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Videre arbeid rundt temaet

4 Oppsummering, drøfting og konklusjoner

4.8 Videre arbeid rundt temaet

O texto inaugural do inquérito a respeito da literatura da Bahia traz o nome mais mencionado: o crítico de A Tarde e poeta de prestígio, Carlos Chiacchio. Ele contribui para a literatura, principalmente, criando e motivando grupos. Literato de comprovada presença, preocupa-se principalmente com a falta de editoras, por isso, funda mais tarde as Edições de Ala. Nascido em Minas Gerais e radicado na Bahia, para Dolores, “este nome, na abertura do nosso inquérito, será como um farol abrindo a aleluia do seu fulgor inesquecível.” E ainda acrescenta: “Estrela verdadeira, espírito arguto de pesquisador insaciável, ensaísta dos melhores, Carlos Chiacchio, em uma carta, explana todo o movimento renovador da Bahia Literária.”

De fato, o prestígio conquistado durante todo o século XX até aquele momento, desde a participação no movimento Nova Cruzada, na primeira década, até Arco & Flexa, a sua articulação com academias e autores de Salvador e de outros locais, confirmam a influência do crítico de A Tarde. O texto de Chiacchio, “Resposta ao inquérito literário de Maria Dolores”, apresenta-se como um elogio direto à figura da organizadora: “A poetisa de fulgor da Bahia moderna. Maria Dolores, que ao lado de Edith Mendes são os nomes femininos, um no verso, outro na prosa, de maiores prestígios no momento literário baiano.”204

O elogio também se utiliza de recurso comum aos estudos críticos ― a comparação das escritoras baianas com autores nacionais: “Mas admiro-os como fulgurações líricas capazes de emparelhar com o melhor de Gilka da Costa e Rasalinda Coelho Lisboa.” O crítico informa sobre a falta de editoras e suas conseqüências. A preocupação, no comentário crítico a seguir, expõe uma característica desse sistema literário: “Se a falta, porém, de editores nos coloca em posições forçadas de silêncio injusto, aí estava a imprensa, sobre que me pergunta, numa das suas vantagens incentivantes ― revelar os talentos verdadeiros.205

As editoras são reclamadas porque, ausentes, providenciam um silêncio para

204 CHIACCHIO, Carlos. Resposta ao inquérito literário de Maria Dolores, O Imparcial, Salvador, p. 1, 4 set. 1931.

os produtores de literatura. A saída mais evidente é a retirada para os centros mais desenvolvidos, como São Paulo e Rio de Janeiro. De acordo com as palavras de Chiacchio, o sistema está constituído de autores, leitores e jornais. Isso significa que a precedência de um estudo que avance sobre a produção literária da Bahia deve encaminhar-se pelo fortalecimento de uma historiografia que tenha a literatura de jornal como local de publicação, divulgação e crítica da literatura. Aí está a justificativa do autor de Cronologia de Rui Barbosa:

O mesmo se pode dizer das revistas, como Arco & Flexa. Revelou, antes de tudo, legítimos talentos. Nasceu, para bem falar, dos incentivos da 'Tarde', que como o 'Imparcial', são os reveladores de nomes das nossas letras. Não digo que os outros também não o são. Seria injusto. Mas 'A Tarde' e 'O Imparcial' são mais vanguardeiros.206

Nas palavras do criador e incentivador de grupos literários como Nova

Cruzada e Távola, aparece a importância para o sistema cultural baiano dos dois

jornais, A Tarde, de Simões Filho, e O Imparcial, à época, dirigido por Mário Monteiro. Além de denunciar essa movimentação pelos espaços culturais, o crítico explica que há outros periódicos, o que significa uma rotina da imprensa acolher a literatura. Há diversos dados que afirmam uma parceria constante entre os dois diários desde a criação de O Imparcial, pelo incentivo também do dono de A Tarde, fundado em 1912. Nascidos de tempos politicamente polêmicos, os dois matutinos se utilizam do apoio cultural para manifestar idéias e posicioná-las estrategicamente através de eventos nos quais, normalmente, está a sociedade que decide os destinos estaduais ― salões culturais, faculdades e, depois, universidades.

Desse modo, também em vista da carência de um sistema mais diversificado e experiente através de mecanismos tradicionais, como editoras e público leitor, faz o jornal assumir essas tarefas (chegando a ceder suas oficinas para a edição de livros: de José de Sá,207 Organização de ALA e, na última fase, Edições Imparcial).

