Embora numa quantidade menor do que a dos cômicos e trágicos, os poetas líricos também tiveram seus fragmentos testemunhados pelos escólios de Acarnenses. Existem quase quinze fragmentos de sete poetas líricos – Arquíloco (séc. VII a.C.), de Paros; Anacreonte (séc. VI a.C.), de Teos; Corina (séc. VI a.C.), de Tanagra; Semônides (séc. VI/V a.C.28), de Amorgos; Baquílides (séc. V a.C.), de Ceos; Píndaro (séc. V a.C.), de Tebas; e Timocreonte (séc. V a.C.), de Rodes – que contam com o testemunho de Σ Ac. Desse montante, nove fragmentos são testemunhados somente pelos escólios de Acarnenses.
Vejamos inicialmente os fragmentos de Arquíloco, o mais antigo poeta lírico citado pelos escólios de Acarnenses. Existem quatro fragmentos desse poeta em Σ Ac.: frr. 90, 91, 119 e 12629. No entanto, somente os frr. 91 B. e 126 B. contam exclusivamente com o testemunho dos escólios de Acarnenses. Por esse motivo, só mostraremos esses dois.
O primeiro excerto de Arquíloco que desejamos mostrar é o fr. 91 B.: τοιήνδε δ᾿, ὦ πίθηκε, τὴν πυγὴν ἔχων (‘Tendo um rabo como este, ó macaco’). Esse fragmento só se tornou conhecido por causa do seguinte comentário que ΣΕ faz sobre Ac. 120:
28 As datas ligadas a Semônides de Amorgos são duvidosas. LSJ diz que ele é dos séculos VI e V a.C. Já para Bailly (2000), Semônides viveu nos séculos VII e VI a.C.
καὶ τοῦτο παρῴδηκεν ἐκ τῶν Ἀρχιλόχου ἐπῶν: “τοιήνδε δ᾿, ὦ πίθηκε, τὴν πυγὴν ἔχων.”
Este [verso] também parodiou expressões de Arquíloco: “Tendo um rabo como este, ó macaco.”
Esse fragmento faz parte de uma fábula de Arquíloco, a qual versa sobre a história de uma raposa e um macaco. A fábula 81 de Esopo preserva melhor o contexto dessa história. Embora não preserve a maior parte da fábula de Arquíloco, ΣΕ Ac. 120 é um dos dois únicos testemunhos do fr. 91 B. de Arquíloco. Além de ΣΕ Ac. 120, apenas ΣAld Ac. 120 também dá testemunho do citado fragmento. Sem os escólios de Acarnenses, portanto, esse excerto de Arquíloco ainda hoje estaria em meio ao desconhecimento.
ΣΕΓ Ac. 279 contém o segundo fragmento de Arquíloco que queremos apresentar. Trata- se do fr. 126 B.: πυρὸς δὲ ἦν αὐτῷ φεψάλυξ (‘E ele tinha uma faísca de fogo’). Ao explicar a expressão ἐν τῷ φεψάλῳ (‘na lareira’), ΣΕΓ Ac. 279 escreve:
ἐν τῷ φεψάλῳ: ἐν τῷ καπήλῳ. φέψαλοι γάρ εἰσιν οἱ σπινθῆρες, ὡς καὶ ἀλλαχοῦ
δηλοῖ “ἀλλ᾿ οὐδὲ μοιχοῦ καταλέλειπται φεψάλυξ.” καὶ παρὰ Ἀρχιλόχῳ δὲ κεῖται “πυρὸς δὲ ἦν αὐτῷ φεψάλυξ”.
Ἐν τῷ φεψάλῳ (‘na lareira’): Conota ‘no trastejador’. Na verdade, φέψαλοι são as
faíscas, como também está claro em outra comédia: “Mas nem uma faísca de amante foi deixada.” Também há um paralelo com Arquíloco: “E ele tinha uma faísca de fogo”.
Ao todo, três textos dão testemunho do fr. 126 B. de Arquíloco: ΣΕΓ Ac. 279, como se vê no comentário acima; ΣAld Ac. 279, que geralmente segue ΣΕΓ; e S φ.240, que também é uma exposição de Ac. 279. Com exceção desses três escólios de Acarnenses, nenhum outro texto conhecido serve de testemunho ao mencionado fragmento lírico.
