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Para melhor compreensão da importância dos processos comunicativos presentes nas comunidades pesquisadas, fez-se necessário revisar alguns conceitos. Entre eles, a visão de que os moradores dos aglomerados populares, que vivem precariamente, são os mesmos atores que devem abastecer as informações fundamentais para a elaboração de um projeto eficaz. Afinal, são eles que detêm o conhecimento sobre quais são suas necessidades e o que pode ser melhorado. O processo de interação pressupõe a troca de informações constantes, sendo que o primeiro passo para entrar na realidade de cada comunidade está baseado no relacionamento recíproco. Essa ação só será possível com o

conhecimento mútuo, dinâmico, quando os indivíduos irão construir a sociedade através de sua interação, transmitindo a essência de seu conhecimento.

A complexidade da relação existente entre os técnicos e os moradores das comunidades de baixa-renda de Porto Alegre deve ser encarada como uma experiência em contínua construção, com a devida manutenção desses valores no processo de transformação social, e, acima de tudo, respeitando as diferenças existentes. A reprodução autêntica da diversidade, descortinada através de sua apropriação em seu cotidiano, marcada pelos direitos da habitação e da comunicação, propicia uma relação que não está restrita apenas à necessidade de abrigo. Seu conceito é mais amplo, significa ter direito a um formato de vida adequado, com segurança, conforto, dignidade e saúde.

Canclini70 (2002, p. 41) afirma que “uma das novidades dos estudos urbanos e de comunicação é a tendência a entender a cidade em relação aos processos de comunicação e a vinculação desses à trama urbana”. Ou seja, a cidade deixa de ser compreendida apenas como cenário para a habitação e o trabalho, como mero espaço de “organização espacial, lugar de assentamento da indústria e dos serviços”.

Ao trabalhar com grupos de indivíduos carentes, é obrigação do arquiteto ou do urbanista propor projetos em conjunto com cada morador, detentor de um direito que garantirá a certeza de sua satisfação, promovendo, dentro de suas possibilidades, o bem-estar de uma família. Um grande número de variáveis concorre para a compreensão dos fenômenos que cercam a relação entre o comportamento humano e seu ambiente (construído ou natural) ou, em outras palavras, o morador e sua casa. Essas limitações, relacionadas ao papel do arquiteto na solução de problemas importantes, que envolvem dimensões comportamentais (individuais e coletivas), influenciam a tomada de decisões acerca dos aspectos relevantes à constituição dos espaços arquitetônicos e urbanísticos.

70 Néstor García Canclini (1939), antropólogo argentino (radicado no México) contemporâneo. Considerado um dos maiores investigadores em comunicação, cultura e sociologia da América Latina.

Pode-se dizer que esse conceito tem aprisionado a identidade do arquiteto numa redoma – e é um importante índice dessa espécie de sofisticada alienação o fato de sermos um caso único de profissão, mesmo entre as artes plásticas, em que o vanguardismo como movimento paradoxalmente continuado e episódico, forjador de tradições e revolucionador pela superação e confirmação do passado, tem sido usado como critério de construção da identidade profissional do arquiteto (BARRETO, 1999, p. 88).

A partir dessa visão, será possível admitir que esse processo, composto por uma gama de alternativas, somente terá sucesso se houver uma escolha de uma linguagem adequada para cada transmissão de mensagem. É necessário um pensamento que reúna os conhecimentos, respeitando suas diferenças e, acima de tudo, reconhecendo as individualidades.

Considerando a história de vida que originou a ocupação de cada família, é perceptível que sua trajetória inicial tenha sido forjada na irregularidade, na ausência de direitos e controle sobre a ocupação do solo. Mesmo à margem da sociedade, essas comunidades convivem e ocupam o mesmo território urbano. A construção de suas vidas, de suas identidades, sempre pertencerá a um todo maior do qual todos fazem parte. Sua história e seus valores culturais, ainda que fragmentados, apenas terão o reconhecimento quando for considerada sua ligação direta com o todo, ou seja, com a sociedade. É impossível para aquele que planeja a habitação social desconhecer a possibilidade de interagir com as comunidades na promoção de uma nova vida. Torna-se fundamental compreender que a linguagem pode e deve ser adaptada, sem padrões rígidos, para uma melhor compreensão.

A visão de que é necessária uma atenção especial na relação comunitária, onde muitas pessoas que hoje ocupam a marginalidade, já estiveram inseridas na cidade formal, e que de lá saíram pelas dificuldades sociais impostas, é fundamental. Deve-se ter a consciência de que a sociedade está presente em cada indivíduo enquanto um todo, através de sua linguagem, sua cultura, suas normas. Ou seja, cada um integra o mesmo contexto político-social e urbano. As distorções estão justamente refletidas nos contrastes brasileiros. São duas cidades convivendo em paralelo. De um lado, a cidade, onde é formal e a inclusão é lógica e de outro, a cidade da exclusão. A construção de forma participativa talvez seja a alternativa que melhor preserve a autonomia de cada comunidade envolvida, dentro de um plano que promova o desenvolvimento socioeconômico necessário à

sua manutenção. A produção do conhecimento deixa de ser concebida em apenas um sentido, uma vez que seus efeitos retornam realimentados diretamente nas causas. Por essa razão, ao entender a dinâmica do conhecimento, é possível afirmar que seu retorno retroage sobre os anteriores, agindo na criação de novas realidades.

O processo de conscientização, através da comunicação, é lento, mas, ao mesmo tempo, se promovido de forma eficaz, poderá produzir um efeito multiplicador, resultando na compreensão coletiva de forma perene e duradoura. Uma participação solidária que vise o aperfeiçoamento do processo de inclusão, onde justamente encontra-se a diversidade de pensamentos, que tem, na prática, a garantia do exercício de seus direitos. Aceitar a ideia de que, na representação de um segmento tão fragilizado socialmente, as desigualdades econômicas, culturais e étnicas podem ser superadas, o curso desse processo interativo, através da socialização de informações, revela uma capacidade de renovação dialógica, expressa nas relações do poder público com as associações de moradores e os movimentos organizados.