Também é do jornal que saem a crítica e a narrativa enquanto não se instalam os

206 CHIACCHIO, p. 1, 4 set. 1931.

207 SÁ, José de. O bombardeio da Bahia e seus efeitos: registro político histórico. Salvador: Oficinas do Diário da Bahia, 1918.

estudos universitários ― formato de estudo hegemônico sobre a literatura. O crítico e poeta aponta a importância de Eugênio Gomes no sistema literário:

Dentre os primeiros, como precursor, na poesia baiana, olhada desse ponto de vista dinâmico, convém citar Eugênio Gomes, que ainda foi pelo

Imparcial, o primeiro a responder o apelo da Tarde, do que nasceu Arco & Flexa, jornal e revista que iniciaram o movimento moderno da poesia

brasileira na Bahia.208

O crítico entrevê mais uma das fontes de diálogo entre os dois jornais irmanados na causa política. Por ele, Gomes adere à provocação de Chiacchio sobre um movimento modernista na Bahia. Dentro desse sistema, mais uma vez sui

generis, no qual, mesmo havendo valores críticos, a literatura, segundo muitos, não

concebe uma organização amadurecida. Eugênio Gomes e Carlos Chiacchio alcançam o amadurecimento e contato intelectual em instância local. De outra forma, seriam nomes derivados de esquizofrenia ou mitomania, uma vez que pensam constantemente sobre a literatura (estadual) de que fazem parte.

A menção às duas imagens negativas ― esquizofrenia e mitomania ― se deve ao fato de que se pode recolher e analisar um conjunto relativamente numeroso de ações literárias, principalmente, estudos de periódicos. O desconforto surge quando se confronta a produção encontrada com as críticas sobre o sistema: há a sensação de equívoco ou de ficcionalização da moldura. Ficcionalizado ou não, após a narrativa sobre as condições atuais do sistema com o qual trabalha todos os dias, o cenário é diagnosticado. Chiacchio oferece uma longa e rica lista de jovens escritores:

Ao lado de Eugênio Gomes como grande afirmação ainda no terreno da poesia, temos Carvalho Filho, o originalíssimo panteísta, temos Hélio Simões, extraordinário talento de orador e poeta místico, temos Eurico Alves, o dinâmico febril, temos Ramayana de Chevalier, o imaginista brilhante, temos Godofredo Filho, o supra-realista arrebatado, temos Pinheiro de Lemos, flagrantista de realidades, temos Castelar Sampaio, o novelista da ironia, temos Lafayete Spínola, o penetrantíssimo ensaísta,

temos Fausto Penalva, o filósofo inteligentíssimo, temos Nobre de Lacerda, visão clara de crítico pensador, temos Moreira da Silva, poeta de emotividade encantadora, todos esses de Arco & Flexa. E, perdoe-me incluí-la, temos Maria Dolores, o esplendor lírico de cânticos triunfais. Temos... não temos mais ninguém. Ninguém, nisso de poesia modernista. Porque, nos moldes estéticos da poesia formal, que também é poesia, e, às vezes, da melhor, temos Clodoaldo Milton, Berto de Campos, Braulio de Abreu, Elpídio Bastos, Manuel Raposo, Cícero Mendes, Carlos Viveiros, Almeida Maia, Ferreira Reis, Bastos Pereira, como os novos de mais talentos.209

Os nomes considerados canônicos e, ao que parece, pouco afeitos ao esnobismo e ao isolamento, ainda aparecem na memória consagradora do crítico: “E temos outros nomes, sobre os quais, isoladamente, poderia escrever uma monografia. Roberto Correia, Artur de Sales, Deraldo Dias, Anísio Melhor”.210 Como

o ambiente cultural reflete o momento político, o revide e a provocação também têm uma grandeza que não combina com a mesquinhez da literatura que algumas histórias afirmam. Refiro-me ao ataque, proferido por Chiacchio, a grupos rivais, que não estão incluídos no seu rol de jovens talentos.

