• No results found

Del II Klimaplanen for 2021–2030

3.4 Transport – halvering av

3.4.2 Verkemiddel

Fonte: Lopes, António Teixeira (1968); Ao correr da pena. Memórias de uma vida…, p. 163.

Soares dos Reis tinha uma técnica, como ninguém; ia, por vezes, até ao prodígio, quando queria imitar bem a natureza; por isso mesmo, talvez, as suas figuras religiosas falham por completo. A sua Senhora da Vitória é admiravelmente modelada, mas não é cristã; toda ela vem da tradição grega, no arranjo da atitude e dos panejamentos. O seu Cristo morto, de S. Cristóvão de Mafamude, sendo um belo pedaço de escultura, jamais comoveu ninguém. Eu confesso que me sinto frio também quando vejo esse corpo belamente esculpido, é certo, mas onde não palpita mais que a carne do modelo que pousou. Naquele Cristo estou sempre a ver o carpinteiro ou o moço de recados que o mestre fez pousar. É gordo de mais para ser Santo.

Entre outros trabalhos desse género há uma virgem esculpida pelo glorioso artista do Desterrado. Quando concluída, Soares dos Reis mostrou-a à Comissão que lha havia encomendado; esses senhores começaram a gemer em volta do trabalho bem composto, excelentemente realizado, como verdade fiel da natureza, mas de natureza morta, acusando os traços bem característicos da mulher que lhe pousara para as linhas gerais e para a cabeça, principalmente, que lhe reproduziu fielmente, assim como reproduzia, fielmente também, todos os pormenores do manequim.

– Sim, está muito bem feita, diziam esses senhores, mas falta-lhe qualquer coisa… na cabeça, sobretudo…no tipo…

– No tipo?! Replicou o mestre. Mas que acham os senhores no estilo? – Não é divino.

50

– Ora essa! Mas eu não achei nunca um tipo divino. Se os senhores conhecem algum, tragam-mo que eu o copiarei…

Quem tinha razão?! A meu ver, nem uns nem outros.

______________________________________________________________________________ Doc. 44 – A Estátua de Soares Dos Reis.

Fonte: Lopes, António Teixeira (1968); Ao correr da pena. Memórias de uma vida…, p. 163.

Entre os trabalhos em projecto estava a estátua de Soares dos Reis que eu não podia executar imediatamente; mas era necessário ir pensando nela. O grande estatuário, infelizmente, não fora meu amigo; razão mais forte para que eu, admirando-o como mestre, prestasse essa homenagem à sua memória.

A comissão tinha à frente Artur de Macedo e isso equivale a dizer que tinha êxito seguro. Faziam parte meu pai, Camilo e Diogo Macedo, Fernandes Caldas, Afonseca Lapa, Torcato Pinheiro e eu.

Por uma linda manhã de Outono fez-se a cerimónia da colocação da primeira pedra, no local escolhido onde ainda hoje se ergue a estátua, no Largo do Torreão, alto da Rua Marquês Sá da Bandeira, a poucos metros da casa onde nasceu o autor do Desterrado.

Organizou-se um brilhantíssimo cortejo na praia, junto ao rio, seguindo depois, ruas acima, até ao largo onde se levantava um simples, mas bonito pavilhão, para tomarem lugar os convidados de mais elevada categoria.

Artur de Macedo e eu vínhamos à frente, trazendo pela mão os dois filhos do grande escultor, a esse tempo ainda crianças.

Foi uma homenagem singela mas, por isso mesmo, mais grandiosa, tendo a animá-la o mais sincero, o mais quente entusiasmo. Como em todas as cerimónias havia o elemento oficial inevitável, é certo, mas acima de tudo vibrava a alma do povo de Gaia, glorificando este conterrâneo tão grande quanto infeliz!... Foram incansáveis os membros dessa comissão. Angariou-se dinheiro por todas as terras do país, a fim de custear as despesas do pedestal e da fundição da estátua. Durante alguns anos foi uma grande luta, vencendo obstáculos e a comissão, como já disse, foi incansável. Os nossos irmãos de além mar, mandaram o seu valioso auxílio, como a família de Romariz e Sousa Melo, o simpático e prestimoso Melo, que tanto se interessa por tudo quanto se refere à sua querida Terra.

