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Grimstad grense-Hestehagen

3 Empiri

3.2 Undersøkelse av saker

3.2.2 Grimstad grense-Hestehagen

Se a crônica é a passagem dos temas de humor para a discussão dos assuntos “sérios” no jornal, a crítica é o exercício categórico dos estudos intelectuais e literários. O Brasil ― como País ― e a Bahia ― como região ― cultivam sentidos parecidos de estudos literários. Provinda do século XIX, ela compõe o gosto pela polêmica crítica impressionista (Saint-Beuve e Gustave Lanson). Os impressionistas, como o nome indica, baseiam-se no julgamento de um texto a partir das impressões que tenham dele. Com o advento de novas correntes críticas como o New Criticism, o impressionismo perde força. O crítico Alceu Amoroso Lima, em ensaio polêmico, escreve sobre os pontos positivos da escrita impressionista tão combatida com o

advento da Teoria da Literatura:

(...) Os impressionistas literários como Anatole France, Jules Lemaitre ou Remy de Gourmont, [restituíram] à arte a sua liberdade e à crítica o seu direito ao bom gosto. Foi esse o inestimável serviço que o impressionismo, hoje tão denegrido, prestou à história da literatura.182

Baseado no bom gosto, esse tipo de crítica oferece um lastro de cultura e erudição ao leitor enquanto faz a abordagem da obra. Menos dedicada à obra enquanto postulação teórica, o impressionismo dá vazão para o estilo do crítico como motivo de leitura, um dos argumentos para a transformação do texto jornalístico em gênero literário, na concepção de Amoroso Lima. No entanto, a força disseminada no sistema intelectual, de idéias partidárias como signo negativo, põe em dúvida a atividade crítica de escritores como Humberto de Campos, Luís Delfino e Álvaro Lins.

Grosso modo, os escritos do grupo de determinado crítico sempre são dignos de elogio e os livros da “igrejinha” contrária acabam rechaçados antes mesmo de uma investida mais cuidadosa. A banalização dessa prática de jornal para jornal ou revista de literatura (até os anos 1950, os lugares por excelência de estudo do literário) ocasiona o descrédito como um todo. Afrânio Coutinho é um dos mais influentes estudiosos que orienta pela retirada do privilégio aos periódicos para locais teoricamente mais sólidos como os departamentos universitários de graduação e pós-graduação.

A polêmica na crítica literária se dá de duas formas: as idéias de um grupo ou indivíduo de um grupo numa atitude de oposição entre intelectuais contemporâneos, como Silvio Romero e José Veríssimo; o estabelecimento de diálogo e superação de gerações diferentes ― os jovens modernistas da Semana de Arte Moderna quando combatem os autores consagrados da Academia Brasileira de Letras, a exemplo de Coelho Neto e Olavo Bilac.

As impressões tendem a um lado positivo, bastando o crítico apreciar e

182 LIMA, Alceu Amoroso. Os gêneros. In: ______. O jornalismo como gênero literário. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2003. p. 27. (Clássicos do Jornalismo, 3).

recomendar a obra ou para o negativo, ao não aprovar o mérito do texto. Trabalho levado adiante a partir de argumentação, muitas vezes, de leitura superficial do livro, a crítica vale-se também de conhecimentos e relações pessoais ou profissionais com o autor julgado. Regularmente, o desafeto é condenado à incompetência e o aliado, ao Olimpo do talento literário.

Há no jornal desde os primeiros dias, a leitura dos livros publicados, a análise de obras, resenhas, portanto, é corriqueira a atividade de crítica literária. Algumas características são próprias, de tal forma que lhe é peculiar a literatura articulada com a filosofia, a sociologia, a história e a política, em dois sentidos relacionados: à política em geral, o que especificamente se tratando de O Imparcial, refere-se ao mapeamento geopolítico do globo nos direcionamentos do entre-guerras,183 à política

que o jornal defende e difunde: aqui, sim, fica evidente como o “calor da hora” e do acontecimento intercepta a melhor interpretação (no olhar de hoje), e as escolhas do jornal mudam constantemente (integralismo; getulismo; comunismo; “Ruísmo” ― segue as idéias de Rui Barbosa184). Em outro sentido, por mais que as convicções

ideológicas tentem ser encobertas ou encobrir posicionamentos diversos, é parte da cultura e de sua identificação que vai sendo vislumbrada nas manchetes e reflexões dos artigos de fundo.

