É óbvio que, depois de venerar a generosidade de Deus (cf. Mt 6,11), o homem, rogue também a sua clemência (cf. Mt 6,12). De que serviria o pão, se aos olhos de Deus não fosse senão como um touro a engordar para ser sacrificado? O Senhor sabe que só Ele é sem pecado. É por isso que Ele ensinou a pedir: “Perdoa-nos as nossas dívidas”. Pedir perdão já é uma confissão, pois quem pede perdão, confessa ter pecado. Assim, a penitência se revela agradável a Deus, porque ele a prefere à morte do pecador (cf. Ez 18,21-23).
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O Senhor que se sabe não ter pecado, pela sua infinita bondade e misericórdia, concede perdão ao homem que roga pela sua clemência. Esse perdão é um apelo para que o homem faça o mesmo aos seus semelhantes (cf. Pr 19,11; Ef 4,32; Mt 6,14). É por essa razão que num outro lugar, o Senhor diz, empregando as mesmas palavras dessa oração: “Perdoai, e vos será perdoado” (Lc 6,37). E quando Pedro perguntou se devia perdoar sete vezes ao irmão, o Senhor respondeu: “Mais ainda, setenta e sete vezes” (Mt 18,21-22). Desse modo, o Senhor aperfeiçoava a Lei, visto que no livro do Gênesis se declara que Caim é vingado sete vezes e Lamec, setenta e sete vezes (cf. Gn 4,15.24). Esse legado revela que no Reino de Deus não há lugar para pessoas impiedosas como atesta a discussão que se segue.
2.6.1 Perdoa-nos as nossas dívidas
A partir dessa profunda convicção, de que Deus é Abbá, Pai querido, nasce a súplica do homem: “perdoa-nos as nossas dívidas”. Essa é a experiência do povo bíblico (cf. Ne 9,17; Sl 130,4) e dos discípulos de Jesus Cristo (cf. Lc 6,37; 15,1-32; Mc 11,25; Mt 5,7; 6,14-15). O perdão é uma necessidade fundamental da vida. É impossível ter uma vida saudável emocional, física e espiritual sem o exercício do perdão. Quem não perdoa não pode orar (cf. Mt 5,23). Quem não perdoa não pode trazer sua oferta ao altar (cf. Mt 5,24). Quem não perdoa não pode ser perdoado (cf. Mt 5,25). Quem não perdoa é entregue aos verdugos e flageladores da consciência. O perdão é até mesmo uma questão de bom senso. Quando o homem guarda mágoa de alguém, acaba se tornando prisioneiro dessa pessoa. A mágoa escraviza o homem e o mantém em cativeiro. Quando se nutre mágoa por alguém, esse alguém perturba continuamente. Quer esteja, por exemplo, a tomar uma refeição ou esteja de férias, essa pessoa que causou mágoa continua sempre presente. Perdoar é a única maneira de quebrar essas correntes e ficar livre.
O perdão deve ser ilimitado. Jesus ensinou a perdoar até setenta e sete vezes (cf. Mt 18,21-22). Essa cifra não é literal. Ela aponta setenta vezes o número sete, o número da perfeição. O perdão é ilimitado, pois é dessa forma que Deus perdoa a quem humildemente se arrepende dos seus pecados. Jesus deixou esse fato claro na sua parábola do devedor implacável (cf. Mt 18,23-35). Aquele servo que recebeu um perdão de dez mil talentos não perdoou seu conservo de uma pequena dívida de cem denários. Dez mil talentos são seiscentas mil vezes mais que cem denários. Aquele que havia recebido um perdão
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seiscentas mil vezes maior negou-se a perdoar alguém que lhe devia uma dívida seiscentas mil vezes menor. Então, o senhor encolerizado, chamou o servo mau e lhe entregou aos verdugos até que ele “pagasse” a dívida impagável. A dívida que cada homem tem para com Deus é impagável. Por isso, o perdão de Deus é ilimitado. E Jesus foi claro ao afirmar que se não perdoardes aos vossos irmãos, não sereis perdoados: “Eis como meu Pai celeste agirá convosco, se cada um de vós não perdoar, de coração, ao seu irmão” (Mt 18,35).
Segundo L. Boff o perdão é o caminho da cura das feridas das mágoas causadas pelas diversas vicissitudes da vida, entre as quais se destacam a pobreza e a miséria, por um lado e por outro a riqueza e o luxo. O perdão é a ponte de reconciliação das relações quebradas. O perdão é o remédio divino para os relacionamentos enfermos. O perdão é a renúncia do ódio e da vingança. O perdão é o sepultamento de uma vez para sempre de todos os conflitos e divisões com vista a crescer e dispor-se a realizar um novo projeto de vida. Hoje, é tempo de perdoar. Hoje, é tempo de pedir perdão. Hoje, é tempo de restaurar relacionamentos dentro da família, da Igreja e da sociedade74 a fim de que a humanidade tenha uma vida plena e abundante. Para o efeito, ninguém deve negar dar ou receber o perdão porque é dom de Deus.
