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É provável que o próprio Milton tinha uma percepção aguda desta sua relação com o dramaturgo de Stratford upon Avon quando escreveu e depois publicou, por intermédio de Ben Jonson (contemporâneo de Shakespeare), um soneto hoje famoso no

Segundo Folio de 1632:

Sobre Shakespeare

O que precisa meu Shakespeare para seus ossos honrados,

O trabalho de uma era em pedras empilhadas Ou então as suas relíquias ocas devem se ocultar Sob uma pirâmide igual a uma estrela?

Querido filho da memória, grande herdeiro da Fama,

Por que precisas tais testemunhas do teu nome? Em sua maravilha e assombro,

Construíste para si um monumento imortal Pois para cada vergonha da tua lenta Arte, os truques fáceis, há em cada Coração as folhas do teu livro

Sem valor, uma profunda impressão dos teus conselhos délficos, superiores ao nosso humor,

Que nos faz o mármore com muito a conceber; E sepultado em tamanha pompa

Que os reis querem morrer nessa mesma tumba.14

13 Cf. sobre os conceitos de representação discutidos neste texto, ver VOEGELIN, Eric. A nova ciência da

política, tradução de José Viegas Filho, Brasília, UNB, 1988. 14 On Shakespeare

WHAT needs my Shakespear for his honour'd Bones, The labour of an age in piled Stones,

Or that his hallow'd reliques should be hid Under a Star-ypointing Pyramid?

Dear son of memory, great heir of Fame, What need'st thou such weak witnes of thy name? Thou in our wonder and astonishment

Hast built thy self a live-long Monument. For whilst to th'shame of slow-endeavouring art, Thy easie numbers flow, and that each heart Hath from the leaves of thy unvalu'd Book, Those Delphick lines with deep impression took, Then thou our fancy of it self bereaving, Dost make us Marble with too much conceaving; And so Sepulcher'd in such pomp dost lie, That Kings for such a Tomb would wish to die.

80 Milton estava com 24 anos de idade quando escreveu estas linhas e já era audacioso o suficiente para chamar o maior poeta da geração anterior de “my Shakespear” – meu Shakespeare. Estava no meio da estadia de sua educação no Christ´s College, um período triste de sua vida, comparado ao que já tinha aprendido no St. Paul´s School, famoso pela ênfase humanista, originária dos ensinamentos do fundador John Colet.

O soneto a Shakespeare pode ser visto com um manifesto de ars poetica – e também um indício de como ele pensava em termos políticos. Se tirarmos os elogios – querido filho da memória, grande herdeiro da fama, os versos iguais aos ensinamentos do Oráculo de Delfos, etc. – fica claro que a comparação que o jovem poeta faz em relação à obra do dramaturgo é a de que suas peças e poemas não precisam de monumentos de mármore, iguais aos dos reis, porque o corpus se impõe por si só e o papel de um poeta sempre será superior ao de um governante.

Milton emula a retórica de Shakespeare para dizer nas entrelinhas que um rei vale muito pouco perante os poemas preservados na memória de um povo. Este é o verdadeiro monumento – e só a lenta dedicação à arte pode realizar tal façanha15. Como o jovem poeta estava numa encruzilhada de vocações, é possível que a sombra do Bardo fosse um impulso para continuar na trilha da poesia, ainda que a sua própria façanha demorasse mais alguns anos para acontecer – afinal, o primeiro volume de poemas completos de Milton seria publicado somente em 1645, quando era reconhecido pelo público por seus tratados anti-preláticos (como Da razão de um governo da igreja

contra o prelado, um dos textos abordados no capítulo anterior deste estudo), sobre a

liberdade de expressão (Aeropagítica, de 1642) e o divórcio (Tetrachordon, também de 1645)16.

Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, pág.34.

15 Observa-se aqui que o soneto de Milton também faz referência ao famoso poema de Quinto Flaco Horácio (“Eregi obra mais perene que bronze,/ Mais alta que pirâmides reais para/ Que nem chuva edaz

nem Áquilo colérico/ Destruir possam ou inumeráveis séries/ De anos ou fuga dos tempos”; trad. Paulo Martins) e ao soneto 55 de William Shakespeare (“Nem mármore, nem áureos monumentos/ De reis hão

de durar mais que esta rima,/ E sempre hás de brilhar nestes acentos/ Do que na pedra, pois o tempo a lima.”; trad. Ivo Barroso).

16 Cf. LEWALSKI, Barbara. The Life of John Milton. Inglaterra, Blackwell Publishing, 2003, págs. 198- 235.

81 Shakespeare não dava tanta importância assim ao papel do poeta em relação ao do governante – principalmente em suas peças, escritas para entreter o público e a corte do reino, ainda que, como revelaram novos estudos, há de fato uma linguagem cifrada que comenta de modo subversivo vários fatos da circunstância política do momento. Dessa forma, fica claro que, para o dramaturgo, a arte de governar talvez fosse algo até mais importante do que a arte do drama, uma vez que a sobrevivência do reino dependia disso: a de uma correta hierarquia de todos os níveis da sociedade.

Esta visão atinge a clareza e a concisão dramáticas em duas tragédias e um “romance” (categoria criada para classificar os textos finais do dramaturgo): Macbeth (encenada em 1606), Rei Lear (1606) e Conto de Inverno (1610). O período abrangido na redação destas peças coincide com o início da crise religiosa e institucional que a Inglaterra sofreria lentamente até a sua explosão com as Guerras Civis e com a execução de Carlos I. Quando Shakespeare escreve Macbeth, em 1603, é justo no momento que surge Jaime I, o primeiro da linhagem dos Stuart, um rei de temperamento enigmático, capaz de controlar a corte pelos seus poderes intelectuais e com uma curiosidade sobre qualquer espécie de assunto, inclusive magia negra e demonologia, sobre os quais escreveu dois tratados volumosos. É provável que toda essa vitalidade vinha do fato de que sofria de insônias terríveis, algo que se escondia da população, mas que era notoriamente conhecido na corte, especialmente entre os cortesões e os artistas que a freqüentavam, e lá com certeza se encontrava William Shakespeare17.

Apesar da energia que emanava da coroa, isso não impediu que a dissidência entre católicos e protestantes – mantida sob controle através da repressão criada pela rainha Elizabeth I e seus asseclas – aumentasse até chegar a uma situação intolerável – e que literalmente explodiria para o prejuízo de um dos lados. Era uma rixa que existia desde os tempos de Henrique VIII, quando este decidiu que não seguiria mais a Igreja de Roma, tornando-se ao mesmo tempo o chefe secular e o chefe espiritual do reino. Os católicos que ficaram fiéis a Roma logo foram chamados de “papistas”, o que era a mesma coisa que um insulto – e, depois, na época de John Milton, um excelente motivo para banimento e acusações de traição à coroa. E quem seguiu o rei, influenciados também pelas idéias de Lutero e Calvino, tomaram o poder da corte e do Parlamento,

17 Cf. HELIODORA, Barbara. O Homem Político em Shakespeare. Rio de Janeiro, Agir, 2006, págs. 49- 72.

82 ainda que não deixassem de ter as suas divisões internas. A crise entre as duas facções se acelerava conforme a perseguição sistemática a católicos pelos protestantes atingia requintes e estratégias de crueldade. Alguma coisa aconteceria – e não seria bom para ninguém.