Saídos das faculdades de Direito, em sua maioria, e de Medicina, na formação dos críticos destaca-se o conhecimento erudito. Há textos com títulos em latim. A noção corrente de crítica literária não leva em consideração somente o texto literário e suas especificidades formais. Além disso, enfatiza-se o conhecimento geográfico e a construção do tipo humano autêntico. Mais facilmente do que no livro (pende para o nacional), o periódico sustenta um cânone da Bahia, que pouco se assemelha com os nomes consagrados da literatura nacional. Por exemplo, para o jornal, na década de 1920, o maior escritor brasileiro vivo é Xavier Marques.

183 É bom lembrar que, no jornal, as guerras mundiais estão intimamente ligadas como se a primeira não tivesse terminado até a segunda. Faz parte do apelo identitário e de vendas do meio jornalístico trazer e/ou fazer render as apreensões de conflitos bélicos. O que parece ser somente as manchetes cotidianas de um jornal, é, para quem o observa na sua totalidade, dia após dia, uma sucessão de medos, temores e turbulências.

184 A primeira década do jornal está ligada a Rui Barbosa, o proprietário do Diário de Notícias do Rio de Janeiro e da Bahia até pouco antes da fundação de O Imparcial. A atividade político-jornalística explica as influências do senador e 'protetor da Bahia’.

Um dos primeiros críticos do diário baiano é seu proprietário, Lemos Brito, que, ao assinar seu próprio nome ou com iniciais de LB, comenta livros saídos em plena campanha presidencial de Rui Barbosa, nos anos de 1918 e 1919. A Brito, juntam-se Adh. França (09 jul. 1918) e Mario Linhares (16 e 17 set. 1918). O rol de colaboradores críticos literários é pródigo nos três decênios do jornal: Xavier Marques, Eugênio Gomes, Pethion de Vilar, Acácio França, Afrânio Coutinho, Quixadá Felício, Pinto de Carvalho, Pinto de Aguiar, Bastos Tigre, Adonias Filho, Jorge Amado, Guerreiro Ramos.

Na literatura de jornal, é comum o autor exercer mais de uma atividade literária. Eugênio Gomes faz crônica e poemas. Afrânio Coutinho é um exemplo célebre: exerce colaboração na principal coluna do jornal, em ‘Pela Ordem...’ (de sua criação), o chamado artigo de fundo, de 120 artigos nos quais articula literatura, política, educação, saúde, filosofia etc. Não há, no futuro autor de No hospital das

letras, a separação da arte literária das outras atividades da cultura. Ele inicia sua

colaboração n’O Imparcial em 17 de abril de 1934, com o artigo “A França verdadeira”, no qual reflete sobre as instituições culturais que fazem do país francês um exemplo de civilização. E assim continua nos artigos subseqüentes.

Somente no décimo quarto artigo, após discutir política, educação e cultura, alcança a literatura com “Atualidade de Shakespeare”.185 O artigo de Afrânio

Coutinho é atestado pelo elogio do veterano escritor e crítico Pinto de Carvalho. Em artigo de 20 de maio de 1936, “Deus e Diabo” (p. 3), Carvalho apresenta o jovem médico como único articulista da nova geração que tem compromisso profissional com o estudo. A essa altura, o autor de A tradição afortunada amealha elogio de grande personalidade do cenário das letras da Bahia da época. Fazendo jus ao elogio (raro comentário que intelectual patrício dedica a outro), no seu livro de comemoração intelectual (Poética e cultura) ele assume que sua longa e fértil carreira é uma sucessão de “empurrões” e incentivos de mestres como Pinto de Carvalho, Eugênio Gomes e outros.

Odilon Belém descreve o cotidiano delicado dum analista e crítico das

185 COUTINHO, Afrânio. Atualidade de Shakespeare. O Imparcial, Salvador, 27 jul. 1934. 'Pela Ordem...', p. 4.

questões do tempo matizadas pelas ideologias em voga:

