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2.1.7 Veterinærinstituttet
Freud se dedicou ao estudo das pulsões na medida em que estas são a marca que caracteriza o próprio do humano, separando-o dos demais animais, tal como já foi evidenciado na primeira parte deste capítulo. Mas além de elaborar o conceito de pulsão, o autor também nos forneceu as indicações acerca do caminho que estas percorrem em busca de sua satisfação, chegando a retornar ao seu ponto de partida. Posteriormente, Lacan retomou estas formulações ao discutir a montagem do circuito pulsional, chegando a propor o advento de um novo sujeito, o sujeito pulsional. Nos deteremos na constituição deste circuito para compreendermos melhor o que se passa com o autista.
FREUD (1915a), em seu texto “Os instintos e suas vicissitudes”, nos apresenta um detalhamento acerca da constituição da vida pulsional e de seus destinos. Inicia este trabalho apontando os quatro elementos que compõem a pulsão: o impulso, a fonte, o objeto e a meta ou finalidade.
Quanto ao impulso, sua primeira colocação se refere ao fato da pulsão, diferentemente dos demais estímulos que atuam na mente, surgir dentro do próprio organismo. Assim, atua como uma força que imprime não um impacto momentâneo, “mas sempre um impacto constante” (1915a, p. 124).
A fonte da pulsão, que se localiza no próprio organismo, só pode ser as zonas erógenas. Estas se encontram definidas no texto de !905, “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, como sendo qualquer região do revestimento cutâneo-mucoso suscetível de se tornar sede de uma excitação do tipo sexual. As zonas erógenas são fontes de diversas pulsões parciais e determinam com maior ou menor especificidade um certo tipo de meta sexual.
Já o objeto pode ser concebido como a coisa em relação a qual, ou através da qual, a pulsão pode atingir sua finalidade. FREUD (1915a, p.128) aponta que o objeto é o elemento mais variável da vida pulsional, não estando originalmente ligado à pulsão. Ele pode ser modificado quantas vezes for necessário no decorrer das vicissitudes que a pulsão sofre durante seu trajeto, localizando-se no mundo exterior, numa parte do próprio corpo ou atendendo a satisfação de diferentes pulsões parciais ao mesmo tempo.
Por fim, concluímos que a finalidade de uma pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser obtida eliminando-se o estado de excitação em sua fonte. LACAN (1964, p.170) conclui desta proposição que a satisfação da pulsão não é nada mais senão o retorno ao início do circuito, se utilizando de uma metáfora que atribui ao próprio Freud para elucidar o sentido do que apreendeu: uma boca que se beijaria a si mesma.
FREUD (1915a, p.128) ainda revela que, apesar da finalidade sempre ser a mesma, os caminhos a serem percorridos podem ser diferentes. Também enfatiza que as ditas pulsões “impedidas em sua finalidade”, parecem encontrar sempre alguma satisfação parcial.
Na busca por atingir sua finalidade, a pulsão irá percorrer um trajeto que compõe o que chamamos de circuito pulsional, que segundo FREUD (1915a) nos demonstra, será composto por três tempos. Apesar de neste texto se referir ao circuito pulsional partindo da pulsão escópica e do par de opostos sadismo-masoquismo, o que ele identifica sãos as condições gerais de todo remate pulsional, ou seja, as condições de satisfação da pulsão.
O primeiro tempo, que Freud classifica como ativo, é aquele no qual o bebê vai em busca de um objeto exterior que possa lhe prover de satisfação. No segundo tempo, reflexivo, a satisfação passa a ser auto-erótica, tomando uma parte do próprio corpo como objeto. Então entra em jogo o terceiro tempo, no qual o bebê faz de si mesmo objeto satisfação para um outro.
Debruçando-se sobre este terceiro tempo, que Freud classificou de passivo, Lacan propõe algumas pontuações que permitem uma nova forma de compreender este período. LACAN fala que “A atividade da pulsão se concentra nesse se fazer, e é reportando-o ao campo das outras pulsões que poderemos talvez ter alguma luz.” (1964, p.184).
A medida que o bebê procura fazer a si mesmo como objeto de satisfação de um outro, o que está em questão é o próprio se fazer, como pontua Lacan. Isto será inscrito para cada um dos objetos da pulsão, dentre os quais para o recém-nascido Freud destaca o seio e as fezes. A estes, Lacan acrescenta dois outros objetos de extrema importância: a voz e o olhar.
