“O Harald Szeemann dizia: Ponho a mesa, faço os convites, as pessoas vêm, cozinhamos e jantamos” o trabalho do curador é basicamente esse!”103
Szeemann ao comparar a prática da curadoria à realização de um jantar, explica de um forma simples e ao mesmo tempo completa, os elementos essenciais do processo curatorial. São apresentados os dois elementos que são unicamente da responsabilidade do curador, realizar a exposição (pôr a mesa) e escrever o catálogo (fazer os convites). Enquanto que o elemento principal, no exemplo de Szeemann, cozinhar e jantar, só é realizado em conjunto com os convidados, ou seja, o reconhecimento de uma peça como obra de arte e a receção da exposição, apenas ocorre através do público. Definindo o papel do curador como o responsável pelos elementos criadores de sentido: a exposição e o catálogo.
A ideia de papel social, segundo Erving Goffman104, provém do léxico teatral, pois tem
o objetivo de traçar a performance das relações sociais, que se equiparam com os papéis desempenhados em palco. “A ‘performance’ may be defined as all activity of a given participant
on a given occasion which serves to influence in any way of the other participants.”105. Assim,
o papel social, apresenta-se como um influenciador e influenciado pelo contexto em que está inserido.
“does not derive from its possessor, but from the whole scene of his action, being generated by that arttribute of local events which renders them interpretable by witnesses. A correctly staged and performed scene leads the audience to impute a self to the performed character, but this imputation – this self – is a product of a scene that comes off, and is not a cause of it.”106
Deste modo, o papel social do curador forma-se não só na realização da exposição e do catálogo, mas também na compreensão e aceitação do público dos mesmos como funções do curador. Este aspeto é fortalecido ao ter em conta que a obra de arte, apenas se revela como tal, quando recebida pelo público. O sociólogo Talcott Parsons, ao abordar o papel social do artista, destaca também esta necessidade de manifestação pública da arte,
“his goal is to produce appropriate patterns for the expression of affect, to “stir up” his audience 103 (entrevistado anónimo - C9) em Especial, Ana Luísa (2012), Os Curadores em Exposição: Um Grupo
Profissional no Mundo da Arte Contemporânea, p.195.
104 “sociologist well-known for his analyses of human interaction, Erving Goffman relied less on formal scientific method than on observation to explain contemporary life” Library and Technology Services of Brandeis Univessity, disponível em http://people.brandeis.edu/~teuber/goffmanbio.html
105 Goffman, Erving (1956), The presentation of Self in Everyday Life. University of Edinburg, Social Science Research Center p.8.
106 Goffman, Erving em ELLIOT, Self Society and every day life. disponível em: https://www.polity.co.uk/ keyconcepts/samples/elliott-chapter.pdf. p.32.
or public.”107. O papel do curador estará sempre associado à arte que representa, que expõe
ao público e à forma de como este a recebe. Esta dependência do curador provoca uma variada atribuição de papéis, conforme o tipo de arte com que o curador está habituado a trabalhar, a sua cultura, a sua educação, entre outros. Todos estes fatores contribuem para mudanças em como o curador é compreendido, pois também contribuem para mudanças em como os artistas e o público pensa e age.
Szeemann apresenta um curador que se deve encarregar da concretização da exposição e do catálogo de modo a que o público crie significado e se realize uma boa receção das obras. O que não é evidenciado nesta metáfora, é que o curador ao “pôr a mesa” e ao “fazer os convites”, pode definir qual o tema do jantar e em que ambiente o vão fazer. Algo que Jeff Hoffmann, refere ao compará-lo com um diretor de uma peça de teatro. “the
exhibition as a play and the play as an exhibition. It is the idea of the curator having a role in the set-up of an exhibition that is similar to the one of a director in the set-up of a theater play.”108. Insinua, que tal como o diretor de uma peça de teatro coordena e orienta os artistas,
o curador dispõe as obras de arte na exposição. Esta perspetiva reconhece a possibilidade de uma marca mais pessoal do mediador, como exemplifica o seguinte excerto.
“Está tudo como estava antes e adivinha? (...) Parece diferente(...) Porquê? Porque o objecto ou o conjunto de objectos no espaço transforma-se de acordo a tua experiência no tempo. Penso que é uma das coisas que o curador faz. Desenvolve relações entre os objectos, os artistas e os públicos, para perceber como é que isso muda e evolui.”109
Andrew Renton110 introduz o elemento criativo e fortalece a marca pessoal à atividade
curatorial. O curador é visto como criador de novas relações, novas perspetivas, novos sentidos, apenas utilizando o contexto em que se insere. Também Chimamanda Adichie111
aborda a exploração de diferentes contextos e perspetivas, no seu discurso The Danger of
a Single Story. Neste, fala do perigo que constitui a receção de algo através de uma única
história. A importância de nos ser dado todas as faces, todas perspetivas possíveis de um objeto, de uma pessoa, ou neste caso, de uma obra de arte. De como só assim se realiza uma compreensão inteira da obra, “repeated perception being in a way of reducing the ‘originality’
107 Parsons, Talcott (1964), The Social System. Londres: A Free Press of Glencoe, Collier-Macmillan Limited. p.410.
108 Jens Hoffman em, O’Neill (2012), The Culture of Curating and the Curating of Culture(s). p.97.
109 Andrew Renton em Hiller, Susan e Sarah Martin (2002), The Producers: contemporary curators in conversation. vol2, Baltic, University of New Castel. pp. 11-12. em Especial (2012), Os Curadores em Exposição..., p.30. 110 Andrew Renton é diretor da Marlborough Contemporary Gallery em Londres e professor de curadoria em
Goldsmiths College, University of London. Ver: http://marlboroughcontemporary.com/about/history/
111 Discurso disponível em: http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story/ transcript
of the work”112, ou seja, apresentar uma obra sempre sobre a mesma perspetiva ao público
diminui a sua verdade e origem. O papel do curador encarrega-se desta reinterpretação da arte, da exploração de todas as suas histórias, permitindo uma análise consciente e uma compreensão mais correta, aberta e orientada. Sem retirar o espaço do indivíduo para a sua própria interpretação, apenas equipando-o de ferramentas.
O papel do curador consiste em criar sentido mediando as obras produzidas pelo artista nos olhos do público, em conjunto com uma instituição ou não. Atualmente esta criação de sentido, pode-se traduzir em três ações essenciais: seleção, edição e contextualização das obras a expor ao público113.
Conclui-se assim o primeiro capítulo com o destaque de Montebello sobre o poder e importância do papel curatorial, que se exprime através da exposição e consequentemente do catálogo.
“Curators choose the works of art that enter public collections, decide which are to go on view, and have enormous power over many people’s appreciation and understanding of art by the way in which they choose to present it in what sequence and in what context. We all know there are innumerable ways of displaying art and that each conveys something very different and affects people in very different ways.”114
112 Bourdieu, Pierre e Alain Darbel (1991), The Love of Art: European Art Museums and their Public. pág.72. 113 Especial, (2012), Os Curadores em Exposição..., pp. 26-28.