O município de Neópolis já vinha tentando organizar os serviços básicos de saúde desde 1989, quando o Secretário Municipal de Saúde assumiu a Secretaria, almejando estruturá-la. Em 1994, o ex-secretário, na condição de Prefeito e apoiado pela Secretaria Estadual de Saúde e pelo Ministério da Saúde resolveu implantar o PSF.
As primeiras equipes do PSF foram criadas para atuar na zona rural no Povoado Betume. Os profissionais moravam na localidade, de acordo normas do Ministério da Saúde. Betume foi a área escolhida porque era um território muito problemático, um lugar no qual a Secretaria Municipal de Saúde tinha dificuldade de chegar e de assistir aquelas comunidades. Portanto, os critérios e prioridades adotados para a implantação das primeiras equipes foram de risco epidemiológico, social e de garantia de acesso àquela população que não dispunha de recursos de nenhuma natureza para procurar atendimento nas unidades de saúde do centro da cidade. Dessa forma, a necessidade que a população tinha de ser assistida em seu local de moradia, foi o que mais motivou a Secretaria Municipal de Saúde a implantar o PSF.
O movimento de municipalização que se encontrava em pleno vapor, à época, também motivou o gestor municipal a optar pelo PSF. Tem-se ainda quase como um desdobramento das discussões na época da realização da 8ª Conferência Nacional de Saúde, pois isso visualizava a perspectiva de avançar, de mudar a saúde nos municípios. Para resumir as motivações que levaram o município a implantar o PSF, estava presente na entrevista coletiva o prefeito da época que declarou:
[...] eu mesmo fui uma pessoa que ao ser prefeito já tinha feito a residência
em medicina preventiva e social, já tinha convivido com Sérgio Arouca, que nos relata as experiências exitosas de alguns países, com a Nicarágua e Cuba, esses movimentos foram motivações de certa forma para implantação do PSF.
E acrescentando afirmou:
[...] para mim foi uma coisa que, assim, motivou muito a gente a implantar.
Você ter acesso direto aos recursos para contratar médicos, profissionais, enfim, isso era uma coisa, um discurso muito forte na época... porque o grande problema do município ainda hoje é a questão da falta de recurso para se trabalhar.
Concluem dizendo que o PSF veio junto com a municipalização da saúde e deu ao município a oportunidade de organizar e ter seu próprio serviço.
Outro aspecto que merece destaque nas falas dos presentes é a questão da finalidade do PSF. Para eles, a prevenção, promoção e a participação social devem ser pontos centrais da agenda de trabalho das equipes do PSF, uma vez que essas ações ampliam a possibilidade da própria comunidade ficar atenta para o significado de sua saúde, da forma que ela deve ser cuidada, com vistas à busca da autonomia desse cuidado.
Os sujeitos coletivos têm um destaque especial nas falas, quanto tratam da finalidade e dos objetivos do PSF, isso é, os respondentes consideram que dentre os mesmos o mais importante é o relacionamento das equipes com as famílias e as comunidades, porque assim ambos se conhecem e podem ajudar-se mutuamente na tarefa de cuidar da saúde de cada um individualmente e da coletividade.
A cidade de Neópolis encontra-se hoje com seis equipes, 48 Agentes Comunitários de Saúde; desses, 27 trabalham na zona urbana e 21 na zona rural. Contam ainda com três equipes de saúde bucal, cuidando de 90,3% da população (Estimativa IBGE 2006), nas sete unidades básicas de saúde da família (Unidade de Saúde Centro I, Unidades de Saúde Centro II, USF
Povoado Betume, USF Povoado Flor do Brejo, USF Povoado Mussuipe, USF Povoado Passagem e USF Povoado Pindoba).
Entre as ações de saúde que passaram a ser ofertadas a partir da implantação do PSF, de modo geral, as citadas são (a) atenção à saúde da mulher, (b) atenção à saúde da criança, (c) atenção à saúde do idoso e (d) controle dos agravos de hipertensão, diabetes, hanseníase.
No que se refere às visitas domiciliares, com ações que passaram a ser ofertadas a partir da implantação do PSF, eles têm um destaque:
[...] eu acho que é um ponto chave, as visitas domiciliares é um ponto muito
forte, o profissional ir à casa das famílias faz uma diferença muito grande e isso realmente é uma coisa típica do PSF.
Dentre as ações ofertadas pelas unidades básicas de saúde da família, consideradas as mais utilizadas, eles referem muitas vezes a consulta médica e de enfermagem. Vêem no ambulatório um espaço para educar os indivíduos portadores de diabetes, hipertensão e outros agravos que merecem controle. Mas discordam entre si sobre o conceito de consulta médica. Uns afirmam ser o melhor momento para o processo de educação em saúde; outros, um espaço de reforço da prática médica assistencialista. Nesse caso, a maioria afirma:
[...] a gente vive num país de terceiro mundo, onde as pessoas adoecem, a
maioria são pessoas doentes, doentes de toda a ordem. Então toda pessoa que está doente quer médico para atender ou enfermeiro, esse é a cultura deles... a gente não está num país de primeiro mundo onde as pessoas são sadias e a gente vai fazer palestras, e tratar de outros assuntos, aqui não, tem que atender o doente mesmo... por isso a consulta médica é a mais procurada e utilizada.
Quanto às mudanças provocadas pela presença das equipes do PSF na organização da atenção básica e na situação de saúde da população, citaram diferentes elementos. No caso da organização, os elementos mencionados foram a territorialização das famílias a serem trabalhadas por cada microáreas e a formação de grupos específicos para organizar as demandas. Apontam como frágeis as ações de planejamento e programação mensal das unidades locais com base nos dados do SIAB. Com muitas dificuldades as equipes se reúnem no final do mês e tentam organizar a unidade, mas não dispõem de tempo; as demandas do dia-a dia ocupam toda a agenda. Esse é um dos itens em que houve pouca mudança.
No caso da situação de saúde da população, houve diminuição da mortalidade infantil, aumento da vacinação, sobretudo das crianças, aumento no controle dos hipertensos, diminuindo com isso o número de acidentes vasculares cerebrais, de infartos agudos do
miocárdio; houve também mais controle das pessoas portadoras de diabetes, o que vem diminuindo a quantidade de amputações. Houve, sobretudo, aumento na prática do aleitamento materno o que diminui a incidência das doenças diarréicas e finalmente verifica- se redução na mortalidade materna.
Esses resultados são conseqüências da ampliação do acesso aos serviços básicos de saúde, mas ainda há muitas dificuldades no acesso aos serviços da média e da alta complexidade. Esses não entendem a importância de dar retaguarda aos encaminhamentos das equipes do PSF. Várias foram as tentativas de estruturar um sistema de referência e contra-referência para o sistema municipal de saúde. Tem-se uma proposta, mas na prática sua operacionalização é muito difícil, levando o relacionamento entre as equipes para o campo da informalidade, da amizade.
Essas fragilidades sistêmicas comprometem a efetividade do PSF, reclamação constante dos Agentes Comunitários de Saúde, declara a Secretária Municipal de Saúde, que ao mesmo tempo reconhece as mudanças citadas pelas equipes e acrescenta:
[...] espero que o PSF volte aos seus antigos objetivos. Não se perca nas
agonias da pressão da assistência, que os defeitos do modelo antigo não contaminem.
Somente assim, concordam todos que é possível seguir mudando rumo à ampliação efetiva do acesso a ações e serviços de saúde, diminuindo com isso as desigualdades em saúde ainda presentes nesse município.