No horizonte de expectativa, sabe-se que há a Academia dos Moços, o grupo da Baixinha, com a revista Samba e a Academia dos Rebeldes, liderada por Pinheiro Viegas. Dessas agremiações literárias, saem outros autores para figurar na literatura nacional:

Caí, positivamente, no perigo da nomenclatura literária. É o mal dos Inquéritos. Ou se responde, ou se cala. Ou, por fim, se esquece. A quem teria eu esquecido, agora? Não sei. Há esquecimentos que parecem lembranças... bolando as trocas. Todos esses nomes podem marcar, como já marcaram um rumo às nossas letras. Elas são eles. E só. O mais é a chusma dos rondantes, como bárbaros, gritam. Escoiceiam. Detratam. Intrigam. Difamam. Caluniam. Denigrem. Apedrejam tudo, mas não produzem nada. A não ser isto – a polvorosa, que as azêmulas levantam aos látegos do pulso que lhes castiga as ancas... Deixemo-las à mercê das moscas.211

209 CHIACCHIO, p. 5, 4 set. 1931. 210 Id. Ibid., p. 5.

Chiacchio dedica muitos anos propondo e refletindo a respeito de postulados teóricos que possam explicar e orientar o sistema incomum a que está exposto. Apesar de o autor ter sido estudado, ainda falta uma visibilidade maior dessas propostas teóricas, levando em consideração a advertência de Walter Mignolo,212

de que se deve conhecer as teorias locais para que não se aliene, muitas vezes, com teorias globais. O crítico, ao posicionar a contribuição dos novos na literatura da Bahia, apresenta e reafirma seu conceito de Tradicionismo Dinâmico:

Os novos marcam deveras um novo rumo à nossa poesia, mas não nos podem fazer à parte senão readaptando-a à corrente integral da poesia brasileira, que esse é o conceito geral de tradicionismo dinâmico. A Bahia é a tradição, mas o Brasil é o todo. O regionalismo bairrista seria a morte. O regionalismo em função do universalismo. É o que é. O ideal. E basta.213

O grupo de escritores e a peculiar situação intelectual de região precisam driblar as paixões culturais contemporâneas ― entre a negativa de destruir o seu passado literário e a incluir-se no presente modernista. Isso motiva a urdidura da teoria literária: o Tradicionismo Dinâmico. Uma comparação interessante seria a proposta de Chiacchio e a iniciativa do teatrólogo paraibano Ariano Suassuna ― Movimento Armorial ―, que também busca uma aliança entre a tradição e a Modernidade. As duas estratégias culturais sabem que o luxo do abandono total da tradição anterior só é positivo no centro mais amadurecido, onde há o que atingir e ainda correntes, nessa mesma tradição, para os apoiar.

Por outro lado, a “readaptação à corrente integral da poesia brasileira” é a maneira de ordem dessa literatura dos novos e o espaço, o palco, por onde as escritas neófitas podem galgar degrau menos obscurecido ou mais apropriado para a difícil leitura com vistas à sistematização distante. O anúncio, em aparelhos periódicos locais e dos centros protagonistas, de qual o lado eleito ― conciliar com o passado (vozes e temas baianos) ― para Chiacchio, seria mais proveitoso do que as duas alternativas de ruptura: regionalismo refratário e repúdio ao acervo anterior

212 MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Tradução de Solange Ribeiro de Oliveira. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003. p. 241.

para o início a partir de liderança da Semana de 1922.

Negar a tradição seria estabelecer a planície devastada e o vazio novamente, sob o ponto de vista baiano. O contrário é cumprir o que os compêndios e as análises artísticas e intelectuais dizem existir. A tradição deve ser entendida como resistência ampla. A habilidade de perceber o entorno do sistema da literatura faz Chiacchio concluir elogiando a iniciativa da sondagem cultural como projeto, haja vista a diversidade de atuação e o desbragamento no trato dos temas e gêneros diversos:

O seu inquérito há de assinalar uma época de renovação de idéias e emoções ao nosso mal compreendido ambiente literário e artístico. A pintura, a música, o canto, a escultura, na Bahia, têm grandes nomes, mas sofrem de pequenos achaques. Falta-lhes o estímulo da atividade congraçante que paradoxalmente separe o joio ignóbil do trigo florente. Oxalá tenha o seu inquérito essa finalidade magnífica. São os meus votos.214

A consciência do trabalho de Maria Dolores, o esforço na lista mais completa das respostas e dos nomes, os comentários todos afinados ao sentido que a poetisa quer conferir ao inquérito, habilitam Chiacchio como o possível organizador ou co- organizador, juntamente com Maria Dolores. Algumas cartas de colaboradores acusam a poetisa de ser pseudônimo do próprio criador de Ala. De fato, o apuro da iniciativa estaria mais próximo de um profissional das letras experimentado, como o autor de Infância, do que de uma jovem poetisa desconhecida até aquele momento. Porém, o desenvolvimento do projeto demonstra a competência da redatora de ‘Página Feminina.’

