da Constelação da Ema Figura 4.02: Asterismo da Constelação da Ema Figura 4.02: Asterismo da Constelação da Ema Fonte: Figura 4.02 <
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Fonte: Figura 4.02 <http://www.almanaquebrasil.com.br/especial.asphttp://www.almanaquebrasil.com.br/especial.asphttp://www.almanaquebrasil.com.br/especial.asp>>>> http://www.almanaquebrasil.com.br/especial.asp
Assim, não se descarta a possibilidade de que Uphaig¨ seja uma representação para outra região do céu que tenha sido associada ao Cruzeiro Sul, pelos Tukano do médio Tiquié. Ao mesmo tempo, o fato deles representarem essa constelação como um cágado e apontarem para a região do Cruzeiro é um fato que não pode ser desprezado. Como resultado da produção Cultural, que carrega toda a sua carga de dinamismo, a criação de constelações pode sofrer variações de região para região, mesmo que haja um fundo Cultural comum nas representações dessas imagens e que ele se encontre no passado inacessível ou de difícil alcance de um grupo humano.
Em nossa Cultura não índia o Cruzeiro do Sul é relativamente fácil de ser identificado. Cinco são suas estrelas principais. A estrela α (alfa) do Cruzeiro, também conhecida pelo nome próprio de estrela de Magalhães113 e por Acrux, algumas vezes por conta da corruptela alfa da constelação Crux (nome latino da constelação)114, a estrela β (beta) do Cruzeiro que também é conhecida como Mimosa ou Becrux (Beta Crucis). É bem possível que o termo venha da corruptela de Beta da Crux (Cruzeiro), a estrela γ (gama) do Cruzeiro, também conhecida pelo nome de rubídea por causa de sua coloração levemente alaranjada ou avermelhada - Gacrux (corruptela de Gama da Crux), a estrela δ (delta) do Cruzeiro, também
113 Em homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães (1480? – 1521) que navegou sob bandeira
espanhola e a quem se atribui a façanha de ser o europeu a ter comandado uma expedição de circunavegação no planeta pela primeira vez.
conhecida por pálida devido ao seu brilho pouco intenso e ε (épsilon) do Cruzeiro, também conhecida como intrometida por conta de praticamente quebrar a simetria da configuração da cruz. Essa última estrela comparece em algumas representações para os Tukano, como podemos ver no caderno de constelações de um dos alunos. Já em outras representações ela não é encontrada assim como para outros povos indígenas brasileiros. (AFONSO, s/d, p. 53). Naturalmente não sei se isso acontece por minha influência nessa comunidade.
Figura 4.03: Figura 4.03: Figura 4.03:
Figura 4.04: Figura 4.04: Figura 4.04:
Figura 4.04: Outra representação de UphaigOutra representação de UphaigOutra representação de UphaigOutra representação de Uphaig¨¨¨¨ com estrela com estrela com estrela com estrela Intrometida Intrometida Intrometida Intrometida –––– Oficina 2 Oficina 2 Oficina 2 –––– 2006 Oficina 2 2006 2006 2006
Figura Figura Figura
Figura 4.5: 4.5: 4.5: 4.5: UphaigUphaigUphaigUphaig¨¨¨¨ (Yurara) sem a (Yurara) sem a (Yurara) sem a (Yurara) sem a IntrometidaIntrometidaIntrometidaIntrometida –––– Oficina 2 Oficina 2 Oficina 2 Oficina 2 –––– 2006 2006 2006 2006
Em algumas representações usando giz sobre papel cartão negro podemos ver que há variações nos desenhos de Uphaig¨ (cágado). Em algumas das
representações ele aparece com várias estrelas e em outras apenas com aquelas mais brilhantes da região.
Figura 4.06: Figura 4.06: Figura 4.06:
Figura 4.06: Representações do Cruzeiro do Sul para os Tukano Representações do Cruzeiro do Sul para os Tukano Representações do Cruzeiro do Sul para os Tukano Representações do Cruzeiro do Sul para os Tukano –––– Oficina 2 Oficina 2 Oficina 2 Oficina 2 –––– 2006 2006 2006 2006
Figura 4.07: R Figura 4.07: R Figura 4.07: R
Figura 4.07: Representação de epresentação de epresentação de epresentação de UphaigUphaig¨¨¨¨UphaigUphaig configurando o Cruzeiro do Sul configurando o configurando o configurando o Cruzeiro do SulCruzeiro do SulCruzeiro do Sul –––– Oficina 2 Oficina 2 Oficina 2 –––– 2006Oficina 2 2006 2006 2006 Comentário:
Comentário: Comentário:
Comentário: Nas imagens acima Nas imagens acima Nas imagens acima vemos duas representações bem diferentes de Nas imagens acima vemos duas representações bem diferentes de vemos duas representações bem diferentes de vemos duas representações bem diferentes de UphaigUphaig¨¨¨¨ UphaigUphaig ---- a primeira com mais estrelas e a segunda lembrando o Cruzeiro, sem uma alusão clara à a primeira com mais estrelas e a segunda lembrando o Cruzeiro, sem uma alusão clara à a primeira com mais estrelas e a segunda lembrando o Cruzeiro, sem uma alusão clara à a primeira com mais estrelas e a segunda lembrando o Cruzeiro, sem uma alusão clara à imagem desta constelação.
imagem desta constelação. imagem desta constelação.
imagem desta constelação. Na imagem maior podemos identificar mais facilmente a Na imagem maior podemos identificar mais facilmente a Na imagem maior podemos identificar mais facilmente a Na imagem maior podemos identificar mais facilmente a configuração do Cruzeiro do Sul.
configuração do Cruzeiro do Sul. configuração do Cruzeiro do Sul. configuração do Cruzeiro do Sul.