Este núcleo trata das concepções que as mães e os alunos têm do direito à inclusão escolar, evidenciando o desejo dos estudantes de participar da escolarização regular como uma possibilidade ou como uma obrigatoriedade e de como as mães se posicionariam caso seus filhos manifestassem interesse de participar do processo de inclusão escolar.
Das doze responsáveis entrevistadas, nenhuma soube dizer em que consistia a inclusão escolar e também desconheciam tanto a possibilidade como a legalidade dos filhos participarem desse regime educacional. Quando interpeladas sobre a inclusão escolar, as que se manifestavam a confundiam com direitos assistencialistas:
Da. RAI - Direito ao passe livre, direito ao benefício. Da. M.L. - [...] aposentadoria, não to sabendo não. Da. AL - Não, não.
Da. FE- Não, me explica. Nada, nada. Da. M.H- Não, nunca ouvi.
Da. LU- Não. Da. DA- Não.
Da. RA- Agora você me apertou que eu não sei.
Assim como as mães /avó entrevistadas, todos os alunos, sem exceção, desconheciam o que viria a ser a inclusão escolar, fazendo apenas superficiais referências aos conceitos de inclusão ou deficiência:
E- Você já ouviu falar sobre inclusão escolar de pessoas com deficiência? F- Já.
E- O que é inclusão escolar? F- lá no plano.
E- O quê acontece lá no plano? F- Sei não!
Risos
E- Você conhece alguma coisa sobre o direito das pessoas que têm deficiência? F- Meneia positivamente.
E- Qual os direitos? F- Dinheiro, lote e casa.
E- já ouviu falar sobre inclusão escolar de pessoas com deficiência?] Já.
E- O que é isso?
A- Cadeira de roda, é...mão é , é coisada, é...cego e..deixa eu ver...esqueci também ..é...na, na, do tem cadeira de roda e tem gente que fica se batendo todo. Fica pulando, fica fazendo um monte de coisa.
E- Você já ouviu falar de inclusão de pessoas com deficiência? JE- Não.
E- Nunca? JE- Nuh,nuh...
E- Você sabe alguma coisa dos direitos das pessoas que têm deficiência... pessoa que às vezes não podem andar, têm problema que não enxerga, a forma de pensar mais devagar ...pessoa com deficiência intelectual...você já ouviu falar?
JE- Nuh,nuh, nuh. E- Nunca ouviu falar? JE- Não.
O desconhecimento por parte da maioria das mães e dos alunos pode ser justificado por estudos como os de Ferreira (2004), que denunciam que a inclusão acaba sendo reivindicada apenas por pessoas conscientizadas e com favoráveis condições econômicas. Em concordância, pesquisas difundidas por Tessaro (2005), sobre a inclusão de crianças com síndrome de Down, revelam que alunos com essa deficiência, provindos de classes econômicas mais abastadas, tendem a freqüentar escolas regulares, enquanto os mais pobres frequentam ambientes segregados. Entretanto, mesmo a mãe que conhecia em detalhe o problema do filho e a que possuía escolarização superior, também nada sabiam sobre esta
possibilidade. Uma dessas mães, inclusive, chegou a alegar que tal regime inexistia no Distrito Federal:
Da. MA- Não tem isso em prática. Em colégio nenhum de Brasília isso tá tendo em prática. [...] a única salas que eu já andei, em todos os colégio que eu já andei e que eu já vi, eles coloca uma sala só pra crianças especiais e ..só coloca uma sala pra crianças normais, pra outra criança, só se for uma criança deficiente de cadeirante, uma criança que tem dificuldade de aprender como o D., eles não coloca.
Ao alegar que crianças com dificuldade de aprendizagem não eram inseridas na educação regular, a fala da mãe é referendada por estudos como os de Mantoan e Batista (2007), segundo as quais alunos com D.I têm mais dificuldade de serem aceitos nas salas regulares do que alunos com outras deficiências, por não possuírem apoios externos como, por exemplo, Braille, que os auxiliem a acompanhar os conteúdos como os outros alunos.
O desconhecimento a respeito da inclusão era tão expressivo que quatro das mães entrevistadas, inclusive a única com nível superior e outra, que sabia em detalhes o diagnóstico do filho, acreditavam que a inclusão consistia na inserção dos filhos nas classes
especiais. Esta concepção foi percebida nos diferentes locais de investigação, com mães
provenientes de diferentes escolas e cidades do Distrito Federal:
Da. FI- Ele teve num regime de inclusão [...]. Ano passado mesmo, ele estava na na escola inclusa, só que uma inclusão que assim...uma sala especial, dentro do ensino regular [...]
