“Elemento de incontornável importância, o tempo, é argumento e agente de claras alterações no itinerário criativo.”146
Com a alteração da perceção do tempo também se altera a sociedade e o seu itinerário criativo, como refere Emília Ferreira acima. Os costumes, hábitos e a forma de encarar a vida de uma sociedade são influenciados pelo modo de percecionar o tempo. Atualmente, no século XXI, verifica-se uma continuação do consumismo, iniciado no fim do século XX. Com esta grande variedade de escolha de produtos, provoca-se também um aumento de produtos descartáveis que respondam à rapidez desta rotação e à novidade compulsiva do mercado.147
Rotação esta que não exclui o mundo artístico e criativo. A arte influencia e é influenciada pela cultura que a rodeia.
Deste modo, e seguindo o seu tempo, a arte contemporânea tende a expor-se sobre plataformas efémeras com o propósito de suscitar uma maior atenção e dedicação por parte do público e dos espaços culturais. A performance148, é também uma resposta a
esta sociedade consumista e efémera. Assegura que o espaço expositivo expõe momentos únicos e consumíveis. Reivindicando o seu lugar na sociedade atual e o seu direito à atenção
145 Marchand, Bruno (2009), “Depois do Modernismo: A possibilidade de tudo.” in Arquivo L+Arte.
146 Ferreira, Emília (2000), Joseph Bofill: A condição do efémero. Almada: Camâra Municipal de Almada. p.11. 147 Deste consumismo e de como este influencia a arte é exemplo a obra de Duane Hanson, Supermarket Lady,
Figura 11.
148 Performance, “descritive term applied to ‘live’ presentations by artists. (...) was originally adopted in the early 1970 to emphasize the fact that the work was made by artists and to distinguish such events from theatre.” Turner, Jane(ed.) (1996), The Dictionary of Art. vol 24. England, Groove. p.403.
do público. A artista Marina Abramovic149, realizou inúmeras performances emblemáticas ao
longo da sua carreira, onde explora a interação entre os seres humanos e as suas limitações físicas e mentais, enfatizando a efemeridade e mutabilidade das obras.
A efemeridade na arte, surge também com o aproveitamento de qualquer tipo de material para a criação artística, do qual é exemplo o artista brasileiro Vik Muniz150 que realiza
obras de arte através de materiais encontrados em lixeiras. Muitas instalações têem como único objetivo provocar algum tipo de sentimento/ reação por parte do público, ostentando essa reação como a verdadeira obra de arte. Ora, essa resposta do público é também bastante efémera, tem a duração da receção da obra.
A questão da obra relâmpago, da obra efémera, surge quando se projeta a longo prazo na formação de uma história de arte, de um história expositiva e se verifica impossível angariar documentação. Assim se assoma o outro ponto para este paralelismo contemporâneo, a necessidade de documentar, preservar e conservar tudo o que possua vestígios de cultura. Função que se apresenta como uma das principais funções do museu, como afirma João Fernandes, “O museu é a instituição que conserva o efémero.”151. O museu,
as galerias, os agentes que nestes trabalham, e assim o curador, estão hoje responsáveis por reunir técnicas e métodos de preservação, contra a efemeridade que também provocam. Para tal, recorre-se à fotografia, ao vídeo e ao registo descritivo escrito da atividade artística. “Essa documentação vai passar a ser muitas vezes a obra de arte propriamente dita.”152 Ora,
pertencendo a comunicação da atividade artística à atividade curatorial, esta salvaguarda da arte efémera passa também pela preservação dos momentos de mediação ao público. Como se verifica então este paralelismo na atividade curatorial?
2.4.1 Como se pode manifestar na Exposição
“While the temporary exhibition have become the lifeblood of museums, permanent displays have become temporary, endlessly changing and evolving.”153
A efemeridade no mundo artístico contemporâneo já não se apresenta como uma
149 Marina Abramovic é uma artista de performance no contexto de self-expression, explora os sentidos do ser humano e coloca-se no centro destas experiências, trazendo a sua vida para a performance. Abramovic, Marina com Charles Atlas(1994), Marina Abramovic: Biography. Alemanha, Reihe Cantz. https://www. youtube.com/watch?v=OS0Tg0IjCp4
150 Vik Muniz, artista brasileiro que cria a maior parte da sua obra sobre materiais não convencionais, como comida, lixo, entre outros. Obra Incompleta de Vik Muniz(2004), Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional.