Ao apresentar o escritor Hormindo Marques,215 o qual faz seu depoimento

sobre a literatura e a cultura da Bahia, Dolores adianta que o mesmo é bastante cuidadoso nas suas observações, talvez por temor de ferir suscetibilidades. Para reverter o direcionamento dos depoimentos, lembra que a coragem do ensaio de Chiacchio está ali posta com vista ao avanço, de modo verdadeiro e pouco

214 CHIACCHIO, p. 5, 4 set. 1931.

dissimulado, pela seara da avaliação cultural. O autor confessa, em exagerada humildade, não ter competência para avaliar ou estar ao lado de tão destacados nomes das letras.

Sua posição “suscetível” o leva a explicar a procedência da atividade literária, que não pratica mais, portanto, substituída pelas ciências matemáticas:

Em tempos que se foram, quando me dediquei um pouco ao jornalismo, na Bahia, e que escrevi algumas crônicas literárias, menos pela vaidade estulta de arrebanhar valores e chamar a mim interesses quaisquer, mais pela necessidade que temos de dar vazão as leituras e estudos que fazemos, conheci, nesta época, intelectuais de inconteste valor que, mais vantajosamente do que eu, poderão expor-lhes a verdadeira situação do movimento literário baiano.216

A situação de neófito das letras, o que parece ser um jogo retórico, o faz apresentar os nomes considerados importantes sem uma devida responsabilidade pela impressão ou esquecimento:

Assim, o dr. Ivan Americano da Costa, deles o mais jovem, o mais talentoso, o mais culto em literatura, poeta e prosador. Ramayana de Chevalier, o exímio pintor da natureza panteísta. Pinto de Aguiar, o admirável poeta de Gênese. Maria Dolores, nossa Juana de Ibarbourou. Jônatas Milhomens humorista e satírico. Edith Mendes, a mais brilhante cultura intelectual no belo sexo. Pereira Reis Junior, imaginoso poeta lírico e regionalista. Lafayete Spínola e Eugênio Gomes, ambos poetas, pela cultura e talento que possuem poderiam assumir a crítica literária na Bahia. Carvalho Filho, sobre quem, em crônica literária, tive oportunidade de expressar meu pensamento. Francisco de Matos, brilhante poeta passadista. Arlindo de Azevedo Machado que, por certo, será aplaudido em um romance que publicará em breve. Carlyle de Chevalier, João Lucas, Fausto Penalva, as mais perfeitas formações filosóficas dessa mocidade. Ainda em nossa mocidade temos Pedro Calmon, Heitor Fróes, Heitor Moniz, valores que já se projetaram, brilhantemente, no sul do país.

Acredito desnecessário citar Deraldo Dias, Altamirando Requião, Artur de Sales, Roberto Correia, estes, literatos por demais conhecidos em nosso Brasil e no estrangeiro como muitos dos cultores da literatura tais como drs. Garcez Fróes, Gonçalo Moniz, Prado Valadares, Souza Carneiro, Almir de Oliveira, etc., etc.217

216 MARQUES, p. 1, 22 set. 1931. 217 Id. Ibid.,p. 1.

Os autores de talento, na opinião de H. Marques, são citados por Chiacchio e alguns, por Xavier Marques, pressupondo um palco onde trocam idéias e farpas, através do debate oral ou pelas editorias dos jornais. Após a citação da plêiade de autores que conformam quase que um cânone particular dos envolvidos com a literatura, o autor volta-se para sua aquisição intelectual:

Quanto a minha formação literária, devo-a única e exclusivamente a Virgílio de Lemos, (não há adjetivações), sobre que não posso falar sem marejarem os olhos, que, com paternal carinho, me trouxe ao conhecimento o português, a retórica, a filosofia, nossa literatura e as portuguesa, francesa, inglesa e alemã. ― Amigo admirador do seu talento e das suas virtudes.218

O rápido depoimento de Hormindo Marques é representativo daquilo que a organizadora reclama nos seus entrevistados: se não declina do convite de participação na enquete, também pouco faz para fugir do elogio fácil a figuras do meio literário. Por outro lado, a sua lista, muito próxima dos participantes de Arco &

Flexa, expõe um grupo de escritores que compõe um certo cânone da literatura

baiana, tanto anterior, como é o caso de Artur de Sales, como renovado pela admissão da figura feminina, a exemplo de Edith Gama e da própria Maria Dolores.