Neste terceiro tempo, temos então toda uma gama de possibilidades: o se fazer ver, se fazer ouvir, se fazer papar, se fazer chupar, se fazer cagar. LACAN ressalta que este movimento circular do impulso, que parte através da borda erógena para a ela retornar, deflagra o contorno do que ele chama de objeto a, e é por aí que o sujeito tem de atingir aquilo que é da dimensão do Outro (1964, p. 183).
Desta primeira articulação, LACAN extrai o sujeito pulsional, que só pode advir com o remate do circuito pulsional. Ele revela que:
“É preciso bem distinguir a volta em circuito de uma pulsão do que aparece – mas também por não aparecer – num terceiro tempo. Isto é, o aparecimento de ein neues Subjekt [um novo Sujeito] que é preciso entender assim – não que ali já houvesse um, a saber, o sujeito da pulsão, mas que é novo ver aparecer um sujeito. Esse sujeito, que é propriamente o outro, aparece no que a pulsão pode fechar seu curso circular. É somente com sua aparição no nível do outro que pode ser realizado o que é da função da pulsão.” (1964, p. 169).
O que Lacan propõe de novo com o advento de um sujeito pulsional se refere a este assujeitamento ao outro, que aqui desempenha tanto a função de Outro quanto a de outro semelhante, que é necessário para que se complete o circuito pulsional. É neste se fazer que o bebê pode fisgar o gozo do Outro.
É com o conceito de um sujeito pulsional que o autor parece articular a questão da pulsão ao sujeito do inconsciente. Um comentário de LAZNIK pode nos auxiliar na compreensão dessa articulação:
“Temos aí um desenvolvimento que concerne um tema específico da obra de Lacan, o sujeito enquanto sujeito do inconsciente. O dito sujeito vem alcançar a dimensão do Outro pelo intermediário do remate da pulsão. E sabemos, por outro lado, que o sujeito do inconsciente se constitui no campo do Outro. Lacan articula pois, pela primeira vez na sua obra, me parece, o sujeito do inconsciente com o sujeito proveniente do remate pulsional.” (2004, p. 61). Poderíamos então dizer que através de sua teoria das pulsões, Lacan propõe reduplicar a questão do surgimento do sujeito (do inconsciente, sujeito da subjetivação) ao campo do Outro, em seu laço com o significante, com o surgimento do sujeito num laço de assujeitamento ao Outro real, que aparece aí em sua dimensão ao mesmo tempo de pequeno outro e de Outro, desdobramento necessário para que possamos falar do seu desejo ou do seu gozo.” (2004, p.98).
Podemos agora voltar nossa atenção para o que se passa especificamente com o autista. Se retomarmos o que já foi apontado, podemos supor que para o autista não se inscreve o remate do circuito pulsional, uma vez que o Outro não lhe endereça nenhuma demanda para que possa chegar a se oferecer como objeto a fisgar o seu gozo.
Para a criança autista, não se opera o terceiro tempo do circuito pulsional e, como conseqüência, encontramos no seu corpo evidencias de que aquilo que deveria fazer borda se torna um ponto de pura abertura ou fechamento. Como já foi apontado, isso fica claro quando nos deparamos com crianças, por exemplo, de cujos lábios escorre saliva sem que
possa exercer qualquer controle, ou mesmo sem que se dê conta de que isto acontece consigo.
Em concordância com esta conclusão, LAZNIK afirma que:
“... nos primeiros encontros com crianças que apresentam uma síndrome autística primária, constatamos no planos clínico que este terceiro tempo do circuito pulsional está ausente. O movimento se fazendo somente de um vai-e- vem entre um ir em direção à comida, e um vir em direção a uma parte do próprio corpo ou em direção a um objeto tendo uma função de parte de corpo. Este vai-e-vem não constitui então nenhum remate que em seu percurso fisgaria o que quer que seja de um outro, grande ou pequeno. Como se justamente, o sistema de defesa consistisse em elidir todos os lugares psíquicos onde os traços mnêmicos das representações do Outro poderiam ser registrados.” (2004, p. 30).
Uma vez que discutimos o que se passa com a criança autista em seu processo de constituição, tendo em vista a relação com o Outro e o remate do circuito pulsional, partiremos agora para a apreciação das diferentes posições do analista lacanianos quanto a questão de onde localizar o autista na estrutura: ele é um sujeito constituído ou não?