Os termos relacionamentos e redes têm recebido recentemente grande atenção da academia e do meio empresarial. Atualmente, estrategistas têm se preocupado com joint
ventures, alianças e redes estratégicas (HAKANSSON & FORD, 2002) e também em definir,
classificar, explicar, prescrever e revelar os fundamentos desse fenômeno, como visto na subseção anterior.
Apesar da quantidade de estudos e da profusão de definições sobre as formas de coordenação inter-empresarial, sobre alianças estratégicas, redes em geral e estruturas híbridas, originárias de diversificadas disciplinas, a análise dos arranjos inter-firmas permanece um tanto opaca, carecendo de uma análise mais crítica (GRANDORI, 1997).
Entretanto, para traçar um breve histórico da literatura de redes até os dias atuais numa visão crítica, é necessário remontar aos anos 60, pós Segunda Guerra, e ao trabalho de Chandler, que com a adoção da estrutura multidivisional das grandes organizações, estabeleceu o paradigma da empresa como entidade autônoma.
A partir dos anos 80, a hegemonia das concepções de Chandler foi desafiada pela ênfase da estratégia na sobrevivência e competição e não mais no lucro e crescimento de longo prazo. Porter passa a ser o teórico mais influente e estabelece a era da estratégia competitiva. Nesse mesmo cenário dos anos 80, com a crescente concorrência internacional, resultado do advento da globalização, diversos autores passam a prescrever que as empresas deveriam estruturar vantagens competitivas sustentáveis.
Esses paradigmas se amalgamaram e consolidaram o paradigma da empresa como entidade autônoma em busca de vantagens competitivas sustentáveis e ajudaram a consolidar a hegemonia gerencial na literatura, universalizando os interesses estratégicos das grandes empresas como válidos para todas as demais organizações e suprimindo questões de poder e política entre as áreas funcionais da gerência e a área de estratégia (FARIA, 2007).
Trata-se, portanto, da visão/corrente econômica, maioria dominante, denominada “positivista”, que vê as redes como sistemas objetivos que geram vantagens competitivas para seus membros por meio da gerência estratégica planejada, uma vez que permite a redução de custos, aumento da flexibilidade e maior eficiência das operações. Essa pode ser considerada a dimensão mais visível da realidade, considerada pela literatura dominante (FARIA, 2005 e LORENZONI & BADEN-FÜLLER, 1995).
Uma outra corrente, denominada “interpretativista”, representa as redes como sistemas subjetivos, de fronteiras não muito bem definidas e complexas demais para serem gerenciadas conforme as prescrições da literatura positivista dominante. No entanto, essa visão guarda um
status marginal, sendo considerada uma dimensão menos superficial, havendo uma série de
aspectos menos visíveis que são desprezados pela maioria dos pesquisadores. (FARIA, 2005). Numa rede, a interdependência e evolução conjunta são importantes características e o aspecto puramente competitivo da estratégia torna-se menos importante. Dentro da perspectiva relacional da empresa, passa a ser difundida a ideia de que o escopo da estratégia está centrado na habilidade de construir e manter relacionamentos com outras organizações.
Nesse sentido, o cenário onde diversas organizações competem por lucros precisa ser suplementado e, às vezes, corrigido. De fato, sob várias formas, as empresas estão envolvidas em redes nas quais fatores econômicos e dimensões sociais são cruciais para sua sobrevivência. Com isso, nessas relações caracterizadas pela colaboração e dependência mútua, o escopo da estratégia muda da competição por lucros de forma autônoma, para a realização dessa mesma atividade de forma conjunta com clientes, fornecedores, distribuidores e parceiros (GADDE, HUEMER e HAKANSSON, 2003).
Dentro do cenário de globalização econômica e de mercados, relacionamentos inter- firmas e redes que se estendem além das fronteiras das empresas são fatores-chave para a internacionalização e exploração de mercados estrangeiros. Também no nível de nações é possível verificar a utilização do paradigma de redes. Por exemplo, a União Europeia é essencialmente organizada como uma rede que envolve prioritariamente a polarização e partilha de soberania em vez de sua transferência. Esse cenário acaba por ilustrar uma nova forma de estado, experimentado pelas instituições europeias, que caracteriza-se pela divisão da autoridade ao longo de uma rede (CASTELLS, 1998).
Em relação às definições e classificações, as redes não podem ser vistas simplesmente como uma aliança estratégica resultante de uma decisão estratégica da firma. O estabelecimento de relações inter-organizacionais deve ser entendido como a própria estratégia, havendo redes formadas como consequência de ações deliberadas e outras formadas de modo natural/emergente. (DYER & SINGH, 1998).
Muitos estudos têm tratado a organização em redes como um simples tipo de arranjo organizacional, concebido como uma estrutura genérica intermediária entre mercados e hierarquias ou caracterizado como um “terceiro” modo organizacional, com suas
peculiaridades que o distingue dos demais. Em geral, as redes são definidas dando relevância a aspectos legais e práticos, o que leva foco ao processo de formação de joint ventures,
franchising e consórcios, em vez de considerar fundamentos teóricos que possam conduzir a
análises críticas (GRANDORI, 1997).
