Nos escólios de Acarnenses, também é possível encontrarmos algumas informações sobre determinadas elipses nos dialetos gregos. Dois casos específicos do dialeto ático se destacam, os quais foram apresentados por Σ Ac. 209-10 e Σ Ac. 610. Comecemos pela elipse ressaltada pelo comentarista de Ac. 209-10, que diz:
τῶν ἐτῶν τῶν ἐμῶν: οὐκ ἀπόβλητον οὐδὲ τοῦτό μοι δοκεῖ. σφόδρα γὰρ Ἀττικὴ ἡ φράσις. λείπει γὰρ τὸ ἕνεκα. τὸ κατ᾿ ἔλλειψιν οὖν ῥηθὲν κοινὸν αὐτῷ πεποίηκε. λέγοις ἂν καὶ σὺ παραπλησίως· οἴμοι τῆς τύχης, μακάριος τῆς ἐμῆς παιδείας. Τῶν ἐτῶν τῶν ἐμῶν (‘dos meus anos’): Nem mesmo isto me parece desprezível. Pois a frase é completamente ática, porque ela omite o ἕνεκα (‘por causa de’). Sem dúvida, ao destacar a insuficiência [física], ele acabou de fazer o que lhe é próprio.
Tu também poderias dizer semelhantemente: “Ai! Que desdita! Feliz da minha juventude!”
Nesse comentário, o escoliasta está analisando a seguinte frase (Ac. 209-10): οἴμοι τάλας τῶν ἐτῶν τῶν ἐμῶν· (‘Ai de mim, sou um infeliz por causa dos meus anos!’). Acerca dela, o escoliasta afirma de modo taxativo: “a frase é completamente ática”. Sua afirmação baseia-se unicamente na identificação de uma elipse: “porque ela omite o ἕνεκα (‘por causa de’)”. A partir do que disse Σ Ac. 209-10, percebemos que a omissão de ἕνεκα é um recurso linguístico peculiar ao dialeto ático.
A segunda elipse é apresentada pelo escoliasta que comentou essa pergunta: ἤδη πεπρέσβευκας σὺ πολιὸς ὢν ἓν ἢ; ‘Tu, que estás encanecido, já foste embaixador uma vez ou duas?’ (Ac. 610). Eis as observações do escoliasta acerca da referida interrogação:
ἓν ἢ: οὕτως ἐν τοῖς ἀκριβεστάτοις ἕνη, ἵνα λέγῃ ἐκ πολλοῦ. Ἀττικοὶ δὲ τὸ ἕνη περιττὸν ἐτίθεσαν, ὡς τὸ ἔχων, “ληρεῖς ἔχων”. οἱ δὲ λείπειν φασὶ τὸ δύο, ἵνα ἐρωτῶν λέγῃ ἓν ἢ δύο.
Ἓν ἢ: Nos [dialetos] mais precisos, é assim: ἕνη (‘do... passado’), para que designe ‘desde muito tempo’. Os áticos também utilizavam o ἕνη que excede o [próprio] sentido, como o verbo ἔχων (‘tendo...’), “tendo..., dizes tolices”. Mas outros falam omitindo o δύο (‘dois’), a fim de que, fazendo uma pergunta, signifique ἓν ἢ δύο (‘um ou dois’).
Segundo Σ Ac. 610, a expressão ἓν ἢ (‘uma ou...’), por ser elíptica, estava fragilizando a precisão da oração. Para o escoliasta, a expressão ἓν ἢ era duplamente elíptica. Primeiramente, porque poderia ser entendida como ἕνη (‘do... passado’), que tem semelhanças com o verbo ἔχω, que semanticamente vai além do próprio significado ‘ter’, como em ἐν γαστρὶ ἔχουσα (‘tendo no ventre’), que significa ‘tendo [um filho] no ventre’, ou seja, ‘estando grávida’. Algo semelhante ocorre com o plural do artigo definido do gênero neutro: τά. Como ἕνη, forma feminina de ἕνος, também tem essa característica, pode significar: ‘do [ano] anterior’, ‘da [época] passada’, ‘da [magistratura] passada’ ou de forma genérica, como diz o escoliasta: ‘desde muito tempo’.
A expressão ἓν ἢ, em segundo lugar, também era considerada elíptica porque poderia ser entendida como ἓν ἢ δύο (‘um ou dois’), na qual o numeral δύο (‘dois’) foi omitido. Ambos os casos de elipse, segundo o escoliasta, eram recursos linguísticos característicos do dialeto ático.