E- A inclusão que a senhora entendeu é que ele ia para uma classe especial? Foi isso que falaram pra senhora?
Da. FI- Isso, que ele seria incluso na sala especial na escola regular. Mas, quer dizer, tudo é separado , né . Não existe aquela inclusão com alunos normais.
Da. MA- [...] da escola normal de salas de inclusão, são nove alunos pra uma professora.
E- Como assim..Inclusão pra você é o quê?
Da. MA- Inclusão é uma sala reduzida pra crianças especiais que estão já escrevendo, que já sabem o que , o que tá pegando no lápis entendeu, e que a professora basta explicar e que eles vão lá só e escreve.[...] é sala de crianças que tem especialidade: cadeirante, que tem dificuldade de aprender, que tem dificuldade de ler...
Da. O- [...] inclusão que eles falam é botar esses menino que tem esse problema separado, num ensino mais especifico, mas só eles, né, não misturado com os outros alunos que sabe ler que sabe escrever, que sabe fazer tudo. Eu entendo assim.
Ao contrário do regime de inclusão escolar, a organização descrita pelas mães, remonta ao regime de integração, muito difundido nos anos 70 e 80, que começou nos Estados Unidos e foi largamente adotado no Brasil. Este regime, apesar de uma proposta diferenciada, caracterizou-se pela expectativa da normalização, onde os alunos deveriam demonstrar capacidade de acompanhar o conteúdo, junto com os outros alunos tidos como normais, para serem introduzidos nas turmas regulares. A integração, segundo Mendes (2006), se mostrou tão segregadora quanto as escolas especiais, fato este percebido também por uma das participantes:
Da. FI - [...] aí eu acho que já, que já, já há uma, uma...pra mim isso não é inclusão, isso já e uma exclusão , porque são alunos tão, com as mesmas necessidades ou mais que ele né [...] Mas quer dizer, tudo é separado , né . Não existe aquela inclusão com alunos normais.
Essa prática contraria o regime de inclusão escolar, legalizado no Brasil, que consiste na freqüência dos alunos com D.I nas salas de aula regulares de ensino, com oferta de ensino especial no turno contrário e, nunca, como substituto da educação regular (BRASIL, 2004; BRASIL, 2008; BRASIL, 2007). Assim, todas as falas das entrevistadas sugerem que a legalidade do direito à inclusão escolar estava sendo ignorada por alunos e suas famílias, carecendo de ser mais bem divulgado.
Após a constatação do desconhecimento das mães e dos alunos, tivemos que explicar- lhes em que consistia a inclusão escolar, para que a investigação pudesse prosseguir. Este esclarecimento foi feito de forma diferenciada para os entrevistados.
Às mães/avó dos alunos esclarecemos que, no regime de inclusão escolar, os mesmos estudariam nas escolas e turmas regulares, com adolescentes tidos como normais, provavelmente já alfabetizados, e que a educação especial seria ofertada em turno contrário, acontecendo preferencialmente na mesma escola, regular, ou em outro estabelecimento de ensino especial, mais próximo da residência dos alunos (BRASIL, 2008; BRASIL, 2004). Ficaram cientes, ainda, do direito à adequação curricular, como consta nos parâmetros curriculares nacionais (BRASIL, 1999). Reconhecemos que a adequação curricular não é referendada pelo MEC, devido às orientações de pesquisadoras, como Batista e Mantoan (2007), as quais recomendam a diversificação de atividades em sala de aula. Porém, achamos por bem informar as mães sobre este direito, que pode servir para que os alunos sejam avaliados de acordo com suas possibilidades, sem ter que sofrer, necessariamente, com as sucessivas reprovações, devido à dificuldade de acompanhar todo o conteúdo escolar.
Antes de analisarmos as falas das mães, após tomarem conhecimento acerca do regime de inclusão escolar, apresentaremos as concepções dos alunos, afim de que possamos contrapô-las com a reação das entrevistadas, frente ao desejo dos filhos.
Com os alunos, furtamo-nos de dar maiores esclarecimentos sobre o direito de inclusão que os assistia, evitando constrangimentos entre os estudantes, seus familiares e a escola. Mas, apresentamos a inclusão escolar, como uma possibilidade ou como obrigação, alertando-os de que teriam que estudar com alunos da mesma idade que os mesmos, os quais já saberiam ler e escrever. Assim, ao invés de usar o termo “inclusão”, apresentamos aos alunos hipóteses possíveis de escolarização, no ensino regular.