Depois de Arquíloco, os dois poetas líricos mais antigos que têm fragmentos testemunhados pelos escólios de Acarnenses são Anacreonte e Corina, ambos do século VI a.C. Anacreonte tem dois fragmentos mencionados pelos comentadores de Acarnenses, dos quais só mostraremos um: aquele que conta apenas com o testemunho de Σ Ac. Corina, por sua vez, só possui um fragmento mencionado pelos comentadores de Acarnenses.
Em relação ao fragmento de Anacreonte, tomamos conhecimento de sua existência por intermédio de ΣΕΓ Ac. 1133, que diz:
ἔξαιρε, παῖ, θώρακα: οὕτω καλοῦσιν, ἐπειδὴ θώραξ καὶ τὸ στῆθος. διὰ τὸ
θερμαίνειν οὖν τὸ στῆθος θωρήσσειν λέγουσιν τὸ μεθύειν, καὶ ἀκροθώρακας τοὺς ἀκρομεθύσους ἐκάλουν. κέχρηται δὲ τῇ λέξει καὶ Ἀνακρέων.
Traz aqui, rapaz, uma couraça! Eles chamam assim, quando θώραξ também
[metáfora] “armar o peito com uma couraça” para a [ação] de embriagar-se; eles também chamavam os que estavam levemente embriagados de ἀκροθώρακας (‘levemente encouraçados’). Anacreonte também fez uso desta palavra.
Baseando-se especificamente nesse comentário, Edmonds (1924, p. 194) acredita que ἀκροθώρακας (‘levemente encouraçados’) é um dos fragmentos de Anacreonte. De acordo com a edição de Bergk (1882), essa menção de Anacreonte feita por ΣΕΓ Ac. 1133 corresponde ao fr. 147 dos Epigramas daquele poeta lírico.
Excetuando-se ΣΕΓ Ac. 1133, somente ΣAld Ac. 1133 e S θ.441 dão testemunho do fr. 147 B. de Anacreonte. Como S θ.441 é claramente um comentário de Ac. 1133, constata-se que os escólios de Acarnenses são os únicos testemunhos desse fragmento.
Passemos ao fragmento da poetisa Corina, de Tanagra. Novamente, ΣΕΓ foi o responsável por tirar do desconhecimento um dos fragmentos dessa poetisa. Ao comentar o verbo ἀγοράζειν (‘negociar no mercado’), presente em Ac. 720, ΣΕΓ escreve:
ἀγοράζειν: ἐν ἀγορᾷ διατρίβειν ἐν ἐξουσίᾳ καὶ παρρησίᾳ ἐστὶν, Ἀττικῶς. ὅθεν καὶ ἡ
Κόριννα ἐπιτιμᾷ Πινδάρῳ ἀττικίζοντι, ἐπεὶ καὶ ἐν τῷ πρώτῳ τῶν Παρθενίων ἐχρήσατο τῇ λέξει.
Ἀγοράζειν: “É possível passar o tempo na ágora com liberdade e confiança”30, em dialeto ático. Pelo que Corina também censura Píndaro que escreve em dialeto ático, pois ele também fez uso desse verbo no primeiro [livro] dos Hinos virginais.
De acordo com a edição de Bergk (1882), a menção que ΣΕΓ Ac. 720 faz de Corina equivale ao fr. 34 dessa poetisa. Além do comentário acima, ΣAld Ac. 720 é o único texto a dar testemunho do referido fragmento de Corina.
