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6.4 Cold-start of LV loop

6.4.1 Verification of LV loop

A demonstração permitirá aos missionários e a quem é apaixonado pelos ensinamentos do Senhor a buscar o que há de verdadeiro e santo na cultura e nas religiões tradicionais do povo moçambicano94, como base para a inculturação do Evangelho.

Se for verdade que ninguém nasce fora de uma cultura ou de uma tradição religiosa é verdade, também, que ninguém nasce cristão. Para que a pessoa se torne cristã é necessário que receba, antes, o anuncio da Boa Nova (cf. Mt 28, 18-20; Mc 16,15-16) que faz nascer a

94 A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo em cada povo, pois, ela considera com sincera

atenção aqueles modos de agir e viver, aqueles preceitos e doutrinas que refletem lampejos daquela Verdade que ilumina a todos os homens (cf. Nostra Aetate, 2).

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fé (cf. Jo 20,31) no Deus que se encarnou e se fez companheiro de viagem de todos os peregrinos da terra rumo à pátria celeste. Não é necessário que o destinatário da Boa Nova renuncie a sua natureza para estar diante do Senhor, como insistiam os primeiros missionários ocidentais, em convencer o povo a renunciar a sua natureza e assumir valores e tradições ocidentais para se tornar cristão95.

A Congregação da Propaganda Fide condenou essas atitudes, em 1907, com a seguinte tese: “Que há mais absurdo que levar para China o que é próprio da França, Espanha, Itália ou de qualquer parte da Europa? Não leveis estas coisas, mas a fé, que não suprime nem prejudica os ritos e costumes de nenhum povo, a não ser que se trate de costumes e ritos insensatos”96.

Infelizmente, durante séculos os missionários insistiram na conversão obrigatória:

Na medida em que o cristianismo avançou com formas de violência simbólica que facilmente conduziu a uma pastoral sacramentalista e assistencial [...], em muitos casos, de submissão; e, em outros, até ao extremo para poder legitimar situações de injustiça e de pecado. […]. África é esta velha terra onde a humanidade é tratada com desprezo desde há muitos séculos97.

Mas, a verdade manda dizer que Deus permitiu que cada povo fosse ao seu encontro na condição que se encontra para sair transformado desse encontro com vista a transformar tantas situações de trevas na sua vida (cf. Mt 11, 28-30).

Como se depreende, Deus em seu infinito amor por todos os povos continua presente em cada cultura e em cada religião, imprimindo no coração do homem o seu mistério de amor, doação e entrega (cf. Verbum Domini, 7-8; 43; 116; 118-120). Esse mistério está profundamente enraizado no cotidiano da vida do povo moçambicano. O que os missionários são chamados a fazer hoje, em Moçambique, é oferecer às pessoas a oportunidade de encontrar-se com o Deus vivo e presente na própria vida, que O acolham e se deixem conduzir por Ele, para poderem viver melhor, de maneira mais acertada e sadia. Para que isso aconteça é necessário que os missionários se dispam de preconceitos e vão ao encontro do povo para conhecê-loe aceitá-lo, abraçando-o com sua humildade. Esse encontro servirá de ponte para o anuncio da Boa Nova que iluminará os lampejos daquela Verdade que nutre esse povo:

95 Essa imposição afastou o povo moçambicano do seu mundo cultural, religioso e familiar. O povo destituído

das suas tradições passou a assumir o espírito europeu, caminhando assim para a destruição gradativa dos seus valores profundos e de sua cultura.

96 MARTINEZ, F. L. Religiões Africanas Hoje, p. 52. 97 MARTINEZ, F. L. Religiões Africanas Hoje, p. 53.

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Explicar autenticamente a fé cristã. O africano é uma pessoa de profunda relação com o Divino e aqui, o missionário não deve pretender ensinar o africano a ter fé; o missionário deve ajudar o africano a centralizar a sua fé na pessoa de Jesus Cristo e no Evangelho. Claro que, para isso, o missionário deve ser, antes de mais, uma pessoa de fé devendo se permitir dar testemunho da pessoa de Cristo98.

O missionário que for ao encontro desse povo desarmado de todos os preconceitos chegará à mesma conclusão dos padres da Igreja (séculos: IV-VI), apesar da sua posição negativa em relação às religiões não cristãs, reconheceram certos indícios positivos: havendo nelas elementos teológicos e litúrgicos aptos a serem purificados e assumidos pelo cristianismo99. Hoje há maior razão para levar a bom termo essa discussão dado que:

A Igreja vive diariamente com os adeptos das religiões tradicionais africanas. Estas religiões, que fazem referência aos antepassados e uma forma de mediação entre o homem e a Imanência, são o húmus cultural e espiritual donde provém a maior parte dos cristãos convertidos e com o qual mantêm um contacto diário (Africae Munus, 92).

