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Kapittel I Generell del

Trinn 3 Trafikal del

3.9 Vending og parkering

A comunicação humana é representada por Charaudeau (2006) como um teatro, uma vasta cena em que os seres humanos representam, por meio de seus atos de linguagem, espetáculos relacionais diversos. Nessa cenografia, os participantes lançam mão de máscaras a fim de projetar no discurso uma imagem pessoal positiva. O autor ressalta que, apesar de essa não ser uma exclusividade da cena política, destacam-se aqui as relações de poder, visto que os atores envolvidos têm papéis e textos previstos por essa dramaturgia, ou seja, as restrições estruturais da situação de comunicação política influenciam as estratégias discursivas que os atores podem utilizar.

Charaudeau explica que “as significações do discurso político são fabricadas e mesmo refabricadas, simultaneamente, pelo dispositivo da situação de comunicação e por seus atores” (2006, p. 53). O termo dispositivo pode ser

entendido como uma espécie de fiador do contrato de comunicação, pois cabe a ele

registrar de que maneira o campo de enunciação é organizado e regulado. Desse contrato, participam não pessoas “de carne e osso”, mas categorias abstratas (chamadas pelo autor de instâncias), definidas pela posição que elas ocupam no dispositivo e às quais os indivíduos são remetidos.

(...) em cada dispositivo, as instâncias se definem de acordo com seus atributos identitários, os quais, por sua vez, definem sua finalidade comunicacional. Em todo ato de comunicação, o conhecimento das pessoas é necessário, mas de forma alguma suficiente. É preciso acrescentar o conhecimento das instâncias, sem o qual a interpretação do falar das pessoas seria equivocada (2006, p. 55).

As instâncias envolvidas no discurso político são: a instância política (que

ocupa um lugar de governança) e a instância adversária (seu duplo antagonista); a instância cidadã (que ocupa um lugar de opinião) e a instância midiática (que ocupa

um lugar de mediação). Os atores da instância política têm o “poder de fazer” (decisão e ação) e o “poder de fazer pensar” (manipulação), já o discurso da instância cidadã dedica-se a interpelar o governo, ou seja, há entre elas uma relação recíproca de influência (o que não ocorre em regimes ditatoriais de governo).

Assim como a cidadã, a instância midiática encontra-se fora da governança. Ela é “o elo que se vale de diferentes modos de mediação – panfletos, cartazes de rua, cartas confidenciais e grandes veículos de informação – para unir a instância política à cidadã” (2006, p. 62). Apesar de os atores da instância midiática estarem previamente legitimados em seu papel de informantes, eles buscam conquistar a credibilidade tanto da instância cidadã quanto da política.

Charaudeau explica que, a despeito de se inscrever em uma lógica democrática (busca por credibilidade), a mídia também está inscrita em uma lógica de sedução, visto que procura captar o maior número possível de adeptos, dada sua situação de concorrência com outros órgãos de informação. Portanto, por estar inscrita em duas lógicas diferentes, a instância midiática encontra-se em um duplo dispositivo: de exibição e de espetáculo.

Enquanto os atores da instância midiática estão legitimados de antemão em sua função de informar, a legitimidade da instância política tem origem em três tipos

de imaginário social: a legitimidade por filiação, por formação e por mandato. A legitimidade por filiação pode ser de natureza sagrada (predestinação), de ordem social (classe, meio, casta) ou ainda de ordem biológica (herança genética). A legitimidade por formação funda-se no pressuposto de que uma boa formação (acadêmica, essencialmente) garantiria ao sujeito um poder de agir com maior discernimento. Finalmente, a legitimidade por mandato tem origem na tomada do poder pelo povo: ela está fundamentada na ideia de que é o povo que tem o direito de governar para o seu próprio bem.

Segundo Charaudeau, “as mídias compreendem bem que o mundo político tem necessidade de dramaturgia”, o que pode gerar, em muitos casos, “uma guerra de imagens para conquistar imaginários sociais” (2006, p. 85). Para ser bem- sucedido, o político precisa conseguir ser considerado “digno de crédito”, ou seja, é necessário que construa um ethos de credibilidade perante as instâncias cidadã e

midiática (a instância adversária, por outro lado, tem por função questionar tal credibilidade). Para tanto, pode construir para si o ethos de sério (conceito que varia

de acordo com os valores de cada sociedade), de virtude (imagem de homem exemplar) e de competência (imagem de possuidor de habilidades e saberes necessários).