Para satisfação de Maria Dolores, a figura do poeta de prestígio à época, Carvalho Filho, um intelectual atento aos rumos culturais, escreve seu texto bem mais afinado às idéias da organizadora. Após realizar uma retrospectiva da cultura na Europa e no Brasil, onde insere os críticos com o papel de liderar os novos caminhos da literatura, Carvalho Filho responde às provocações de outro entrevistado, Pinto de Carvalho:

Nunca se praticou futurismo nem dadaísmo na Bahia, termos que causam náusea e ridículo entre os nossos valores modernos. Marineti nunca existiu na cogitação da gente moça desta terra. Se querem, lembro Alomar. Gabriel Alomar. Este sim. A grande vítima do charlatanismo e da genial

blague de Marineti, de qualquer modo, chega a preocupar todo o universo

culto. E muitos ingênuos, no Rio e em S. Paulo, lhe leram nas águas iniciais. Mas aqui, como em outras províncias, o controle do espírito moderno foi exercido por compreensões mais altas do fenômeno. Surgiu já com orientação segura, com a sua diretriz delineada com precisão, que logo a revelaram com os olhos dos que a quiseram ver. E aí está. Também Minas e Rio Grande do Sul. É um, atualmente, o rumo da literatura no Brasil.219

O crítico avalia as diferenças entre a produção literária da Bahia e a dos centros do Sudeste:

E aqui vamos como por onde melhor se vai. Atuam mais fortemente, ao menos quantitativamente, os centros maiores do país já favorecidos com empresas editoras com que ainda não pode contar a nossa província, que tem de as mover, nesse sentido, pelos esforços particulares.220

As bases estruturais são notadas como o problema que mais aflige a literatura da Bahia, mas não foi diferente no todo do Brasil, porque as deficiências em relação às editoras envolvem vendas e distribuição, que é para onde vão os livros, as províncias. Se há um mercado mais bem estruturado, logo ele precisa expandir-se para lugares onde esse contingente de leitores e distribuidores ainda é ineficiente, tornando o produto mais caro e, por isso, menos lucrativo. Antes de concluir sua colaboração no inquérito, o poeta cita os nomes dos representantes do novo espírito baiano na literatura: “Eugênio Gomes, Godofredo Filho, Pinheiro de Lemos, Maria Dolores, Hélio Simões e Eurico Alves.”221 Outros são: Ronald de Carvalho, Carlos

Chiacchio, Tristão de Ataíde, João Pinto da Silva; também os franceses Victor Hugo e Emile Zola.

Se Carvalho Filho informa sobre as condições intelectuais externas em sua impressão sobre o local, o experiente jornalista Carlos Ribeiro faz a sua avaliação a partir de uma longa prática dentro da sociedade examinada. Maria Dolores comenta sobre o jornalista criminalista e sua contribuição ao inquérito. Ribeiro, após fazer críticas à maneira formal como os autores anteriores ― Nestor Duarte e Pinto de

219 CARVALHO FILHO, A Bahia intelectual. O Imparcial, Salvador, p. 8, 2 out. 1931. 220 Id. Ibid., p. 8.

Carvalho ― se comportam, elogia os poemas dos dois articulistas. Sobre o assunto em si, ele afirma:

Ora, se é essa a minha pobre filosofia literária, como não hei de admirar Graça Aranha, o Pedro I da independência das letras brasileira, com o seu brado de 1924, na Academia? Ronald de Carvalho, Azevedo Amaral e tantos outros, sem excluir o extremista Paulo Silveira? Como não aplaudir a mocidade provinciana, sadia e esbelta de Arco & Flexa, com o seu porte guieiro. Carlos Chiacchio, o nosso Anatole France, na crueldade elegante de sua crítica? E essa figura nobremente atrevida de Eugênio Gomes, dialeta esmagador para falar apenas de um dos discípulos daquele mestre exímio?222

O crítico confessa sua condição de adepto do Romantismo, pois o mundo moderno, com sua tecnologia e parafernália, entusiasma mas não comove o “tupinambá velhote de jaquetão e óculos. Mas sem saudade da piroga e da mata virgem.”223 Outra particularidade dos depoimentos intelectuais é que, em algum

momento do texto, vem à tona a vida cotidiana do autor. À medida que mostra a desenvoltura em mesclar o trabalho letrado com a rotina da área com que ganha o salário da sobrevivência, ele deixa ver como está distante a profissionalização do