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A região visitada por mim nesse trabalho é conhecida como cabeça do cachorro porque, em larga escala, no mapa, a área mais a noroeste do Brasil lembra o formato que nomeou a região. Todos por lá falam da cabeça do cachorro; alguns de maneira amistosa e outros com certo ressentimento, dependendo do caso.

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Figura 2.14: Região da Cabeça de Cachorro Figura 2.14: Região da Cabeça de CachorroFigura 2.14: Região da Cabeça de Cachorro Figura 2.14: Região da Cabeça de Cachorro

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Figura 2.15: Loca Figura 2.15: LocaFigura 2.15: Loca

Nas figuras é possível perceber claramente a região como um todo. Mais especificamente a região da tribo Tukano, com quem trabalhei nesse tempo, está no médio Rio Tiquié, que é afluente do Rio Uaupés, que por sua vez é afluente do Rio Negro. Os Tukano não são os únicos índios que ocupam essa região.

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A região do alto e médio rio Negro é habitada tradicionalmente há pelo menos 2.000 anos por um conjunto diversificado de povos indígenas. Atualmente aí convivem vinte e dois povos indígenas, que falam idiomas pertencentes a quatro famílias lingüísticas distintas: Aruak, Maku, Tukano e Yanomami. Esta área é drenada pelo curso alto e médio do rio Negro, que recebe as águas de inúmeros rios e igarapés, entre os quais destacam-se o Uaupés, Içana, Curicuriari, Marié, Padauiri, Uneiuxi, Cauaburi, Marauía, Xié e outros que fazem parte da maior bacia de águas negras do mundo. (CABALZAR & RICARDO, 1998, p.05).

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Figura 2.16: Localização da Comunidade de São José II Figura 2.16: Localização da Comunidade de São José IIFigura 2.16: Localização da Comunidade de São José II Figura 2.16: Localização da Comunidade de São José II

Figura 2.17: Localização da comunidade de São Pedro Figura 2.17: Localização da comunidade de São PedroFigura 2.17: Localização da comunidade de São Pedro Figura 2.17: Localização da comunidade de São Pedro

A complexidade da vida e a diversidade social e biológica da região são comparáveis apenas à beleza das culturas e das pessoas que nela se encontram, traços de um Brasil descoberto e redescoberto por quem se dispõe a contemplá-lo em toda a sua magnitude de facetas. E que não se enganem os que imaginam que essa beleza e diversidade se devem à óbvia presença da palavra Amazônia.

Quando se fala em Amazônia imagina-se um estado permanente de abundância de alimentos, sejam frutas, peixes ou variabilidade vegetal. Isso é parcialmente verdade quando se fala da bacia do Rio Amazonas. A bacia do Negro é uma das mais pobres de toda a Amazônia e assim, os povos indígenas da região desenvolveram, ao longo de milênios, formas sofisticadas de adaptação ao meio ambiente [...] pela baixa fertilidade e acidez de suas terras e pobreza dos rios em peixes. (CABALZAR & RICARDO, 1998, p. 06).

Esse é mais um motivo para considerarmos muito bem-vinda a proposta de um calendário estelar dinâmico. A busca da relação entre a presença das constelações e todo o ambiente auxilia em uma melhor compreensão acerca dos

recursos naturais presentes. Muito além de medir a passagem do tempo ou os eventos que marcam a vida das pessoas da comunidade, o calendário tem a função de desenvolver nos estudantes e demais membros da comunidade a noção de transformações e mudanças. O ambiente apresenta ciclos, mas muitos estão se alterando. Talvez, e com a passagem do tempo, desenvolva-se uma percepção própria das mudanças ambientais produzidas na região como um todo que vai além das sensações gerais propagadas nos depoimentos dos velhos, das comunidades.

Os Tukano representam um exemplo de povo que vive às margens dos rios e igarapés, desenvolvendo-se como coletores, pescadores e agricultores. Por isso, são conhecidos juntamente com os Baniwa e Baré, por exemplo, por índios do rio. Já os índios de fala Maku, vivem no interior da mata, próximos de rios pequenos. Geralmente, estes trocam parte de sua produção que corresponde essencialmente de caça moqueada e frutas. A troca ocorre com a farinha de mandioca, fumo, redes e fósforos entre outros bens produzidos ou obtidos pelos povos dos rios.