Para oito alunos, ficou evidenciado que estudariam tanto nas escolas como nas salas de aula com alunos considerados normais, mesmo alertados sobre a possibilidade de sofrerem discriminação ou da dificuldade de acompanharem os conteúdos escolares. Destes alunos, seis se mostraram favoráveis, quatro de forma bastante expressiva:
E- Assim, você não sabe ler e escrever... e lá, os meninos todos já sabem...você não tem medo?
JE- ah? Tenho não.
E- E, se eles zombassem de você? JE- Eu falo que isso não é de Deus. E- Você tem medo de ir pra outra escola? F- Nuh, nuh. ( meneia negativamente)
E- Chegar lá, já pensou... Os meninos na sua escola todos do seu tamanho que já sabem ler...Você ia..
F- ( o aluno interrompe a fala da pesquisadora) Não tenho medo não !
E- [...] já falei, não ia ser igual ao Centro… ia ter menino lá que sabe ler e tudo, podia te xingar…Você ia querer?
F- Ia!
E- Tava nem aí? F- Nem aí.
E- E se os meninos te xingassem lá, que você..( aluno interrompe) F- Eu xingava! Também...
E- [...] se te falassem hoje pra você assim: a partir de hoje você não pode mais ficar na classe. Você vai pra uma sala de aula com meninos que não têm dificuldade de ler e escrever. Você vai ficar com eles lá. E você vai ter educação especial à tarde, mas vai frequentar aula com os outros alunos. Você ia gostar?
R- Ia.
E- Você queria isso? R- Meneia com a Cabeça. E- Queria? Tem certeza? R-Tenho.
E-Mas a aula é mais “puxada”... Não tem problema? R- Não.
E- Não tem não? R- Não.
E- É...e o que você ia sentir se te falassem que você ia sair da sala? R- Eu ia ficar feliz.
E- [...] se falassem , hoje ,pra você , que você ia ser obrigada a mudar de turma...vo...( aluna interrompe a fala e responde )
D- Eu queria!
E- Você queria? Você ia pra uma série com aluno da sua idade, que não fosse lá na classe, você ia gostar ?
D- Ah, ham. [...] Porque eu queria sair do C., pra estudá no, no , porque eu queria estudá lá no S.
E- Se você estudar em outra escola. FB- Gostaria.
E- É, mas você não tem medo de ir pra outra escola? E chegar lá, é...vamos pensar. Você vai chegar lá e estudar com menino da sua idade, os meninos já sabem ler, escrever, você não tem medo?
FB- Não.
E- Não! E se eles ficassem te “xingando” lá, falando “ah, você nem sabe ler”, o quê você ia fazer?
FB- Ah... “eu estudo aqui porque eu tô aqui, porque a minha mãe botou”.
E- Entendi, mas na outra escola, vamos pensar se você for pra outra escola... Você não tem medo?
FB- Não. E- “Tá nem aí”? FB- Não.
E- E se os menino te” xingarem”, o quê você vai fazer? FB- Tô nem aí.
[...]
E- Se falassem hoje pra você assim, vamos fazer de conta. Você sabe o que é de conta? Não é verdade, como se fosse verdade, tá.
FB- Tá.
E- Que você hoje seria obrigada a mudar de turma, que você ia pra uma série com meninos da sua idade. Você ia ser obrigada a mudar de turma, uma escola que não era o Centro de ensino. Você ia pra uma escola normal, tipo assim, você já viu os meninos saindo das escola aqui perto, das outras ali de baixo?...Os meninos já grandes! Aí eles iam botar você lá nessa escola, lá com esses meninos.
FB- Minha irmã é da escola normal... E- Ah.
FB- De outra escola, mas sem ser essa.
E- É?Então, se colocasse você em uma escola como essa. O quê você ia achar ? FB- Legal!
E- Obrigado, hein! Você ia? FB- Não precisa ser obrigado.
Chamamos a atenção para a última frase do fragmento acima, demonstrando o alto grau de entendimento da aluna em questão que, conscientemente e a despeito da possível deficiência, surpreendeu pelo nível de abstração em sua argumentação.
