De um modo geral, das primeiras funções atribuídas à profissão curatorial foi a conceção de uma linha aglutinadora da obras expostas, de contextualização das mesmas. Muitas vezes interpretada como o “tema” ou “conceito” da exposição. Então será que o delinear deste conceito expositivo223 é realmente mérito exclusivo do curador? Ou o curador
responde também a pedidos de outros como refere Nordgreen, “I hadn’t come along with a
fresh idea, i had to work with what i was given.”224
Segundo a presente análise, seja uma responsabilidade partilhada ou apenas sua, o curador é responsável pelo conceito da exposição de 38% dos catálogos aqui observados.
220 Melo (1994), (O que é) Arte. p.72.
221 Gráfico 8. Distribuição das tipologias de curador por espaço., p.55.
222 A determinação da responsabilidade pelo conceito da exposição foi realizada através das fichas técnicas quando apresentam discriminado o conceito da exposição, e através dos textos presentes em catálogo, seja de ensaios em que o próprio curador assume a escolha do tema, ou mesmo textos de apresentação em que se atribui a autoria do tema da exposição ao espaço. ao artista ou ao curador.
223 Quadro 4.2 - Conteúdos da actividade curatorial em Especial (2012), Os Curadores em Exposição...,p.154. 224 Sune Nordgreen em Martin e Hiller(ed.) (2000), The Producers..., p.57.
Seguido pelo espaço, com 36,4% e só depois pelo artista com 22,5%, deixando 3,1% a outras entidades. O valor do espaço encontra-se bastante próximo do curador, mostrando como este ainda detém poder de orientação e escolha sobre o programa de exposições. De como pelo menos no panorama lisboeta, “o estatuto actual do curador”225 de “aura de poder”226
ainda não pode ser generalizado.
Por outro lado, os espaços de arte contemporânea são dirigidos também por curadores. Acabando por, apesar de não serem os curadores da exposição em causa, a responsabilidade do conceito ser à mesma entregue a estes profissionais.
ANO E ESPAÇO
Ao observar o gráfico 13, verificamos que existe uma propensão para que a responsabilidade do conceito da exposição seja cada vez mais do curador e do espaço, e não do artista. O artista em 2011 assume a responsabilidade do conceito em 31,3% dos catálogos, mas em 2012 esta responsabilidade diminui para 20,9% e o curador assume a maioria com 41,9% dos catálogos. Esta distribuição mantem-se em 2013.
Através da variável espaço, o curador adquire mais responsabilidade nas galerias, com 45,9%, bem como o artista com 29,7%. Por outro lado na instituição, o curador assume apenas 32,1% e o espaço 46,5%, revelando uma menor autonomia do curador em relação ao espaço. O museu apresenta quase um equilibrio entre o curador e o espaço com 42,1% e 40,4%, respetivamente.
225 Marchand (2006), Entre a Experiência Artística e a Prática Curatorial..., p.11.
226 Marchand (2006), Entre a Experiência Artística e a Prática Curatorial..., p.11.
Gráfico. 13. Distribuição por ano dos responsáveis pelo conceito da exposição.
Gráfico. 14. Distribuição por tipologia de catálogo dos responsáveis pelo conceito da exposição.
56,8% 29,6% 36,4% 38,3% 6,8% 32,1% 0,0% 20,0% 40,0% 60,0% COLETIVO MONOGRÁFICO CURADOR ESPAÇO ARTISTA
É notável a diferença exibida na variável do tipo de catálogo (gráfico 14). O catálogo coletivo mostra uma maioria absoluta da responsabilidade do curador com 56,8%, de seguida 36,4% para o espaço e apenas 6,8% para ao artista. Já no catálogo monográfico encontram- se todos bastante igualados, sendo mais frequentemente o espaço o responsável pelo tema com 38,3%, seguido do artista, com uma presença de 32,1% e só depois o curador com 29,6%. Deste modo é possível constatar uma maior veia autoral do curador nas exposições coletivas, da mesma forma que estas também tendem a ser mais temáticas. O que não significa a ausência deste reconhecimento autoral em catálogos de exposições monográficas. Como se verifica no comentário de Isabel Carlos:
“respondeu de um modo tão assertivo ao desafio de conceber uma exposição para uma das zonas mais difíceis e imperfeitas – se considerarmos a habitual procura de neutralidade arquitectónica do cubo branco que caracteriza os museus de arte contemporânea.”227
Ao falar de um assunto completamente diferente, a curadora revela como foi responsável pelo tema ao propor a concretização da exposição ao artista. Como também exemplifica o seguinte agradecimento à curadora Catarina Rosendo: “por isso, o CAM – Fundação Calouste Gulbenkian aderiu imediatamente à proposta da curadora e historiadora de arte Catarina Rosendo de apresentar aqui, a obra do artista – para ela o nosso primeiro agradecimento.”228 Torna percetível que foi uma proposta/projeto realizado pela curadora e
exibido mais tarde em conjunto com o museu. Em relação à tipologia curatorial, o curador independente assume o conceito de 52,4% dos catálogos e o residente de 39,6%. Tal poderá ser justificado com o fato do curador independente realizar os seus projetos sem associações iniciais a outras entidades.
Por outro lado, existem também vários catálogos em que o conceito é realizado pelo próprio artista, como verificamos no catálogo Nikias Skapinakis: “A responsabilidade do plano desta exposição cabe-me inteiramente.”229 E ao qual acrescenta: “A exposição no
Museu Colecção Berardo constitui, portanto, o mais vasto depoimento que realizei sobre o meu trabalho.”230. Não permite dúvidas de que o que foi realizado em exposição é de sua
responsabilidade. Aqui componente autoral do curador é evidentemente diminuída.
227 Isabel Carlos em Faustino, Didier Fiuza (concepção) (2011), Não Confiem nos Arquitectos. Lisboa: Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian. p.10.
228 Rosendo, Catarina e Carlos Nogueira (concepção) (2012), Carlos Nogueira: O lugar das coisas. Lisboa: Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian. p.7.
229 Nikias Skapinakis em Henriques da Silva, Raquel (2012), Nikias Skapinakis, Presente e Passado 2012-1950. Lisboa: Fundação de Arte Moderna e Contemporânea, Colecção Berardo. p.15.