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3 Materialer og metoder

3.1 Forsøksdesign

4.1.1 Kjemiske resultater

Milton foi alguém que precisava de uma linguagem mítica para comprovar para si mesmo a presença mediada pela existência e pela ordem no cosmos de um deus- criador ou Demiurgo, de uma força divina que cria, sustém e preserva tudo ao seu redor. Pouco a pouco percebemos já no texto de Da razão a sua intenção de justificar os

77 Cf. VOEGELIN, Eric. Ordem e História IV – A Era Ecumênica, tradução de Edson Bibi, São Paulo, Loyola, 2010, págs. 120-125.

63 caminhos ocultos do divino para explicar a situação traumática que se prepara na Inglaterra, como afirmaria trinta anos depois nos versos de Paraíso perdido. Afinal, quem sofre com a presença de um Além que ainda não se pode conhecer objetivamente também atrai em sua consciência uma intensa atenção para o problema do Princípio. Neste caso, como bem observou Eric Voegelin: “Quando o deus outrora desconhecido do Além se revela como a meta do movimento escatológico na alma, a existência do

cosmos converte-se num mistério cada vez mais perturbador”78.

Por que deveria afinal existir um cosmos se tudo o que o ser humano pode realizar é nele viver como se a ele não pertencesse, a fim de executar sua fuga desta prisão terrena por meio da morte? Essa é a questão crítica que faz vir plenamente o mistério da realidade: “Há um cosmos no qual o ser humano tem participação mediante sua existência; o ser humano é dotado da consciência cognitiva da realidade na qual é um parceiro; a consciência diferencia um processo chamado história”79; e no processo da história o ser humano descobre que a realidade está envolvida num movimento rumo ao Além de sua presente criatura. “Um cosmos que se move de seu divino Princípio para um divino Além de si mesmo é realmente misterioso; e nada há de errado com tal questão”80.

Mas e se o que supomos ser a prova da existência do Divino não ser simplesmente um absurdo? E se tudo o que há é apenas divisão, dilaceramento, cisma – e que não há outra forma de solução exceto a violência, sobre si mesmo e sobre os outros? Toda a realidade tem um contexto no qual surge e constitui qualquer ação humana que pode ser ou não uma base autônoma para a eliminação dos enigmas que permeiam a nossa condição. Quando este contexto é extirpado ou deslocado de alguma forma em função de uma experiência que deseja ser imediata do Além ou do Princípio, a tal “expansão da consciência” transforma o processo de percepção do real em um psicodrama, que sempre começa “com uma queda na divindade espiritual, prosseguindo com o aprisionamento de partes da substância espiritual num cosmos criado por um

78 Idem.

79 Ibidem, ibid. 80 Ibidem, ibid.

64 Demiurgo mau, e findando com a liberação da substância aprisionada mediante seu retorno à divindade espiritual”81.

Para Milton, em especial no texto de Da razão, o retorno a esta pureza original, ao conhecimento que constitui a pré-condição para a libertação de todos os erros anteriores, iniciados nada mais nada menos com a Queda provocada por Adão e Eva, está a manutenção a qualquer custo da reforma protestante, mesmo que haja, por exemplo, uma batalha sangrenta na Irlanda para rebelar os cismaticos da Igreja82. A violência torna-se peça necessária no jogo de combate que virou a política do reino; é uma engrenagem fundamental no grande sistema lógico que, no fim, alivia a futilidade da existência de quem promulga a corrupção da sociedade e de quem porta, mesmo que não saiba, a rebelião prometeica que a corrigirá: “Alienação e rebelião, ainda que supram o momentum, não produzem por si sós um sistema [...] que, com considerável empenho especulativo, tenta compreender o todo da realidade e seu processo. O fator adicional exigido é uma consciência do movimento rumo ao Além de tal força e clareza que se converte numa iluminação obsessiva, cegando um ser humano para a estrutura

contextual da realidade83”, na busca de uma epifania que será consumida somente na

violência.

Pois um pensador deste tipo tem que ser capaz de esquecer que o cosmos não surge da consciência, “mas a consciência do ser humano surge do cosmos”84. Tem, ademais, que ser capaz de “inverter a relação do Princípio e do Além sem se tornar ciente de que destrói o mistério da realidade mediante sua inversão especulativa”85. Por fim, quando sua imaginação inventa o drama da queda divina para trazê-la ao seu fim redentor por meio de sua ação especulativa, “ele tem que ser insensível ao fato de estar cedendo à sua libido dominandi”86.

Este “método de extrapolação mitopoética” parte das circunstâncias concretas de quem elabora a representação política da sociedade onde vive para que o governo da

81 Ibidem, ibid.

82 Cf. MILTON, John. The complete poetry and essential prose of John Milton. Nova York, Modern Library, 2007, págs. 835-948.

83 Cf. VOEGELIN, Eric. Ordem e História IV – A Era Ecumênica. Tradução de Edson Bibi, São Paulo, Loyola, 2010, págs. 120-125. Grifo nosso.

84 Idem. 85 Ibidem, ibid. 86 Ibidem, ibid.

65 sua época tenha seu início “na existência num ponto de origem absoluto, como parte da própria ordem cósmica, e desse ponto em diante deixa a história da sociedade de quem faz parte mover-se descendentemente ao presente em que vive”87. Para se tornar digno de transmitir a representação dessa mesma ordem à posteridade, este pensador reconhece que a sua narrativa não será homogênea; ele se aproveitará dos relatos de eventos lendários e míticos para depois criar o seu próprio relato, que jamais romperá a forma do mito ou até mesmo do diálogo filosófico, mas que criará uma outra forma

simbólica, que chamaremos aqui de historiogênesis88. Na busca por um fundamento que

justifique o trauma do presente que experimenta, um vate como Milton se vê obrigado a construir uma realidade alternativa do mundo que está ao seu redor, a representar uma outra História que não faz parte dos registros oficiais e com a qual não comunga com seus semelhantes, sempre no desejo de querer consertar o rumo das coisas, desconhecendo que rompe com as ligações já fragilizadas que existem entre a razão e a

liberdade.