3.4.8 Observações sobre as variações semânticas nos dialetos gregos
Por fim, os escólios de Acarnenses também contêm algumas informações sobre as variações semânticas nos dialetos gregos antigos. São três os principais escólios que apresentam esse tipo de informação: Σ Ac. 172, Σ Ac. 871 e Σ Ac. 1133. No primeiro deles, encontramos o seguinte comentário:
διαλυθείσης δὲ τῆς ἐκκλησίας συνήγοντο πάλιν βουλευόμενοι περὶ τῶν αὐτῶν. Ἀττικοὶ δὲ καλοῦσιν ἔνην καὶ τὴν παλαιάν. καὶ Δημοσθένης ἐν τῷ κατὰ Ἀριστογείτονος “τὰς ἔνας ἀρχὰς ταῖς νέαις ὑπεξιέναι”.
Porquanto foi dissolvida a assembleia, eles se reuniriam de novo para deliberar acerca dos [trácios]. Mas os áticos também falam ἔνην equivalendo a παλαιάν (‘antigo’), [como] Demóstenes no [Discurso] Contra Aristogiton (25.20): “[fazendo] os antigos (ἔνας) magistrados cederem, aos poucos, lugar aos novos”.
De modo geral, ἔνην significava ‘depois de amanhã’ ou ‘terceiro dia’. No entanto, no dialeto ático essa palavra também era utilizada como sinônimo de παλαιάν (‘antigo’). De acordo com Σ Ac. 172, essa peculiaridade semântica era específica do dialeto ático. Como prova daquilo que diz, o escoliasta cita uma frase de Demóstenes, na qual o referido vocábulo é empregado.
O segundo exemplo de informação sobre as variações semânticas nos dialetos gregos antigos é dado por Σ Ac. 871. Desta vez, o escoliasta apresenta um caso do dialeto beócio. Eis o que disse o citado comentarista:
ὀρταλίχων δὲ τῶν ἀλεκτρυόνων κατὰ τὴν τῶν Βοιωτῶν διάλεκτον.
[Τῶν] ὀρταλίχων é [sinônimo de] τῶν ἀλεκτρυόνων (‘estas galinhas’), de acordo com o dialeto dos beócios.
O substantivo comentado, ὀρτάλιχος, geralmente expressava o diminutivo de ὀρταλίξ (‘ave’). Entretanto, especificamente no dialeto beócio, ele também era utilizado como sinônimo de ἀλεκτρυών (‘galinha’). LSJ, fundamentando-se exclusivamente em Σ Ac. 871, também apresenta esse significado beócio junto do verbete ὀρτάλιχος.
Σ Ac. 1133 nos fornece o último exemplo que desejamos mostrar de variação semântica nos dialetos gregos. Trata-se de um significado metafórico atribuído pelos falantes do dialeto ático ao verbo θωρήσσω (‘encouraçar’). Eis o que disse Σ Ac. 1133:
ἔξαιρε, παῖ, θώρακα: οὕτω καλοῦσιν, ἐπειδὴ θώραξ καὶ τὸ στῆθος. διὰ τὸ θερμαίνειν οὖν τὸ στῆθος θωρήσσειν λέγουσιν τὸ μεθύειν, καὶ ἀκροθώρακας τοὺς ἀκρομεθύσους ἐκάλουν. κέχρηται δὲ τῇ λέξει καὶ Ἀνακρέων. ἔστι δὲ Ἀττική. ἔξελε οὖν, φησί, κἀμοὶ τὸν χοᾶ, ὃν καλεῖ θώρακα, ὥστε θωρακισθῆναι, τουτέστι τὸν θώρακα πληρῶσαι.
Traz aqui, rapaz, uma couraça! Eles chamam assim, quando θώραξ também significa στῆθος (‘peito’, ‘tórax’). Portanto, pelo fato de esquentar, eles usam a [metáfora] “armar o peito com uma couraça” para a [ação] de embriagar-se; eles também chamavam os que estavam levemente embriagados de ἀκροθώρακας (‘levemente encouraçados’). Anacreonte (Epig. fr. 147 B.) também fez uso desta palavra. Mas ela é ática. Por conseguinte, [Diceópolis] diz: “Traz aqui fora para mim o côngio que se chama couraça, para eu ser encouraçado, isto é, para eu encher a cara.”
Como se vê nesse comentário, θώραξ, que é sinônimo de στῆθος (‘peito’, ‘tórax’), também significava couraça. Daí deriva o verbo θωρήσσω (‘encouraçar’) e o substantivo ἀκροθώραξ (‘levemente encouraçado’). Como o uso de uma couraça esquentava o peito, os falantes do dialeto ático passaram a usar o verbo θωρήσσω (‘encouraçar’) como metáfora para a ação de embriagar-se. Do mesmo modo o substantivo ἀκροθώραξ (‘levemente encouraçado’), passou a significar ‘levemente embriagado’. De acordo com Σ Ac. 1133, essas metáforas eram de origem ática. LSJ também incluiu esses sentidos metafóricos junto dos verbetes θωρήσσω e ἀκροθώραξ.
Diante dessas observações de Σ Ac. 1133, decidimos traduzir a expressão τὸν θώρακα πληρῶσαι (‘encher o peito’: Ac. 1133) por ‘encher a cara’, que se adéqua muito bem ao contexto cultural da língua portuguesa.
Com esse exemplo de Σ Ac. 1133, encerramos o presente tópico (3.4), ao longo do qual mostramos oito grupos de informações gramaticais da dialetologia grega antiga presentes nos escólios de Acarnenses: subtópicos 3.4.1 a 3.4.8. Foram apresentados, ao todo, 36 escólios contendo informações gramaticais da antiga dialetologia grega. Não se deve, porém, imaginar que expomos todos os escólios que contêm algum tipo de informação gramatical dos dialetos gregos. Apresentamos apenas alguns dos que considerávamos úteis e relevantes para demonstrar que os escólios de Acarnenses são, de fato, um auxílio para aquisição do conhecimento de algumas particularidades gramaticais dos tais dialetos.
Essa importância dos escólios de Acarnenses como auxílio gramatical da dialetologia grega – não se deve ignorar – é intrínseca. A contribuição que os escólios de Acarnenses dão para o conhecimento das referidas peculiaridades dialetais é totalmente independente da comédia Acarnenses. Esse é outro aspecto da importância intrínseca dos escólios de
Acarnenses.
No presente capítulo, mostramos quatro aspectos da importância dos escólios de
Acarnenses: como aporte lexicográfico (3.1); como testemunho dos fragmentos de diversas
obras (3.2); como substrato para reconstituição parcial de uma obra perdida (3.3); e como auxílio gramatical da dialetologia grega antiga (3.4). Nos quatro casos, o valor dos escólios de
4 A CONFIABILIDADE DOS ESCÓLIOS DE ACARNENSES
No capítulo anterior, tentamos demonstrar a importância que têm os escólios de
Acarnenses, não como auxílio hermenêutico à referida comédia, mas no seu aspecto
intrínseco, independentemente da peça comentada. Qualquer pesquisador imparcial admitirá que os escólios de Acarnenses estão revestidos de significativo valor.
Contudo, não se pode imaginar que os escólios de Acarnenses são sagrados, inspirados por Zeus e, por isso, isentos de erro. É uma enorme ingenuidade pensar que os escólios, sejam os de Acarnenses ou os de qualquer outra obra, são infalíveis. Como qualquer outra obra humana, os escólios da referida peça estão sujeitos a inexatidões, equívocos sutis e erros crassos. Confiar cegamente em todas as informações apresentadas ou em todas as explicações feitas pelos escólios poderá nos conduzir a diversos equívocos.
Estamos agora diante de uma situação que exige equilíbrio e sensatez. Por um lado, reconhecemos que os escólios são bastante relevantes, relativa e intrinsecamente. Por outro, admitimos também que eles podem nos apresentar informações ou explicações imprecisas ou erradas. Se essa questão não for resolvida de forma razoável, seremos acometidos por uma desconfiança inquietante acerca da confiabilidade de cada escólio individualmente.
O presente capítulo tem como objetivo primordial tentar demonstrar que é possível estabelecer critérios de confiabilidade para os escólios de Acarnenses. Tais critérios têm uma relação direta entre as principais fontes das quais os escólios foram extraídos – códice R, códices ΕΓ, Suda e Aldina – e o tipo específico de erro. Essa ideia constitui o segundo aspecto da hipótese defendida pelo presente trabalho.
Antes de tentarmos expor os possíveis critérios de confiabilidade para os escólios de
Acarnenses, é necessário que se entenda e conheça os principais tipos de erros presentes nos
escólios de Acarnenses.