Outros dois alunos também se mostraram muito favoráveis à inclusão, expressando grande desejo de participar das escolas regulares. Entretanto, não podemos afirmar que o mesmo aconteceria na hipótese da sala de aula regular. Isto porque não fizemos o uso das palavras “mudar de sala, turma ou classe”, o que pode ter levado os mesmos ao entendimento
de que estariam tendo acesso ao regime de integração escolar, como explicitado na revisão teórica, páginas 59 e 60.
Apenas dois alunos manifestaram-se contrários à inclusão, sendo que um fez ressalvas ao ambiente da escola e o outro ao constrangimento de não saber ler e escrever. Entretanto, ambas as falas apresentaram contradições, visto que, no decorrer da entrevista, os mesmos também manifestaram desejo de participar, pelo menos, de escolas regulares:
E- [...] Deixa eu te perguntar... Você gostaria de estudar em outra escola? A- Nan! Quero aqui, prefiro aqui.
E- Tem certeza? A- Tenho.
E- Você não falou que queria ir pro V.?(referindo a outro colégio regular )
A- Não, o V. é...o V., só tem gente ruim, empurra ...e aqui não, todo, todo, tá olhando pra nós.
E- É..?
A- Eu gosto mais daqui do que lá E- .Ah, tá, mas você quer passar de ano?
A- Eu quero né, ir pra outro colégio, mas assim se for nesse negócio de ficar empurrando os outro eu não vou não.
E- Ah, é? É .Então assim, deixa eu entender...é...você quer ir pro V., mas desde que os colegas não fiquem te empurrando ?
A- É... Fique me xingando ...falando palavrão, me chamando de quatro olho, aí eu não gosto não . Aí se eles falar isso eu vou sair de lá.
E- Ah, se eles te xingarem você não vai ficar lá ? A- Isso.
Dos alunos que gostariam de frequentar as escolas regulares, quando interpelados sobre quais as unidades de ensino de sua preferência, citaram aquelas com estudantes da mesma faixa etária que eles. Em alguns casos, ainda confidenciaram ser as mesmas escolas de pessoas que nutriam laços afetivos entre elas:
E- É...qual escola você queria ir? JE- Centro 1.
E- Centro 1? Onde que fica lá? JE- Perto do fórum...
E- E os menino que estudam lá, são pequenos, grandes? JE- Tudo grande.
E- [...] você queria estudar em outra escola, sem ser aqui... Com outros alunos? W- Eu acho, acho que eu tô querendo.
E- Tá querendo?
W- Eu acho que eu to querendo mudar pro 19. E- Quem estuda lá no 19?
E- Você gostaria de estudar em outra escola? D- Eu queria!
E- Qual escola?
D- No S. [...] é porque a minha irmã estuda lá. E- É. E quantos anos sua irmã tem?
D- Ela tem onze.
Quando questionados se já haviam manifestado este desejo a outras pessoas, ou quais os maiores impedimentos para que pudessem participar das escolas regulares, os alunos alegaram ser a própria família ou profissionais da educação especial. Uma aluna, em especial, fez o relato de forma bastante emocionada, merecedora de destaque, como orienta Aguiar e Ozella (2006), visto que, neste tipo de análise, a “emotividade não pode ser desprezada”:
D- Porque eu queria estudar no S.. Meu sonho é estudar lá!
E- Seu sonho é estudar lá? Mas você já falou pra alguém que você quer ir pra lá? D- A aluna meneia negativamente.
E- Por quê?
D- Porque minha mãe não quer colocar eu lá (aluna fala querendo chorar) E- Eu sei, mas não fica triste, não chora não ...porque senão ...(risos sem graça) E- [...] mas quem não deixa você ir pro S.?
D- A minha mãe nem meu pai.
E- Você já falou dessa sua vontade de sair, lá do ensino especial? R- Falei pra minha mãe e pra minha vó.
E- Você já falou pra alguém que quer ir pra outra escola? JE- Pra D .( refere-se à vice- diretora da escola) E- [...] quê que ela falou?
JE- Falou assim...vai aprender mais. .
Após ouvirmos as concepções dos alunos, voltemos às responsáveis entrevistadas, para que possamos verificar como se posicionam face à inclusão escolar e também em relação ao desejo dos filhos de participar deste tipo de escolarização. Lembramos que os filhos e mães a que nos referimos não se referem, necessariamente, à relação parental real.