Há Tukanos que se autodenominam Ye’pá-mahsa ou Daséa. (Gente terra) (ANDRELLO, 2006, p.358). São os mais em numerosos e concentram-se nos rios Tiquié (como a comunidade visitada por nós), Papuri e Uaupés, principalmente. Os Tukano ocupam, também, núcleos urbanos, particularmente em São Gabriel, e vivem em um sistema hierarquizado e complexo, aliás, como todos os outros grupos. Cada um desses povos é composto de vários grupos menores, frequentemente chamados de sibssibssibssibs pelos antropólogos. Um sibsibsibsib é formado pelos descendentes de um mesmo avô antigo que se consideram irmãos próximos entre si. Mesmo nos casos em que não vivam juntos em um mesmo povoado hoje em dia, diz-se que antes moravam em uma mesma maloca, formando um grupo unido. Os

sibs que constituem um grupo lingüístico estão organizados de maneira hierárquica, o que quer dizer que respeitam uma ordem que vai do irmão maior para o irmão menor. (CABALZAR & RICARDO, 1998, p. 41)

Tradicionalmente eles produzem um banco ritual feito de madeira (sorva) em uma peça única esculpida literalmente e pintada em preto e vermelho com motivos geométricos.

Figura 2.18: Bancos Tukano empilhados Figura 2.18: Bancos Tukano empilhadosFigura 2.18: Bancos Tukano empilhados Figura 2.18: Bancos Tukano empilhados

A mandioca representa parte fundamental da alimentação, perfazendo até cerca de 95% de todas as fontes de carboidratos para grupos dessa região. Foram identificadas 137 variedades de mandioca brava por índios ribeirinhos no médio Uaupés em um estudo antropológico desenvolvido entre os anos de 1978 e 1983. (CABALZAR & RICARDO, 1998). Praticamente se utiliza tudo da mandioca e manicuera (variedade de mandioca). Tucupi e tapioca são apenas alguns dos produtos obtidos depois de árduos processos de cozimento seguidos de procedimentos de ralar, decantar, etc.

A principal língua falada na região é o tukano que deriva da família Tukano Oriental. Na medida em que há várias línguas distintas, em muitos casos, não inteligíveis entre si, o tukano passou a ser empregado como língua franca, permitindo a comunicação entre povos com línguas paternas bem diferenciadas.

de tukano existam na região da bacia do Negro, incluindo as cidades de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Amazonas43.

A língua falada e agora escrita nas escolas usando-se o alfabeto fonético é um importante elo que permite a recuperação de aspectos bastante diversificados da Cultura.

A língua representa uma parte fundamental da cultura e por isso mesmo acredito que carregue consigo parte da identidade das descrições associadas às constelações. Representações diferentes do céu foram encontradas principalmente entre os Baniwa e os Coripaco que falam outra língua. (ARGÜELLO, 2003).

Já os Tuyuka e Dessano têm representações muito parecidas apesar da pronúncia e grafia levemente diferente44. (FERNANDES & FERNANDES, 2006).45

A vida em comunidade é bastante simples e as moradias são compartilhadas pelas pessoas de um mesmo núcleo familiar, como na Cultura não índia. Mas nem sempre foi assim. O próprio termo comunidade e maloca, sendo o segundo carregado de uma imagem normalmente pejorativa em nossa Cultura, fazem parte da identidade cultural dos Tukano e de todos os grupos de populações ribeirinhas dessa região:

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Os índios que ocupam as margens dos rios principais se organizam em “comunidades”, nome dado há décadas pelos missionários católicos – e adotado também pelos protestantes – aos povoados que vieram a substituir as antigas malocas comunais, que eram grandes casas que serviam de moradia para várias famílias. Há cerca de três gerações os índios não vivem mais em malocas, presentes hoje apenas na memória e em poucos povoados. As malocas atuais foram construídas em algumas comunidades, no alto Tiquié, por exemplo, no âmbito do processo de recuperação das tradições e como marca de identidade pelo movimento indígena, como é o caso da maloca na sede da FOIRN, em São Gabriel. (CABALZAR & RICARDO, 1998, p.33).

As malocas, hoje em dia, não são usadas propriamente como residências apesar de, nas oficinas de Astronomia, terem abrigado os visitantes de outras ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯ ¯

43 Há outras línguas da mesma família (Tukano Oriental) faladas por comunidades menores como wanana e

kubeo no alto Uaupés, pira-tapuya no médio Papuri, tuyuka no alto Tiquié e dessana nas comunidades localizadas no Tiquié, Papuri e afluentes (CABALZAR & RICARDO, 1998, p.29).

