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O município de Criciúma adotou o PSF como uma indicação estadual e nacional, mas implantou-o como uma estratégia política municipal a ser utilizada na organização da atenção básica. Sua proposta de intervenção foi pautada pela vigilância à saúde, tendo na medicina preventiva, nos territórios comunitários e nas famílias seus focos de atuação. Segundo as idéias centrais dos informantes as práticas das equipes deveriam ser balizadas pelos compromissos com os princípios do SUS, entre eles o direito à saúde, a integralidade e a eqüidade, todos em busca da qualidade de saúde da população.

As experiências de Cuba, do Grupo Hospitalar Conceição, a indução do Ministério da Saúde e o apoio da Secretaria Estadual de Saúde foram influências fortes para que o município tomasse a decisão de implantar o PSF. Além dessas influências, o município motivou-se para implantar o PSF porque os processos organizativos da atenção básica precisavam ser revistos. O modelo de atenção à saúde do município estava sendo questionado por todos (profissionais, comunidades e gestor), por apresentar uma série de deficiências.

As 19 primeiras equipes foram implantadas no ano de 1994 nas áreas mais carentes, na preferiria, na zona rural. Seguem sendo estruturadas nas unidades básicas do centro da cidade. Essas equipes foram selecionadas para contribuir com a prevenção das doenças e a promoção da saúde, tendo na educação em saúde seu carro-chefe, segundo informam os profissionais que participaram da entrevista coletiva. Os elementos que eles destacaram foram:

[...] trabalhar com a prevenção em primeiro lugar... promover um

atendimento digno, compreendendo o ser humano como um todo... o diferencial do PSF na rede pública, eu acho também é facilitar o acesso... tratar de questão das comunidades na equipe também é um diferencial das equipes do PSF [...]

Em síntese, afirmam os informantes que as equipes de saúde da família trabalham na prevenção com vistas a promover a qualidade de vida centrada nos indivíduos, famílias e comunidades em seus contextos social, cultural e econômico. Portanto, o objetivo mais importante do PSF é a prevenção da doença e a educação para a saúde.

O município de Criciúma conta nas suas 26 unidades básica de saúde, com 26 equipes, 545 Agentes Comunitários de Saúde, cuidando de 31,88% da população residente. Para implantação dessas equipes, houve dificuldades de ordem técnica (ausência de profissionais com perfil ideal) e de ordem financeira, já que os recursos provenientes dos incentivos financeiros do Ministério da Saúde não cobriam as despesas de custeios e manutenção das equipes em funcionamento, segundo informa a coordenadora municipal.

Adiciona-se a essas dificuldades o fato de o município não dispor de sistema de referência e contra-referência, ainda que possua um protocolo da atenção básica. Mesmo assim, as equipe do PSF relacionam-se com os outros níveis do sistema procurando um bom entrosamento entre profissionais, no plano da informalidade e do apoio mútuo. Apesar dessas dificuldades as equipes do PSF planejam, programam e pactuam as ações das unidades básicas de saúde, utilizando as informações do SIAB, das agendas locais e dos mapas aéreos.

Para os respondentes, as ações de saúde que passaram a ser ofertadas a partir da implantação do PSF foram as de acompanhamento de grupos crônicos de diabéticos, controle de peso das crianças, grupo de gestantes e pré-natal. E dentre as ações ofertadas pelas unidades básicas de saúde da família, as mais utilizadas são as consultas médicas e de enfermagem dirigidas aos grupos específicos, tais como crianças mulheres, idosos e indivíduos em situação de riscos (controle de agravos). E acrescentam:

[...] era a saúde da criança e a saúde da mulher. Hoje é uma comunidade de

saúde do idoso. Acho que varia muito de realidade para realidade.

Quanto às mudanças que consideram mais importantes na organização da atenção básica, citam:

[...] educação continuada... a organização dos grupos dedicados às

mulheres, aos idosos, a programação semanal da coleta para os exames preventivos... a consulta programada do pré-natal, da vacinação, das visitas domiciliares com os ACS... nossas reuniões para discutir os dados do SIAB.

No tocante às mudanças que o PSF trouxe para situação de saúde da população, a coordenação municipal foi enfática ao destacar que o mesmo contribuiu para diminuir a mortalidade infantil e o número de crianças com baixo peso, além de aumentar a cobertura vacinal e o controle dos pacientes diabéticos e hipertensos.

Essas mudanças são limitadas e os resultados, diante do tempo, deveriam ser outros, mais consistentes segundo expressam os respondentes. A seguir, são apresentadas as idéias centrais que ilustram a opinião acima:

[...] acho que não apresentado o resultado à altura dos objetivos do PSF,

principalmente aquele de ser o reorganizador da atenção básica... Eu acho que a gente precisa voltar aos objetivos originários... os objetivos pelos quais o PSF foi criado... principalmente o trabalho preventivo... eu acho que está sendo descaracterizado, às vezes pela pressão da própria comunidade, às vezes por pressão dos nossos dirigentes.

Segue na mesma direção:

[...] o PSF não pode ser construído apenas de consulta imediatista... só

colocando panos quentes... consulta, consulta, mais consulta e você não tem tempo, para mais nada... cadê a educação em saúde.

Alguns dos depoimentos entram no plano do desabafo de ordem pessoal:

[...] uma vida dedicada ao PSF, começou de uma forma tão bonita... e agora

como a gente vê... assim, desgastado , sem ânimo... o meu medo é que isso acabe assim, o que deveria ser uma estratégia para viabilizar o SUS, para que o SUS se torne realmente efetivo...vire um grande pronto-socorro, nada mais ...eu tenho medo.

Com isso afirmam que o PSF amplia o acesso aos serviços básicos de saúde, uma vez que ele chega aos territórios onde nunca existiram serviços mas, ainda está muito distante de prover o acesso aos demais níveis do sistema e de superar as desigualdades na saúde.

4.12 Bragança (PA)