Cinco das entrevistadas afirmaram que o regime de inclusão não seria benéfico para os filhos, alegando a quantidade maior de alunos nas séries regulares, o despreparo docente, a discriminação dos demais alunos e as dificuldades de aprendizagem de seus filhos. As falas das mães corroboram os estudos de Silveira e Neves (2006), também sobre concepções, que evidenciaram os mesmos fatores que os citados pelas participantes:
Da. AL- É difícil , né, eu vi ele sofrendo quando ele tava no colégio normal, aquilo me doía bastante entendeu.
Da. RAI- […] mas vai ter algumas que vai criticar e ele vai se sentir humilhado, mais pequeno do que os outro. Então nesse ponto eu prefiro aqui.
Apesar de se posicionarem contrárias à inclusão dos filhos, o discurso de algumas dessas mães era marcado por contradições, assim com o de alguns alunos que se mostraram desfavoráveis, oscilando entre o medo da discriminação e a vontade de ver o filho participando de um regime escolar regular:
Da. RA- Eu não sei não, eu acho que os professores aqui do Centro sabem pra onde que o aluno vai...se eu colocar ele lá, só no ensino regular ele não vai ser aceito, ele num vai aprender nada. Então eu acho que é um complemento, né...aqui e ele estudando lá .
Segundo os estudos de Tessaro (2005), pais com crianças em idade mais avançadas ou que nunca tiveram os filhos inseridos em escolas com crianças tidas como normais, são menos receptivos à idéia de inclusão do que os que já passaram por tal experiência. Esta prerrogativa pode ser percebida na fala de uma das mães, cujo filho adolescente tem síndrome de Down, e que participara de um regime de integração e, por isso, não temia tanto a discriminação:
DA. FI- Não, porque ano passado ele foi, né... A gente foi vendo que ele se enturmou bem.
Das cinco mães contrárias à inclusão, três afirmaram que não permitiram que os filhos participassem do regime, mesmo mediante o pedido dos mesmos, o que de fato já ocorria:
Da. RAI- [...] Ele já falou pra mim que quer, eu falo assim : “se você ficar normal você vem, mas se não ficar se não vem não . Uma sala com 75 alunos, vê se tem condição! E ele quer ficar lá!
Da. DA- Aí, se ela tivesse condição de acompanhar eu aceitaria, senão ...aí não aceitaria.
Da. RA- [...]ele tem vontade sim...ele fala que tem vontade de sair, de estudar em outro colégio ...ele fica assim “mãe , minha coleguinha saiu, por que eu também não vou” : “Porque você não sabe ler direitin”
Como podemos perceber, nas falas acima, uma das mães condiciona a anuência do filho à escola regular à normalidade. Estes discursos corroboram estudos como os de Silveira e Neves (2006), de que a inclusão social e escolar de alunos com deficiência é determinada
pelos pais que, em alguns casos, baseiam as escolhas concernentes aos filhos em concepções oriundas de “visões medicalizadas e biológicas”, impedindo a participação dos mesmos em práticas que reforcem o desenvolvimento e a aprendizagem.
O desrespeito ao desejo dos alunos entrevistados, no que concerne a sua opção de escolarização regular, como evidenciado na fala das mães acima, contraria a declaração de Montreal (2004), promulgada exatamente pra que pessoas com D.I não fossem privadas de opinar e decidir sobre questões relacionadas às suas próprias vidas. Assim, atitudes como as denotadas acima, mesmo que bem intencionadas, impede que os estudantes diagnosticados com D.I gozem de seus direitos como toda e qualquer pessoa “normal”.
Por outro lado, após os esclarecimentos sobre o regime de inclusão escolar, como explicitado anteriormente, sete das entrevistadas se manifestaram favoráveis, alegando desejo de que os filhos participassem, apesar do medo da discriminação:
Da. FI- Nossa! Eu ia amar, eu ia adorar...eu queria muito que ele fosse incluso que ele fosse...entendeu...e no Centro ficasse no horário contrário, né, contrário da escola.
Da. M.L- Era bom, porque ela ia vê as menina escrevê direitinho , ia passá pra ela também.
Da. FE- Eu ia achar bom..porque ela tá ficando moça ela tá com vergonha de ficar na sala que ela tá, ela fala que já não quer mais estudar.
Da. M.H- Eu achava bom porque ele pelo menos aprenderia alguma coisa, a ler um pouco, assinar um nome.
Da. LU- Pra mim é melhor, pelo menos aprendia alguma coisa, assinar o nome dela.
Da. G- Eu ia gostar!
Da. LU- Eu ia fazer que ela ia. [...] porque lá muito ela tem vontade né, de aprendê