Semônides de Amorgos é outro poeta lírico que tem um fragmento citado pelos escólios de Acarnenses. O excerto em questão é o fr. 28 B.: ὁπλὰς ἐκίνει τῶν ὀπισθίων ποδῶν (‘Ele agitava os cascos das patas traseiras’). Esse fragmento é citado por ΣΕΓ Ac. 740:
τὰς ὁπλὰς τῶν χοιρίων: οὐ μόνον Ἀριστοφάνης ἐπὶ τῶν χοίρων τὰς ὁπλὰς εἴρηκεν,
ἀλλὰ καὶ Σιμωνίδης ὁμοίως ἐπὶ χοίρου “ὁπλὰς ἐκίνει τῶν ὀπισθίων ποδῶν.” καὶ Ἡσίοδος ἐπὶ βοῶν “μήτ᾿ ἄρ᾿ ὑπερβάλλων βοὸς ὁπλήν.” καὶ τὸ ἐναντίον ἐπὶ τοῦ ἵππου “νύσσοντες χηλῇσιν”.
Os cascos de leitoas: Não somente Aristófanes falou acerca dos cascos dos porcos;
mas Semônides, de igual modo, também escreveu sobre [cascos] de porco: “Ele agitava os cascos das patas traseiras.” Hesíodo também discursou sobre [cascos] de bois: “Então, nem cobrindo um casco de boi.” [Hesíodo] discorreu ainda sobre [os cascos] dianteiros do cavalo: “batendo os cascos”.
Apenas três textos dão testemunho do fr. 28 B. de Semônides de Amorgos: ΣΕΓ Ac. 740, ΣAld Ac. 740 e S ο.464, que também é um comentário de Ac. 740. Como se vê, foram os escólios de Acarnenses que tiraram esse fragmento da obscuridade.
O poeta Baquílides, natural de Ceos, também teve um dos seus fragmentos mencionado pelos escoliastas de Acarnenses. Ao comentar sobre a genealogia de Anfíteo, que aparece em
Ac. 47-50, ΣΕΓ afirma:
ἱερεὺς Δήμητρος καὶ Τριπτολέμου ὁ Ἀμφίθεος. πέπαικται κωμικῶς ταῦτα. Κελεοῦ γὰρ Τριπτόλεμος. ταῦτα δὲ λέγει ἐν παιδιᾷ, σκώπτων τὸν Εὐριπίδην, ἀεὶ ἡδέως ἀπαγγέλλοντα τὰ γένη [...]. τοῦ δὲ Κελεοῦ μέμνηται Βακχυλίδης διὰ τῶν Ὕμνων. Anfíteo era sacerdote de Deméter e Triptólemo. [O poeta] brincou comicamente com estas coisas, pois Triptólemo é filho de Celeu. Ele diz isso numa brincadeira, zombando de Eurípides, que sempre anuncia, de boa vontade, essas genealogias em outras peças [...]. Baquílides fez menção de Celeu em seus Hinos.
Como se percebe, “Baquílides fez menção de Celeu em seus Hinos”. Para ser mais específico, Celeu foi aludido por Baquílides no Hino a Hécate. Segundo a edição de Maehler (2003, p. 84), o fr. 3 de Baquílides consiste apenas da palavra Κελεός (‘Celeu’).
Além de ΣΕΓ Ac. 46-7, o único texto que também dá testemunho do fr. 3 Maeh. de Baquílides é ΣAld Ac. 46-7. Se não fossem esses dois escólios de Acarnenses, não teríamos como saber da existência do referido fragmento do poeta de Ceos.
Em relação a Píndaro, existem dois excertos aludidos nos escólios de Acarnenses: o fr. 76 Maeh. dos Ditirambos e o fr. 94d Maeh. de Παρθένεια (‘Hinos virginais’). Dos dois, somente o último tem os escólios de Acarnenses como seu único testemunho; por isso, falaremos apenas dele. O fr. 94d Maeh. de Píndaro é composto tão somente pelo verbo ἀγοράζειν (‘negociar no mercado’), como nos dá a entender ΣΕΓ Ac. 720-1:
ἀγοράζειν: ἐν ἀγορᾷ διατρίβειν ἐν ἐξουσίᾳ καὶ παρρησίᾳ ἐστὶν, Ἀττικῶς. ὅθεν καὶ ἡ
Κόριννα ἐπιτιμᾷ Πινδάρῳ ἀττικίζοντι, ἐπεὶ καὶ ἐν τῷ πρώτῳ τῶν Παρθενίων31 ἐχρήσατο τῇ λέξει.