44 Não foi possível investigar essa questão de maneira mais profunda merecendo um futuro trabalho de

comparação.

comunidades. Na segunda oficina dos Tukano em julho e agosto de 2006 a maloca estava sendo usada como escola enquanto a nova construção não ficava pronta.

As festas e celebrações com danças e música são realizadas no interior das malocas. Os cafés da manhã (quinhapira) também são servidos no interior da maloca e as conversas e atividades comunais importantes voltam a acontecer nesses espaços. Minha experiência pessoal com as malocas é a melhor possível, não só por causa da alimentação indígena que mereceria um capítulo a parte nesse trabalho, mas porque o tipo de construção faz com que a temperatura e umidade relativa não variem muito no decorrer do dia possibilitando um conforto térmico bastante desejável.

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Outro ponto de encontro entre as diferentes culturas do alto e médio rio Negro é a antiga tradição de construção de malocas. Durante muitos anos essas construções foram alvo de ataques por parte dos missionários, resultando em seu completo abandono pelas comunidades situadas no lado brasileiro da região. Atualmente vêm sendo recuperadas em alguns locais, como no alto Tiquié e no alto Uaupés. A maloca não é uma simples moradia comunitária, é também um espaço fundamental para a realização de rituais. Seu desenho interno tem significados muito especiais, permitindo reviver, nas grandes cerimônias, a trajetória primordial dos antepassados, conhecida através dos mitos de origem dessas sociedades. (CABALZAR & RICARDO, 1998, p.38)

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Portanto, o uso da maloca como espaço escolar enquanto a construção da escola não fica pronta, na comunidade de São José II, representa algo significativo.

Esse uso do espaço da maloca bem como a recuperação de rituais e conhecimento são marcos importantes na consolidação e dinamismo dessas Culturas. O estudo das constelações dos Tukano e a construção de calendários voltados ao universo de conhecimentos dessa Cultura integram este trabalho. Por meio das medidas de tempo, que estão ligadas aos fenômenos do ambiente como um todo, pude modestamente ajudá-los a criar algumas possibilidades para a recuperação e manutenção de conhecimentos ligados à sua própria identidade.

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Figura 2.19: Maloca Tukano em São José IIigura 2.19: Maloca Tukano em São José IIigura 2.19: Maloca Tukano em São José IIigura 2.19: Maloca Tukano em São José II C1-19 Tuyuka - viagem imagens e parte de viagem de volta 004.jpg

Figura 2.20: Maloca Tuyuka em São Pedro Figura 2.20: Maloca Tuyuka em São PedroFigura 2.20: Maloca Tuyuka em São Pedro Figura 2.20: Maloca Tuyuka em São Pedro

C1-20 Tuyuka - viagem imagens e parte de viagem de volta 010.jpg

Figura 2.21: Interior da Maloca Tuyuka Figura 2.21: Interior da Maloca Tuyuka Figura 2.21: Interior da Maloca Tuyuka Figura 2.21: Interior da Maloca Tuyuka

Durante as primeiras décadas e até meados do século XX as relações entre índios e não índios foi bastante tumultuada segundo algumas fontes. (FERNANDES & FERNANDES, 2006, p. 149-167; CABALZAR & RICARDO, 1998 p. 57-98).

A presença dos exploradores de Eldorados, militares, as plantações de seringueiras e grupos religiosos, com forte ênfase para os salesianos, (seguidos mais recentemente por igrejas protestantes que fazem forte proselitismo da Bíblia), continuam criando grandes dificuldades para a sobrevivência dos ritos indígenas e não raramente produzem efeitos que me parecem menos benéficos do que querem fazer crer. (CABALZAR & RICARDO, 1998, p. 57-98).

No âmbito das relações entre índios e não índios uma grande conquista para os primeiros foi a recente demarcação de terras ocorrida em 199846. Em uma longa história de idas e vindas, que não cabe ser tratada aqui por causa da natureza de nosso trabalho, os índios hoje são os donos da região que habitam e por isso mesmo, a recuperação do patrimônio cultural do qual eles são os reais donos faz parte de um processo necessário e as medidas de tempo, o estabelecimento e criação ou recriação de calendários é uma etapa importante desse processo.

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2.4. Conceitos e preconceitos: aprendendo a trocar histórias e a respeitar o