Nessa linha, analisando o paradigma de redes numa visão interpretativista, é importante verificar que ele acaba por revelar novos limites da teoria de organizações empresariais controladas pelo mercado, etnocentricamente enraizada na experiência anglo- saxônica, à medida em que empresas em rede vêm prosperando em outros contextos institucionais/culturais, contradizendo a visão clássica de Chandler e de Williamson, por exemplo (CASTELLS, 2001).
O mercado, dentro desse contexto etnocêntrico, é caracterizado pelas relações econômicas impessoais, grande número de transações, unidades relativamente descentralizadas e auto-reguladas e pluralidade de objetivos (BOISOT & CHILD, 1996).
Dentre outros aspectos menos visíveis, mas relevantes que são desprezados pelos pesquisadores, há as questões que envolvem o poder político e econômico de empresas transnacionais perante governos e mercados e também a influência de políticas nacionais na performance de empresas e setores industriais. Isso significa dizer que são tratadas como invisíveis a dimensão política das estratégias de grandes empresas e a dimensão política das redes (BODDEWYN & BREWER, 1994 e FARIA, 2005).
É interessante verificar que, dentro desse cenário positivista, o paradigma organizacional baseado nos conceitos econômicos e custos de transação é silente sobre fenômenos e movimentos de não-mercado. Até mesmo a popular teoria baseada em recursos distingue competências e recursos das firmas como de natureza essencialmente econômica e organizacional, mas não política (BODDEWYN & BREWER, 1994).
Em especial os relacionamentos com atores políticos, tais como governo, entidades estatais e agências governamentais, também revelam-se como críticos para o desenvolvimento de atividades em mercados estrangeiros. Nesse sentido, o “conteúdo político” de uma rede de negócios pode tomar algumas formas: instituições políticas, atores políticos, atividades políticas das firmas e recursos políticos (WELCH & WILKINSON, 2004).
Recentes estudos têm demonstrado a importância dos modelos amplos de redes, interdependência e poder, da mesma forma como as forças econômicas para entender em que tipos de relações as empresas estão emersas. Nesse sentido, o entendimento das redes que
envolvem aspectos sociais pode ajudar a entender os contornos desse paradigma (DACIN et
al, 1999).
Considerando o âmbito da literatura sociológica, as perspectivas dominantes sobre forma organizacional são subsocializadas, ou seja, conceituam a eficiência econômica das organizações de forma dissociada de seu contexto social. Com isso, analisam essas novas formas apenas como uma resposta às contingências ambientais.
Exemplos disso são as abordagens centradas no mercado, ou as perspectivas que percebem o ambiente como fonte de incertezas e a organização como uma entidade delimitada, que busca fazer frente a esse contexto. O entendimento é de que as formas organizacionais sociais e econômicas possuem uma dependência e uma autonomia relativas aos quadros culturais e institucionais de cada país, estando imbricadas nesses quadros (BALDI, 2004).
As redes de relações sociais, cuja importância dentro das empresas é bem conhecida pela sociologia organizacional e industrial, indicam a existência de uma rede ainda mais densa de relações sociais, sobreposta às relações comerciais, que conectam entidades de mercado previamente independentes.
Pode-se inferir que, provavelmente, é essa rede de interações o principal elemento que explica o nível de eficiência, alto ou baixo, da nova forma organizacional. Dessa forma, a definição de eficiência econômica não ocorre num vácuo social, mas sim dependente de uma contextualização social. A existência de contextos sociais diferentes e a diversidade de quadros institucionais conduzirão a “modos de racionalidade” diferenciados (GRANOVETTER, 2007).
Segundo alguns autores, buscando as origens da disciplina, o problema da teoria de Chandler foi negligenciar completamente o papel atribuído à cooperação nos modelos econômicos. Nesse sentido, as teorias clássicas necessitam ser questionadas, pois negligenciaram o poder econômico de três fatores que ajudam a explicar o sucesso das redes: (i) as economias de escala por meio de redes; (ii) a confiança e a cooperação que coexistem com a competição e (iii) o estado de bem-estar social causado pelo aumento da eficiência de setores industriais regionais (BALESTRIN & ARBAGE, 2007).
Referem-se a questões não visíveis presentes em estruturas de redes mais elevadas que podem explicar a maior parte do desempenho competitivo das empresas e das redes. No entanto, as teorias impostas pelos “positivistas” suprimem estas peculiaridades e também o
caráter político das estratégias de grandes corporações e as respectivas interfaces entre governo e empresa. São as chamadas “supra-redes”, compostas por membros dos âmbitos público e privado, que transcendem fronteiras nacionais e desafiam as distinções que a disciplina atribui aos domínios econômico e político, transcendendo também o domínio mais superficial e visível da realidade (FARIA, 2005).