51 Doc. 45 – Monumento a Soares Dos Reis.

Fonte: Lopes, António Teixeira (1968); Ao correr da pena. Memórias de uma vida…, pp. 283-284.

Conclui a estátua, em barro, de Soares dos Reis, resolvendo expô-la no meu atelier antes de ser passada a gesso. Convidei a imprensa e as pessoas que mais se podiam interessar. Nos jornais do tempo há referências mais ou menos elogiosas. Transcrevo apenas o que dizia O Primeiro de Janeiro: «Estátua de Soares dos Reis – Visitámos ontem o atelier do nosso escultor Teixeira Lopes para vermos a maquette de Soares dos Reis para a estátua que, fundida em bronze, tem de ser erigida no largo de D. Pedro V, em Vila Nova de Gaia.

Vamos de fugida dar uma impressão passageira, reservando-nos, para maior notícia, quando tivermos de apreciar o bronze. Soares dos Reis, modelado em barro, tem a proporção de um terço mais que a estatura natural. Teixeira Lopes foi, neste seu trabalho, de uma grande felicidade e sentimento artístico, pois deu á figura sentada do grande escultor, toda a feição cismadora e evocativa do desterrado, feição, de resto, idiosincrássica em Soares dos Reis.

Muitas vezes o surpreendemos, na última fase da sua vida, naquela pose contemplativa, como alheada de si, numa como profunda nostalgia espiritual.

Para esta maquette foram dum poderoso auxiliar a máscara e o modelo da mão que o pai de Teixeira Lopes, quando da morte deste artista, moldou em barro, no próprio cadáver.

A estátua, que é o cumprimento de uma promessa feita por Teixeira Lopes à população de Gaia, honra sobre modo este primoroso estatuário e a Vila a quem é oferecida. Parabéns a ambos.»

De o Diário da Tarde (3 de Agosto): «Soares dos Reis.

Fomos hoje ver a maquette em barro da estátua que o ilustre escultor Teixeira Lopes realizou para o monumento que vai ser elevado ao glorioso autor do Desterrado.

A estátua é uma biografia do morto.

O saudosos escultor reviverá no bronze em que a figura vai ser fundida com a grandeza da sua vida nobre de trabalho. Teixeira Lopes foi felicíssimo na maneira como compôs a sua obra. O operário rude, de corpo exausto e derreado, que era Soares dos Reis, e que a sua bondade e o seu génio espiritualizavam tão extraordinariamente, aparece-nos na escultura de Teixeira Lopes, como o viam os que se aproximavam dele nas suas raras horas de descanso e meditação. A figura é a estilização do Desterrado, o que é já uma bela felicidade de ideação de Soares dos Reis; assentado ou antes caído,

52

para cima do seu banco de trabalho, sonha decerto numa dessas obras que tornaram o seu valor imortal.

A maneira como a figura posa, o vigor do arcabouço, que descobre, mas que assenta sòlidamente, e a fluidez das draperies que o vestem, consagrariam Teixeira Lopes, definitivamente, se este glorioso artista não o estivesse já por uma infinidade de trabalhos que lá fora, celebrando-o, o teriam também enriquecido. Ao ilustre escultor agradecemos a amabilidade do seu convite».

Não obstante estes elogios, a estátua de Soares dos Reis nunca me satisfez; a ideia não deixava de ser feliz – encarna o autor do Desterrado na sua obra mais característica, ele próprio desterrado da felicidade. A execução não me satisfez porém, ficando longe da concepção.

Um plano pode ser excelente, mas é indispensável desenvolvê-lo convenientemente.

_____________________________________________________________________________________