3.3 Geometry
3.3.1 Porous-medium approximation
Desde o tempo de Noé, Deus tem prometido: “Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar” (Gn 8, 22). Mas porque é que hoje maior parte da população do mundo, sobretudo, dos países em via de desenvolvimento passa fome e diversas necessidades? A causa desse problema existencial é o homem. O homem é quem faz a desordem em todas as coisas. Para citar o exemplo, em todo lugar, os auto-suficientes (poderosos) estão explodindo: as multinacionais movidas pelo lucro exploram os recursos minerais e naturais de modo desordenado e egoísta, os fazendeiros, por sua vez, estão cortando e queimando florestas para fazer plantações numa terra que só permanece fértil por pouco tempo, antes de se tornar deserta. Enfim, o mau uso dos recursos naturais está arruinando a terra.
70 Cf. BOFF, L. Sustentabilidade: o que é – o que não é, p. 12-17. Leia também a obra do mesmo autor:
Virtudes para um outro mundo possível – Vol. III: comer e beber juntos e viver em paz. Petrópolis: Vozes,
2006.
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A fome está no mundo porque o homem governa as coisas a seu modo ignorante e egoísta. O cristão sabe disto, e reconhece sua dependência de Deus. Porque é Deus quem dá a capacidade para existir, a possibilidade de germinar e crescer todas as plantações, e a habilidade para colheita. Ainda que o homem possa trabalhar e, deve trabalhar “com as próprias mãos, realizando o que é bom, para que tenha o que partilhar com o que tiver necessidade” (Ef 4, 28), não deve, nunca, cessar de depender de Deus. Pois, o trabalho não apaga a realidade da dádiva de Deus:
E agora, vós os que dizeis: “Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, passaremos ali um ano, negociando e obtendo bons lucros”. E, no entanto, não sabeis nem mesmo o que será da vossa vida amanhã. Com efeito, não passais de vapor que se vê por alguns instantes e depois logo se desfaz. Em vez de dizer: “Se o Senhor quiser, estaremos vivos e faremos isto ou aquilo”, vós vos jactais de vossas fanfarronadas! Ora, toda jactância desse gênero é má. Assim, aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado (Tg 4, 13-17).
Torna-se evidente nessa citação de Tiago que a existência e a subsistência do homem dependem de Deus, diariamente. O povo de Israel, ao passar fome e humilhações no deserto, foi alimentado com o maná que não sabia de onde vinha. Com esse maná, Deus queria que o povo aprendesse que era dependente dele. Pois, o homem vive “de tudo o que procede da boca do Iahweh” (Dt 8, 2-3). O povo de Israel fracassou miseravelmente em aprender a lição. Sua descrença e falta de confiança em Deus fizeram com que fosse ignorante do propósito de Deus. Eis a pergunta que coloca: “E por que Iahweh nos traz a esta terra, para nos fazer perecer à espada, para entregar como presa as nossas mulheres e nossas crianças?” (Nm 14, 3). Se esse povo tivesse reconhecido e apreciado o cuidado diário de Deus, não teria deixado de entender a meta final de Deus.
A abundância de boas coisas faz o homem deixar de apreciar o cuidado diário de Deus. Mas, no princípio, o divino Criador não queria que o homem chegasse a esse ponto. Para evitar a maior e pior catástrofe da humanidade, convém ter sempre presente essa verdade: o homem pode ganhar o mundo e tudo o que nele existe, mas tudo isso pode ir embora amanhã ou a qualquer momento. Tudo passa e Deus permanece. Lembre-se da história de Jó.
Jó era um homem íntegro, reto e temente a Deus, mas conheceu a pobreza. Ele tinha gado, ovelhas, camelos, servos, filhos e filhas regozijando e tinha boa saúde. Em um dia tudo se foi (cf. Jó 16, 22). Visto que o homem depende de Deus, diariamente. Tanto é que depende de Deus, diariamente, para o pão. O homem devia voltar o seu rosto para Deus, apresentando-lhe preocupações que dizem respeito à causa de Deus, em primeiro lugar e em
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segundo lugar a sua própria causa. Assim é que deveria ser a oração. Todo o resto virá por acréscimo. Lembre-se que Deus supriu as necessidades de Elias a caminho do monte Horeb (cf. 1Rs 19, 4-8) e deu a Paulo passagem segura para Roma, apesar de uma tempestade, sua vida sendo ameaçada pelos soldados, por um naufrágio, e ao ser mordido por uma serpente (cf. At 27; 28). Tudo isso indica que Deus está interessado no bem-estar físico e espiritual de cada homem.
Com certeza o pedido do “pão de cada dia” está incluído no dom precioso e na dádiva perfeita que vêm do alto, como atesta São Tiago (cf. 1,17). Sim, é pelo pão de cada dia que o homem implora a Deus, porque é pela graça de Deus que vive e come em cada dia. Entendendo essa total e incondicional dependência de Deus, o homem ao alcançar o necessário para a sua subsistência (alimento e vestuário) jamais desejaria a riqueza (dinheiro) causa da ruína e perdição (cf. 1 Tm 6, 8-9). E, por conseguinte, não haveria nesse mundo quem come o seu próprio pão e o pão retirado da boca do outro irmão.
O pão que sacia a fome do faminto representa a alternativa necessária: o modo de
ser cuidado, pois o pão, em cada dia, representa o alimento indispensável para a saúde e
subsistência do homem. O pão coloca a pessoa saciada em disposição de amar e servir a quem entra em contacto com ela.
Segundo L. Boff é urgente nos dias de hoje resgatar a dimensão da partilha para com quem não tem nada de comer e beber; para despertar nele, embora encoberto por grossa camada de desespero, de revolta para com todos e para com Deus. É a partilha e o comer juntos que devolve a humanidade perdida a quem um dia sentiu-se descartado72. Em seu sentido humanitário reforça também o preceito ético mais universal, isto é, tratar humanamente cada ser humano, com ações contagiantes, tais como: compreensão, acolhida, cuidado e partilha.