O ethos de sério constitui-se a partir de diversos índices, tais como: corporais

e mímicos; comportamentais; de energia e capacidade de trabalho; verbais; entre outros. No entanto, uma imagem de pessoa séria pode ser percebida como negativa, como uma “marca de distância, que lhe daria a imagem – contraprodutiva para o político – de pessoa altiva, fria ou pretensiosa” (2006, p. 121).

O ethos de virtude é fundamental para o político, pois, por ser o representante

do povo, ele precisa ser uma figura exemplar. O político que quer parecer virtuoso deve demonstrar sinceridade, fidelidade e honestidade – conceitos que são construídos ao longo de muito tempo.

A imagem de político que tem “conhecimento profundo do domínio particular no qual exerce sua atividade, mas deve igualmente provar que tem os meios, o poder e a experiência necessários para realizar completamente seus objetivos, obtendo resultados positivos” (2006, p. 125) diz respeito ao ethos de competência,

que também faz parte dos ethé de credibilidade.

Há ainda os ethé de identificação, cujas imagens, diferentemente do que

um processo de identificação irracional, funda sua identidade na do político” (2006, p. 137). O autor esclarece que são diversas as imagens que se enquadram nessa categoria, porém, as mais recorrentes são: o ethos de potência, de caráter, de

inteligência, de humanidade, de chefe e de solidariedade.

O ethos de potência está relacionado à imagem de uma “força da natureza”,

que pode se exprimir mediante uma figura de virilidade sexual (políticos “Don Juan”, condenáveis em algumas culturas) ou de determinação (“um homem que não é só de palavras, mas também de ações”).

A força presente no ethos de caráter diferencia-se da anterior na medida em

que se refere a uma “força do espírito”, que pode ser representada por meio de algumas figuras, tais como: vituperação, força tranquila e moderação.

O ethos de inteligência também faz parte dos ethé de credibilidade – ele

“pode provocar a admiração e o respeito dos indivíduos por aquele que demonstra tê-lo e assim os fazer aderir a ele” (2006, p. 145). Charaudeau destaca que a inteligência é um conceito difícil de ser definido, mas deve ser entendido como um imaginário coletivo, variável de acordo com cada sociedade.

O ethos de humanidade é essencial para o político, pois o homem é avaliado

por sua capacidade de demonstrar sentimentos e, “para ser um homem público, não é preciso ser menos homem” (2006, p. 148). Conseguirá atrelar para si o ethos de

humanidade o político que demonstrar compaixão, compartilhar seus gostos e sua intimidade (auxiliado pela instância midiática) e ainda confessar publicamente seus erros (o que poderá ser interpretado de modo negativo, dependendo de valores culturais – tal fato pode ser visto, por exemplo, como uma marca de fraqueza).

Mais do que os anteriores, o ethos de chefe está direcionado para a instância

cidadã e se manifesta por meio de figuras como o guia, o soberano e o comandante. O guia supremo “é uma necessidade para a permanência de um grupo social” (2006, p. 154), sendo suas variantes o guia-pastor (agregador, que reúne seu rebanho) e o guia-profeta (fiador do passado e voltado para o futuro). A figura do chefe-soberano, apesar de ser diferente da figura do guia, pode ser confundida com ela em certos momentos históricos (o autor cita o exemplo de Napoleão Bonaparte). O chefe- soberano é aquele que encarna valores, não entra em conflito, mas pode parecer distante. O comandante é uma figura autoritária e agressiva – trata-se, aqui, da imagem do “senhor da guerra” (podemos citar o exemplo de George W. Bush).

O último dos ethé de identificação citados por Charaudeau é o de

solidariedade. Ele “faz do político um ser que não somente está atento às necessidades dos outros, mas que partilha e se torna responsável por elas” (2006, p. 163). O político que pretende ser visto como solidário deve procurar estar junto das pessoas e saber ouvi-las.

Em meio a tantas possibilidades, Charaudeau conclui que os ethé são

imagens versáteis, inseridas em um jogo de máscaras que são utilizadas nos momentos em que se mostram mais adequadas, e são substituídas por outras sempre que for considerado oportuno fazê-lo. Entre a instância política e a cidadã, encontra-se a instância midiática, que tem o poder de selecionar, do jogo, as cenas que serão veiculadas, escolhendo dar destaque aos ângulos e personagens que lhe pareçam mais convenientes. A seguir, discorremos sobre as especificidades desse jogo de máscaras nos debates políticos veiculados pela televisão.