2.6.2 Como também nós perdoamos aos nossos devedores
O perdão de Deus aparece vinculado ao perdão que o homem concede ao seu irmão ou àquele que lhe ofende. Claro que Jesus advertiu que para receber o perdão de Deus é necessário que o pecador saiba perdoar a seus irmãos. Portanto, o perdão deve ser compreendido como algo bom tanto para quem dá e quanto para quem recebe (cf. Mt 7,12). Para L. Boff “não se trata, portanto, de um negócio e de um condicionamento prévio, mas, de mantermos a mesma atitude para com Deus e para com o próximo”75. Por isso, a vida deve ser vivida nesse ciclo vicioso: dar e receber perdão. L. Boff acrescenta: “Não tem o direito de pedir o perdão a Deus quem não quer dar o perdão a seus irmãos”76. O pedido de perdão a Deus e aos irmãos é sinal de maturidade, humildade e reconhecimento do erro cometido contra Deus e contra o próximo (cf. Lc 15,11-32). Mas, como é que o homem peca? Por meio de pensamentos, palavras, atos e omissões. Essas quatro vias levam o
74 Cf. BOFF, L. Cristianismo: o mínimo do mínimo, p. 120-122; confronte também a obra do mesmo autor: O
Pai-Nosso: oração da libertação integral, p. 107-114.
75 BOFF, L. O Pai-Nosso: oração da libertação integral, p. 115. 76 BOFF, L. O Pai-Nosso: oração da libertação integral, p. 115.
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homem ao pecado, gerando, por conseguinte, catástrofes incalculáveis na sua vida (cf.
Gaudium et Spes, 13).
De todas as catástrofes que assolam os homens de todos os tempos e lugares, talvez nenhuma seja responsável por mais destruição que as mágoas. As mágoas representam a ira não-resolvida. Quase sempre envolvem pessoas mais próximas e em seguida atingem pessoas inocentes e distantes. Enquanto os homens se indignam quando ouvem e vêm tragédias acontecendo a pessoas na família, na sociedade, no país e no Planeta-Terra (fome, desemprego, guerras, violência, corrupção, injustiças, etc.) as mágoas criam raízes. A pessoa magoada experimenta a ira contínua, fervendo um pouco abaixo da superfície da sua vida, causando uma ferida aberta que o tempo nunca cura. Talvez ela fique adormecida por um tempo, mas até que seja drenada do seu veneno fatal pelo poder curador da cruz de Cristo, mata a pessoa física e espiritualmente aos poucos. As mágoas corrompem as fontes da vida.
Perante essa situação de mágoa que provoca a ira, L. Boff entende que só com a misericórdia e a ternura de Deus se pode superar. Mas exige da pessoa magoada compreender o ser humano como um projeto infinito e imperfeito77. Para chegar nesse nível de compreensão é necessário seguir dois passos: 1) identificar a mágoa (cf. Ef 4,26-27.31) para dela se libertar, 2) ter presente que Deus chama para a vida de perdão. O mesmo tipo de perdão que Cristo ofereceu à humanidade pela Sua morte na cruz. Somente com Cristo, por Cristo e em Cristo, o homem pode ser capaz de transformar as mágoas em perdão.
2.6.3 Importância do perdão
O perdão concebido como amor incondicional e maior expressão da misericórdia de Deus é importante que seja concedido a quem pede. O mesmo perdão entendido como graça deve ser oferecido a quem não merece.
Se uma pessoa busca convivência, relacionamento e integração, o ato do perdão é indispensável. Do ponto de vista da maturidade espiritual, ao interagir, as pessoas precisam ser tolerantes e misericordiosas, a tal ponto de carregar o peso uns dos outros para cumprir a lei de Cristo (cf. Gl 6,2). Deus para congregar na unidade os seus filhos que se encontram no cativeiro do pecado, não cessa de acolher e conceder o seu perdão. O Papa Francisco
77 BOFF, L. Via - sacra: Para quem quer viver, p. 61-63; confronte também a obra do mesmo autor: Tempo de
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sintetiza: “Deus não se cansa de perdoar; nós é que cansamos de pedir perdão”78. Se Deus não se cansa de perdoar significa que não há limites para perdoar. E em nenhum lugar na Sagrada Escritura existe essa limitação.
Quando Pedro perguntou a Jesus se ele deveria perdoar até sete vezes, Ele respondeu: “Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes” (Mt 18,21-22). O perdão como uma graça não entra na contabilidade. Ele exige o arrependimento do pecador e a misericórdia de quem foi ofendido. Para o efeito, é necessário que o problema seja encarado com transparência e sinceridade: “confessai, pois, uns aos outros, vossos pecados e orai uns pelos outros, para que sejais curados” (Tg 5,16). Fazendo sua essa regra básica, a pessoa deixará de ser escravo da culpa, da depressão e da sensação de distanciamento de Deus. E ainda aprenderá a reconhecer suas fraquezas para controlar melhor as reações. Tudo na vida depende de compreensão, relacionamento e perdão mútuos. Não há possibilidade de se construir relações e convivências sadias se não houver nas pessoas a predisposição para perdoar.
Leonardo Boff ressalta que o perdão restabelece a comunhão vertical (Deus - Homem) e a comunhão horizontal (entre os Homens) gerando, assim o mundo reconciliado onde os Homens vivem sob o arco-íris da misericórdia divina79.
Seguindo o raciocínio de L. Boff, se pode concluir que o perdão é a possibilidade de restabelecer os laços e a convivência quebrados, pois, gera a flexibilidade necessária para a construção do novo projeto de vida em família ou em comunidade. Pelo seu impacto na história da salvação, o perdão merece ser cultivado e concedido a quem pede e mesmo para quem não merece.