Afrânio Coutinho não pode abrir mão dos espaços que os jornais lhe ofereciam. E, para conservá-lo como é óbvio, tinha de se manter neutro, usando o poder da imaginação e do conhecimento para esclarecer aos brasileiros o que se passava em outros países e como se conduziam os homens de espírito em face dos excessos que envolviam os povos. Seu primeiro artigo n’O Imparcial, em 9 de fevereiro de 1934 [não confere com a data da minha catalogação], focalizando diferentes aspectos da política e da administração na França, envolvida pelos ideólogos do marxismo e integrantes das corrente fascistas em ascensão. Exatamente os valores que, nos últimos anos, fizeram do grande país a pátria da inteligência e garantiram a integridade das culturas, que tiveram decisiva influência no aprimoramento da índole e da psique do povo gaulês.186

As observações anotadas pelo biógrafo Odilon Belém, assim como por outros estudiosos de Afrânio Coutinho, indicam uma neutralidade na obra do crítico, postura que vai de encontro tanto às observações do jornal fundado por Lemos Brito, como também da própria identidade crítica. No afã de posicionar o trabalho do escritor e professor baiano acima das mediocridades do cotidiano e pouco valorizado em países como o Brasil, seus estudiosos o retiram da contingência que condiciona sua atuação.

Se por um lado, toda escrita contém vínculos, correndo o risco de ser manobrada, ela tem uma motivação genuína para o desenvolvimento. Sendo assim, Coutinho não é neutro, mesmo que esteja utilizando de competência para superar o limitado diálogo direita-esquerda. Sendo assim, não há um caminho para a verdade pura, sem a vinculação com grupos que providenciem o aparecimento de obras como A literatura no Brasil, e a Enciclopédia da literatura brasileira.

Algumas ações devem ser realizadas para que a atitude neutra surja de uma prática. O crítico tem que apresentar um produto insolente, pela novidade, mas conciliador, pelo diálogo com outros indivíduos e instituições. Coutinho faz parte de um sistema de cultura. O estilo de análise cultural e reflexão, assentado nos

186 BELÉM, Odilon. Afrânio Coutinho: uma filosofia da literatura. Rio de Janeiro: Pallas, Didática e Científica, 1987. p. 68-9.

assuntos das outras páginas do jornal, marca seu tom e o dos articulistas. Esse encaixe dialógico diferencia tanto da crítica, em seu espaço de arrumação, quanto da crítica reunida. A literatura de jornal explicita o diálogo como especificidade em outros gêneros: o folhetim, o poema e a crônica.

No percurso periódico, é comum também que um autor comece como poeta e termine como cronista. É o caso de Maria Dolores, poetisa desde os últimos anos de 1920 e que, em 1933 e 1934, aproveita o seu espaço em ‘Página Feminina’ para escrever crônica e crítica.187 Além disso, organiza a ‘Página Literária’. Outro exemplo

é Dermival Costalima, que inicia sua colaboração no jornal como poeta188, inclusive

escrevendo um poema em homenagem à cidade de “Feira de Santana”, e o conclui como cronista social. Outro escritor importante aparece em primeiro texto, como crítico189, Jorge Amado, apesar de ser jornalista do diário e escrever ensaio: “O

Romancista diante do romance.”

A literatura ainda se compõe de gêneros que a história da literatura e a crítica literária pouco abordam. A folha ainda oferece os epigramas, de Roberto Correia e Lulu Parola, as quadras em repente, de tom popular, o fragmento em prosa e drama, as letras das músicas de festas tradicionais e comemorações das festas momescas sempre em destaque nas páginas do jornal.

O Imparcial, a partir da narrativa de seus elementos formadores e a qualidade

de diálogo estabelecido com a comunidade, guarda um caldo de cultura e literatura que inspira exame mais acurado. Desde a pretensão de uma imparcialidade que respeita na prática (publicação) e rasura na absorção das idéias (ideologias que defende), o periódico arrisca refazer a cotidianidade da cultura para além do seu tempo particular. Em suas colunas, explicam-se os rumos da identidade cultural da Bahia, hipnotizada em si e disposta aos ditos da nacionalidade.

187 DOLORES, Maria. O Imparcial, Salvador, 26 nov. 1933. 'Página Feminina', p. 2.

188 COSTALIMA, Dermival. Miragem. O Imparcial, Salvador, p. 4, 30 jul. 1934; Feira de Santana. 13 ago. 1974, p. 4.

189 AMADO, Jorge. Carnaval. O Imparcial, Salvador, p. 4, 4 mar. 1935; O romancista diante do romance. 4 mar. 1935, p. 3 e 7.

4 BAHIA INTELECTUAL ― CÂNONE, SISTEMA E CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO