“As suposições ontológicas, epistemológicas e da natureza humana têm implicações diretas de ordem metodológica, vale dizer, encaminham o pesquisador na direção dessa ou daquela metodologia.” (VERGARA, 2004, p. 12)
A Administração, assim como a Sociologia, não possui métodos e técnicas de investigação exclusivos, pelo contrário, utiliza-se de técnicas e métodos de outras ciências. Em ciências já constituídas, como a Matemática ou a Biologia, existe uma prévia adequação entre o método e o respectivo objeto da pesquisa. No entanto, nas pesquisas em Administração, a situação é diferente, porque não necessariamente deve haver privilégio de um método para tratar objetos científicos, pois nas ciências sociais o objeto é, na maioria das vezes, ao mesmo tempo sujeito e objeto (MARTINS, 1997).
Diante desse quadro, no âmbito das ciências sociais a discussão das principais opções filosóficas subjacentes aos diferentes métodos de pesquisa em Administração é muito útil para a qualidade e sucesso das pesquisas a serem desenvolvidas. Em primeiro lugar, essa discussão filosófica pode ajudar a esclarecer as concepções de pesquisa, incluindo os métodos pelos quais os dados serão coletados e analisados. Também pode ajudar o pesquisador a reconhecer quais concepções irão ou não funcionar, indicando as limitações de determinadas abordagens e, por fim, mas não exaurindo a importância dessa discussão, pode facilitar a identificação de concepções que podem estar fora da experiência passada do pesquisador e a adaptação das concepções de pesquisa de acordo com as restrições das diversas estruturas de assunto ou de conhecimento (EASTERBY-SMITH et al, 1999).
Nessa seção será realizada uma breve discussão sobre as diversas correntes filosóficas, além da indicação daquela que está mais próxima da pesquisa realizada, visando auxiliar o leitor dessa dissertação na compreensão dos fundamentos do método de pesquisa escolhido pelo autor.
A estrutura formal de uma ciência compreende quatro níveis: epistemológico, teórico, técnico e metodológico. Cada um, com relativa autonomia no sistema científico, expressando-
se articuladamente no processo de produção do conhecimento. Em relação ao nível metodológico, são diversas e divergentes as classificações. No entanto, serão considerados basicamente três grandes métodos, baseados em três correntes filosóficas do pensamento contemporâneo (positivismo, fenomenologia e marxismo, respectivamente): (i) hipotético- dedutivo, (ii) fenomenológico e (iii) dialético (MARTINS, 1997 e VERGARA, 2006).
O método hipotético-dedutivo representa a herança da corrente epistemológica denominada positivismo, escola de pensamento de grande importância e influência no mundo ocidental, cuja ideia é que o mundo social existe externamente e que suas propriedades devem ser medidas por meio de métodos objetivos e não serem inferidos subjetivamente por meio de sensações, da reflexão ou da intuição. Dentro dessa corrente filosófica, o pesquisador deve ver o mundo como existindo, independentemente da apreciação que alguém faça dele e dos olhos do próprio observador, ou seja, há uma independência de interesses e valores. Deduz alguma coisa a partir da formulação de hipóteses, as quais são testadas, na busca por relações causais entre variáveis. A causalidade é o seu eixo de explicação científica, com ênfase na quantificação, daí a relevância dos procedimentos estatísticos (EASTERBY-SMITH et al, 1999; RICHARDSON, 1999 e VERGARA, 2006).
Em oposição às ideias derivadas do positivismo, a corrente fenomenológica afirma que algo só pode ser entendido a partir do ponto de vista das pessoas que o vivem e experimentam. A linha filosófica da fenomenologia utiliza a hermenêutica que, através da análise do contexto, busca a compreensão de significados, muitos deles ocultos. Esse paradigma adota as crenças de que o mundo é socialmente construído e subjetivo; o observador é parte daquilo que é observado e que a ciência é movida por interesses humanos. O pesquisador procura entender o que está acontecendo, desenvolve ideias a partir dos dados por indução, usa pequenas amostras investigadas em profundidade e lança mão de métodos múltiplos para estabelecer diferentes visões dos fenômenos (EASTERBY-SMITH et al, 1999 e VERGARA, 2006).
Da mesma forma como o paradigma fenomenológico, o dialético opõe-se à corrente filosófica do positivismo e vê as coisas em constante fluxo e transformação, tendo como foco o processo. Entende que a sociedade constrói o homem e, ao mesmo tempo, é por ele construída. Os fenômenos são estudados dentro de um contexto, com o pesquisador observando que tudo se relaciona mutuamente (VERGARA, 2006).
Paradigma positivista Paradigma fenomenológico
Crenças O mundo é externo e objetivo O mundo é construído socialmente e subjetivo O observador é independente O observador é parte daquilo que é observado A ciência é isenta de valores A ciência é movida por interesses humanos
O pesquisador deve: Focalizar os fatos Focalizar significados
Buscar causalidade e leis fundamentais Procurar entender o que está acontecendo
Reduzir os fenômenos aos elementos mais simples
Olhar para a totalidade de cada situação
Formular hipóteses e testá-las a seguir Desenvolver ideias a partir dos dados através de indução
Os métodos preferidos incluem:
Operacionalização de conceitos para que eles possam ser medidos
Uso de métodos múltiplos para estabelecer visões diferentes dos fenômenos
Tomar grandes amostras Pequenas amostras investigadas em profundidade ou ao longo do tempo
Quadro 2: Características básicas dos paradigmas positivista e fenomenológico Fonte: EASTERBY-SMITH et al, 1999, p. 27
Considerando as três correntes filosóficas apresentadas, a pesquisa desenvolvida e apresentada nessa obra identifica-se mais com o paradigma fenomenológico, tendo em vista que o estudo do fenômeno das redes e estratégias de não-mercado desenvolve-se com foco em contexto específico (relações luso-brasileiras) e visa à descoberta de detalhes específicos desse fenômeno dentro desse contexto, especialmente nas relações presentes na indústria petrolífera de Brasil e Portugal.
Adicionalmente, essa aproximação entre a corrente fenomenológica e a pesquisa desenvolvida pode ser considerada benéfica para a geração de conhecimento em estratégia, uma vez que pesquisas dessa natureza ainda são escassas no Brasil (MARTINS, 1997) e devido à predominância, na disciplina abordada nesse estudo (estratégia), de uma literatura dominante, com características etnocêntricas (natureza anglo-americana), positivista e quantitativa, que não considera aspectos relevantes de outras culturas, negócios, interesses e estruturas, ou seja de outros contextos. Esse conhecimento dominante despreza as questões de poder e política e, em consequência, interesses e práticas de estrategistas, sendo demandadas análises mais pluralistas, que critiquem a realidade apresentada pela literatura dominante e a validade de seus preceitos para outros contextos (BETTIS, 1991; BERTERO et al, 2003; WHITTINGTON, 2004; HAMBRICK, 2004; IBARRA-COLADO, 2006 e FARIA, 2008a).
Além da indicação da corrente filosófica à qual o estudo mais se identifica, é necessário alinhá-la às perspectivas qualitativas e quantitativas das pesquisas. Apesar de a
distinção entre os paradigmas filosóficos ser bastante clara, quando se trata de usar os métodos quantitativos ou qualitativos e definir as questões de concepção da pesquisa, essa distinção se desfaz, podendo haver uma mistura de métodos (EASTERBY-SMITH et al, 1999).
Em linhas gerais, num estudo quantitativo o pesquisador conduz seu trabalho a partir de um plano estabelecido a priori, com suas hipóteses claramente especificadas e variáveis operacionalmente definidas. Essa abordagem quantitativa tem sido empregada com a finalidade de isolar as causas e os efeitos, operacionalizando relações teóricas e medindo e quantificando os fenômenos, permitindo a generalização das descobertas. Estudos quantitativos são úteis para examinar relações entre inputs e outputs e provêm resultados detalhados e com aferição de seu grau de confiança, que podem ser utilizados pelos diversos
stakeholders de uma organização no processo decisório (GODOY, 1995a; MILLER et al,
1997 e DENZIN & LINCOLN, 2006).
Já a pesquisa qualitativa não procura enumerar e/ou medir os eventos estudados, nem emprega instrumental estatístico na análise dos dados coletados. Parte de questões ou focos de interesses amplos, que vão se definindo à medida que o estudo se desenvolve. Envolve a coleta de dados descritivos sobre pessoas, lugares e processos interativos pelo contato direto do pesquisador com o contexto investigado, procurando compreender os fenômenos de acordo com a perspectiva dos sujeitos desse contexto. Esses dados, fruto da descrição e explicação das interações existentes nos contextos organizacionais, sociais e institucionais ajudam a explicar e tornar visíveis os componentes fundamentais de uma organização aos seus
stakeholders. De modo geral, diferenciam-se dos quantitativos por não empregarem
instrumental estatístico como base do processo de análise de um problema (GODOY, 1995a; MILLER et al, 1997 e RICHARDSON, 1999).