De fato, a religião cristã quando chegou em África encontrou um povo crente, portanto, o missionário não precisa ensinar o africano a ter fé, sua missão é explicar autenticamente a fé cristã ao povo para que encontre razões de abandonar alguns costumes e ritos insensatos das religiões tradicionais para aderir à fé cristã. Visto que muitos dos seus costumes e ritos impregnam a presença ativa do Espírito de Deus, pois todos eles procuram em última instância a verdade, que é Cristo (cf. Jo 14, 6).

Mas é lamentável que, hoje como ontem, existam alguns missionários que queiram destruir o que há de bom, honrável e belo nesses costumes e ritos para impor o que é próprio das suas terras de origem. Destarte, “Deus permitiu que em cada cultura emergissem partes da verdade. O cristianismo precisa descobrir sua capacidade de enxertar-se na árvore da vida de cada povo e de construir a sua unidade a partir da identidade dos diferentes povos e grupos sociais”100.

Essa capacidade de enxertar-se na árvore da vida de cada povo consiste no entrosamento da fé com a cultura, num diálogo de enriquecimento recíproco, razão pela qual a Igreja, na sua missão ad gentes, há - de receber das culturas tudo o que concorra para a

98 AUGUSTO, E. Os desafios da missão na África.

Disponível em: http://www.missiologia.org.br/cms/ckfinder/userfiles/files/Elvira2CMN.pdf. Acesso em: 11 de Agosto de 2014.

99 Cf. MARTINEZ, F. L. Religiões Africanas Hoje, p. 48.

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edificação da vida cristã, tratará também de propor o Evangelho como fator purificador de toda e qualquer cultura. Por isso, hoje como ontem, toda a evangelização que dispensa o diálogo de enriquecimento recíproco, fere a identidade de um povo:

O problema é real e isto preocupa-nos. Se for verdade que o Cristianismo não está ligado a nenhuma cultura, não é menos verdade que se deve encarnar em cada cultura. Não admira, pois, certa confusão entre Cristianismo e Ocidente, confusão a que boa parte de nossos missionários não conseguiram escapar ao evangelizar- nos. Por isso, insistiram demasiado em convencer-nos de que nada tínhamos de positivo, nada de bom, que todos os nossos costumes e usos tinham nascido no pecado, [...]. Quiseram, depois, destruí-los implacavelmente, num zelo ardente que terá sua recompensa no Reino dos céus, é certo. Todo o problema está em que os nossos missionários estiveram desarmados, quanto ao conhecimento da nossa mentalidade, [...]. Hoje em dia cremos que tal atitude não seria tão compreensível, menos ainda desculpável [...]101.

Foi por essa razão que desde 1498 até 1965 a Igreja Católica em Moçambique foi fortemente impregnada de valores ocidentais. Mas a verdade manda dizer que existe um Moçambique, uno e indiviso, que tem um povo com uma história; um povo que pensa, cria e tem valores, e que, a despeito da secularização difusa, ostenta um patrimônio cultural e religioso digno de respeito que, dentro e por meio da comunidade, concorre para a promoção do indivíduo e para a harmonia do universo.

Nessa ordem de idéia, João Paulo II ressalta que a dimensão primeira e fundamental da cultura de um povo é a sã convivência: “Na verdade, quando as culturas estão profundamente radicadas na natureza humana, contêm em si mesmas o testemunho da abertura, própria do homem, ao universal e à Transcendência” (Fides et Ratio, 70).

João Paulo II confessa que:

Os africanos têm um profundo sentido religioso, o sentido do sagrado, o sentido da existência de Deus Criador e de um mundo espiritual. A realidade do pecado, nas suas formas individuais e sociais é bem percebida pela consciência daqueles povos, como sentida também a necessidade de purificação e expiação (Ecclesia in África, 42).

Trata-se de um terreno fértil onde a espiritualidade de Jesus alimentada pela oração tão sublime que ficou plasmada no Pai-Nosso pode ser assumida como manancial inesgotável da vida e da esperança do povo moçambicano. Para o efeito, é preciso que o

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missionário vá ao encontro desse povo com uma visão profética, isto é, contemplar a pessoa com os olhos de Deus, porque Deus habita no mais íntimo de qualquer ser humano.

Segundo J. Mbiti, a tarefa primeira de toda a inculturação da fé cristã consiste em encontrar, nos recursos espirituais, metafísicos e morais de uma dada cultura, as razões profundas que subentendem a adesão das pessoas de hoje à pessoa viva de Jesus Cristo como Senhor e Salvador de toda a sua vida102.