Ἀγοράζειν: “É possível passar o tempo na ágora com liberdade e confiança”32, em dialeto ático. Pelo que Corina também censura Píndaro que escreve em dialeto ático, pois ele também fez uso desse verbo no primeiro [livro] dos Hinos virginais.
A informação de que Píndaro usou o verbo ἀγοράζειν nos Hinos virginais só pode ser encontrada nessa explicação de ΣΕΓ Ac. 720-1 e em ΣAld Ac. 720-1, que quase sempre segue ΣΕΓ. Fora esses dois escólios de Acarnenses, não há nenhum outro testemunho do fr. 94d Maeh. de Píndaro.
Outro poeta lírico do século V a.C. que teve um de seus fragmentos citados pelos escoliastas de Acarnenses foi Timocreonte, de Rodes. De todos os fragmentos testemunhados
31 Παρθένια é uma variante de Παρθένεια (‘Canções virginais’ ou ‘Coral das virgens’), título de uma obra de Píndaro (SANDYS, 1915, p. 510). Acredita-se que Píndaro escreveu três obras com esse título.
por Σ Ac., esse é o mais longo. O referido excerto corresponde ao fr. 8 B. de Timocreonte. Vejamos o que escreveu ΣR ao comentar Ac. 532:
Τιμοκρέων δὲ ὁ Ῥόδιος μελοποιὸς τοιοῦτον ἔγραψε σκολιὸν κατὰ τοῦ πλούτου, οὗ ἡ ἀρχή· “ὤφελες, ὦ τυφλὲ Πλοῦτε, / μήτε γῇ μήτ᾿ ἐν θαλάττῃ / μήτ᾿ ἐν ἠπείρῳ φανῆναι, / ἀλλὰ Τάρταρόν τε ναίειν / κἀχέροντα. διὰ σὲ γὰρ / πάντ᾿ ἐν ἀνθρώποις κακά.” τούτοις ἔοικε καὶ τὰ ὑπὸ Περικλέους εἰσηγηθέντα, ἐπεὶ ὁ Περικλῆς γράφων τὸ ψήφισμα εἶπε “Μεγαρέας μήτε ἀγορᾶς μήτε θαλάττης μήτ᾿ ἠπείρου μετέχειν”. ἐπεὶ οὖν ὅμοια τοῖς Τιμοκρέοντος ἔγραψε, διὰ τοῦτο εἶπεν ὅτι “ἐτίθει νόμους ὥσπερ σκολιὰ γεγραμμένους”.
Timocreonte, o poeta lírico de Rodes, escreveu uma cantiga desse tipo acerca da riqueza, cujo começo é: “Tu [não] devias, ó cega Riqueza, / nem em ilha , nem em mar, / nem em continente manifestar-se; / mas morar tanto no Tártaro / quanto no Aqueronte. Pois, por tua causa, / todos os males [residem] nos homens.” As [leis] propostas por Péricles foram semelhantes a estes versos; posto que Péricles, escrevendo o decreto, disse: “[Não] compartilhar com megarenses nem por mercado, nem por mar, nem por terra firme”. Sem dúvida, [Péricles] escreveu [palavras] iguais às de Timocrente; por causa disto, [Diceópolis] disse que “ele promulgava leis redigidas como cantigas”.
Como se pode notar, ΣR Ac. 532 afirma com segurança que Timocreonte é o autor da citada cantiga. Como já destacamos, esse é o maior de todos os fragmentos citados pelos escólios de Acarnenses: são seis versos. ΣR Ac. 532 não é o único a testemunhar da existência desses seis versos. ΣΕΓAld Ac. 532 e S σ.645 também o fazem. Embora Isidoro também mostre variantes de três desses versos (BERGK, 1882, p. 540), os escólios de Acarnenses são os únicos testemunhos do fragmento completo.
Somando-se esse de Timocreonte, apresentamos oito fragmentos de poetas líricos, todos eles testemunhados única e exclusivamente pelos escólios de Acarnenses. Embora menor que as duas anteriores, essa terceira lista também comprova parcialmente a importância intrínseca dos escólios de Acarnenses.