151 João Fernandes em Grande, Cristina (2010), Cadernos Documente-se: Reflexões sobre o social. p.33. 152 João Fernandes em Grande, Cristina (2010), Cadernos Documente-se: Reflexões sobre o social. p.14. 153 Schubert, Karsten (2000), The Curator’s Egg: The Evolution of the Museum Concept from the French
Figura. 11. Supermarket Lady de Duane Hanson, 1969-70 em http://englishclub.over-blog.fr/article-supermarket- lady-by-duane-hanson-124918585.html
novidade, mas tem vindo a crescer e traz consigo consequências significativas na forma de percecionar a arte. No caso da exposição, tornou-se maioritariamente temporária, estabelecendo um limite de tempo de interação entre o público e as obras. A exposição temporária permite uma maior rotação internacional de artistas e uma adesão crescente do público. A ideia de que só será possível aceder às obras dentro de um prazo específico, incentiva a visita do público e torna o museu num espaço de mostra únicas e irrepetíveis. Atrai os turistas que visitam a cidade e também os próprios residentes da mesma. Por sua vez, a exposição permanente tende a ser visitada uma ou duas vezes pelo indivíduo residente e permanece principalmente para o turismo. “O protagonismo das exposições temporárias na cultura contemporânea tem múltiplas razões, desde a premissa de “tornar acessível o raramente visto, alterar ou realçar a percepção do já conhecido e confrontar obras comparáveis” até objetivos como gerar receitas, reforçar cooperações ou, simplesmente, “promover as carreiras dos directores de museus e curadores.”154 Menciona como a atual preferência pelo
temporário, pode também criar e potencializar várias profissões artísticas, entre as quais, os curadores.
Com esta efemeridade aumenta a dificuldade num registo aprofundado das próprias mostras, como afirma João Fernandes, “Só muito recentemente nós consideramos na Direcção do Museu Serralves, como interessante termos fotografias das inaugurações e dos processos de montagens.”155. O papel curatorial, quando pensado apenas como a
concretização de exposições, revela-se como um papel bastante efémero sem continuidade. Onde se encontra então os frutos das investigações e pesquisas realizadas para exposição, quando esta acaba? Onde se transmite as interações e ligações criadas entre as diferentes obras após a exposição? O público e mesmo os próprios espaços expositivos podem recorrer ao catálogo.
2.4.2 Como se pode manifestar no Catálogo
“A natureza efémera inerente às exposições temporárias contribuirá certamente para a existência de uma ‘amnésia colectiva’ a respeito de grande parte da história expositiva.”156.
A efemeridade cria urgência na interação do indivíduo com as obras, mas provoca esta amnésia coletiva. Por sua vez, o catálogo contraria e completa este desejo simultâneo pelo efémero expositivo e a continuidade da sua memoria e história. “não é menos verdade 154 Barranha, Helena (2010), “No rasto do efêmero” in L+Arte nº72, p.14.
155 João Fernandes em Grande (2010), Cadernos Documente-se: Reflexões sobre o social. p.15. 156 Especial (2012), Os Curadores em Exposição. p.59.
que a originalidade e a profundidade de algumas propostas curatoriais deixam um rasto que supera, largamente, o tempo de duração dessas exposições. São muitas as publicações de referência no panorama da arte do século XX que correspondem, precisamente, a catálogos de exposições temporárias, que comprovam a qualidade do trabalho de investigação que lhes está subjacente e o seu contributo para o estudo e a divulgação das práticas artísticas contemporâneas.”157 Através do catálogo torna-se possível conhecer a qualidade da
investigação curatorial e a divulgação das práticas artísticas contemporâneas.
O catálogo pode não só registar os momentos expositivos temporários, mas também
“allow curators to demonstrate an intellectual position (...) provide a resource for documenting and interpreting art”158. É uma ferramenta de registo da exposição quando realizado durante
ou posteriormente à mesma. De outra forma pode ser interpretado ele mesmo como uma exposição, paralela à exposição plástica. Neste podem ser incluídas na integra as peças em exposição ou apenas algumas das obras expostas; os textos podem ser uma réplica dos textos explicativos em exposição ou ensaios bastante mais prolongados e virados para a investigação curatorial. De qualquer uma das formas, o catálogo torna possível a reconstituição uma história expositiva, e assim, de uma história de arte.