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Esta percepção de que há algo borbulhando na superfície da Inglaterra se mostra evidente nos versos que Milton escreveu aos dezesseis anos, no latim que estava prestes a desaparecer do ambiente humanista, sobre os eventos da “conspiração da pólvora”. São seis poemas, cinco epigramas e um de caráter mais extenso, com tons épicos que transformam o evento do dia 05 de novembro em um verdadeiro pandemônio. Não é por acaso que o personagem principal deste poema longo é ninguém menos que Satã, o verdadeiro artífice contra o rei e os nobres, segundo Milton:

Aqui, no meio ele faz do ar dirás borrascas. Uns contra os outros, ele arma os povos potentes. Revira reinos que em paz medram co´a oliveira. E quando vê alguém que ama a pura virtude, Ao seu mando o trazer quer e, das fraudes mestre, Corações corromper tenta ao crime inacessos. E ardis tácitos arma, e ocultas redes tende

P´r´o incauto apanhar, qual tigresa cáspia a inquieta Presa a seguir por ermos ínvios, sob a noite

Sem lua e sob os astros que luzem com sono, Qual Sumano a infestar as gentes e as cidades Cingido por tropel fumeante de azuis flamas21.

20 Cf. YATES, Francis. The occult in the elizabetean age. Inglaterra, Routledge Classics, págs. 206-212. 21 Cf. MILTON, John. Poemata – Poemas em Latim e em Grego, tradução de Erick Ramalho, Belo Horizonte, Tessitura, 2008, págs. 175-189.

85 Mesmo sendo uma peça de propaganda anti-católica e pró-protestante disfarçada de grande poesia, fica claro que Milton tem a noção de que há algo no jogo político que só pode ser compreendido nas sombras. A referência a Satã não é um mero capricho de um jovem de dezesseis anos; percebe-se que Milton, atento para o espírito de rivalidade que só os talentosos possuem, reconhece que há poderes obscuros, quase ctônicos, que regem a política e a sociedade inglesa. Não há mais espaço para a razoabilidade; há somente as trevas do irracional, das forças que nem a poesia consegue apreender para purgar a sociedade do mal.

Quando, por exemplo, Milton faz Satã falar por suas próprias palavras, disfarçado de serpente e dirigindo-se ao rei Jaime I, escutamos uma voz já conhecida:

“Dormes, meu filho? Também sono abate os teus membros? Oh, da fé esquecido que olvidas tuas greis,

Enquanto de teu trono almo e diadema tríplice Ri, sob céu hiperbóreo nata, a gente bárbara, Britanos de carcás desprezam teus direitos. Refreia a tua alma inchada e altivez insolente. Que os ímpios saibam o que tua maldição pode, E o que pode a custódia da chave apostólica. Lembra-te de vingar a hespéria frota aluída, Da Ibéria os estandartes imersos no pélago, Tantos corpos de Santos presos na cruz torpe, Do Termodonte ainda reinando a donzela. Mas se em leito macio preferes estar lânguido, Se bater negas a crescente força hostil,

Esta há de o mar Tirreno encher co´a soldadesca, E de pôr no monte Aventino pendões fúlgidos, Quebrar relíquias dos antigos, incendiá-las, Pisar com pés profanos teu sacro pescoço – As solas tuas reis se alegravam em beijar. Mas a incites à guerra não, ao franco prélio, Seria inútil labor. Usa, astuto, a fraude! Aos heréticos, pois, qualquer ardis são lícitos. Já o rei magno evoca ao Parlamento nobres Dos confins e os nascidos de estirpes antigas: Seus velhos pais p´lo manto e p´las cãs respeitáveis. Ao vento tu espargi-los-ias, membro a membro, Ou fá-los-ias em cinzas co´o fogo da pólvora Posta na base do edifício onde se reúnem.

Amoesta os fiéis, que a própria Inglaterra tem, logo, Do teu intento teu e, ainda, do plano. Quem dos teus Ousará não seguir a ordem do sumo Papa?

E, abatidos p´lo medo e hirtos pelo tombo, Invada-nos francês cruel ou espanhol furioso; Séculos de Maria cá, pois, voltarão,

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E reinarás de novo os ingleses belígeros.

Não temas: são-te os deuses e as deuses propícios, Sabe, e os numes, que em dias fastos cultuas, todos.”22

Independente das referências clássicas e das circunstâncias eventuais (como a guerra entre a França e a Espanha, então aliadas de Roma), a voz que escutamos é evidente: é a mesma de Shakespeare – em especial, a que se ouve nos monólogos de

Macbeth:

Estrelas, escondam seus fogos;

Não deixe que a luz ilumine os meus desejos mais sombrios e profundos;

O olho pisca para a mão, e ainda assim,

Aquilo que o olho teme, quando é feito, nos faz ver23.

É Milton imitando Shakespeare desde o início de sua descoberta como poeta, não só na prosódia, em inglês ou latim, mas fazendo contrapontos ao tema abordado na tragédia escocesa – algo que o acompanharia durante o resto de sua vida, como mostraria anos depois os monólogos de Satã em Paraíso perdido e, como já foi observado por Martin Dzelzainis, na textura retórica de A tenência dos reis e

magistrados.

Mas por que justamente Macbeth? O que marcou tanto o jovem Milton nessa peça que é considerada a mais sombria do seu autor? Até que ponto a rivalidade entre um poeta que morreu e outro que está prestes a trilhar seu caminho pode nos mostrar os problemas políticos constantes de uma sociedade que então entrava numa sangrenta guerra civil?

A rivalidade não precisa ser necessariamente negativa. Há um componente positivo nela que faz o autor sempre superar os outros e a si mesmo. Foi o que aconteceu com Milton. Ao fazer referências constantes a Macbeth, tanto na sua prosa política como na sua poesia, devemos notar que, como já foi dito, em ambas as áreas ele mostra uma preocupação intensa com os poderes que estão além da sua compreensão,

22 Idem.

23Stars, hide your fires;

Let not light see my black and deep desires: The eye wink at the hand; yet let that be, Which the eye fears, when it is done, to see.

Cf. SHAKESPEARE, William. Macbeth, in: The complete works of William Shakespeare. Inglaterra, Wordsworth Editions, 1999.

87 com aquilo que a razão não pode explicar porque está muito acima dela – ou, pelo menos, razoavelmente abaixo.

Milton vê a sociedade como algo que não está sob o controle do homem – e é necessário que alguém corrija esses rumos e coloque o reino dentro de uma ordem pré- estabelecida. A diferença desta visão de mundo em relação a de Shakespeare é que, para este ultimo, a tal ordem sempre existiu e sempre existirá, independente das ações humanas. Não há como alterar esta estrutura – e quem fizer isto terá de suportar as conseqüências.

Macbeth é exatamente sobre isso: o que acontece quando se enfrenta o pesadelo

de um ato hediondo. E novamente Shakespeare mostra a sua habilidade em articular a trama de sua peça com o que acontecia em um país traumatizado pela “Conspiração da Pólvora”. Pouco importa agora se o Bardo era simpático ou não às opiniões “papistas”, como supunha o jovem Milton. O que tem de ser analisado é a forma como um artista conseguiu meditar sobre a relação intrincada entre realeza, representação e natureza humana através de um drama que iluminará os tratados políticos que virão depois – em especial, o de um certo poeta republicano.