Os métodos quantitativos têm sido largamente utilizados por pesquisadores que admitem que uma das principais funções da ciência social é descobrir leis e generalizações para explicar, predizer e controlar a realidade. Já a utilização de métodos qualitativos, mostra- se mais adequada para pesquisadores que admitem que as ciências sociais têm como principal objetivo compreender os acontecimentos diários, bem como os significados que as pessoas dão aos fenômenos (GIL, 2006).
A pesquisa qualitativa pode ser entendida como um campo interdisciplinar, transdisciplinar e, às vezes, contradisciplinar, que atravessa as humanidades, ciências sociais e as ciências físicas. Trata-se de um campo com foco multiparadigmático, inerentemente
político e influenciado por múltiplas posturas éticas e políticas. Envolve uma abordagem naturalista, interpretativa para o mundo, tendo em vista que os pesquisadores que a adotam estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender ou interpretar os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem (DENZIN & LINCOLN, 2006).
“Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no processo de mudança de determinado grupo e possibilitar em maior nível de profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos.” (RICHARDSON, 1999, p. 80)
Nos estudos em Administração o interesse por abordagens qualitativas começou a se delinear a partir dos anos 70 e, embora exista muita diversidade entre os trabalhos desenvolvidos sob esses preceitos, alguns aspectos essenciais identificam os estudos desse tipo. Dentre essas características essenciais, destacam-se: (i) ter o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental; (ii) ser descritiva, com os dados aparecendo sob a forma de transcrições e tipos variados de documentos; (iii) a preocupação essencial do pesquisador é o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida e (iv) os pesquisadores utilizam o enfoque indutivo na análise de seus dados (GODOY, 1995a).
Considerando que o estudo desenvolvido refere-se à investigação de objetos numa dada realidade institucional, justifica-se o alinhamento com a corrente filosófica da fenomenologia e a utilização dos preceitos da pesquisa qualitativa, pela coleta de dados descritivos, busca do entendimento do fenômeno como um todo, na sua complexidade, e interação com o contexto investigado.
Neste estudo, portanto, será dado foco a informações qualitativas. No entanto, dados quantitativos também serão utilizados, visando ilustrar conteúdos originariamente qualitativos. Por exemplo, partindo de informações qualitativas sobre economias emergentes e em transição, foi possível, com o uso de dados quantitativos, verificar a relevância das
relações Brasil-Portugal, permitindo definir o foco da pesquisa, utilizado para direcionar em qual contexto os estudos seriam aprofundados.
No que se refere ao tipo de pesquisa quanto a seus fins/propósitos, ressalta-se que as pesquisas sociais desenvolvem-se em diferentes níveis, podendo ser, principalmente, exploratórias, descritivas ou explicativas (GIL, 2006 e YIN, 2005). A investigação exploratória é realizada em área em que há pouco conhecimento acumulado e sistematizado e não comporta hipóteses. Visa ao aprimoramento de ideias e/ou descoberta de intuições. A pesquisa descritiva expõe características de determinada população ou fenômeno, sendo possível estabelecer correlações entre variáveis. Já as investigações explicativas visam tornar algo inteligível, esclarecer quais fatores contribuem para a ocorrência de determinado fenômeno (VERGARA, 2006).
Para pesquisas exploratórias, os métodos quantitativos, por serem muito estruturados, apresentam-se com pouco valor. Nesses casos, os problemas são definidos inicialmente de forma vaga, requerendo frequentes mudanças no processo de pesquisa. Por essa razão, os métodos devem ser usados de maneira flexível. Por sua vez, os métodos qualitativos são flexíveis e particulares em relação ao objeto de estudo, evoluindo ao longo da investigação. Graças a esta flexibilidade que se consegue maior aprofundamento e detalhamento dos dados (GIL, 2006).
Quanto aos seus fins, a pesquisa foi delineada de modo a ser exploratória, haja vista a necessidade de aprimoramento de ideias e novas investigações, além da realização de uma reflexão intuitiva acerca do fenômeno de redes e estratégias de não-mercado no contexto luso- brasileiro. Quanto aos seus meios, a pesquisa utilizará um estudo de caso como procedimento para a coleta de dados.
Resumindo, a pesquisa desenvolvida aproxima-se da corrente filosófica da fenomenologia, caracterizando-se por ser um estudo qualitativo e exploratório, com o uso de estudo de caso como procedimento para obtenção dos dados a serem analisados em conexão com a revisão de literatura, visando contribuir para a disciplina por meio de uma pesquisa com características pluralistas.