Kapittel I Generell del
Trinn 3 Trafikal del
3.11 Kjøring på glatt føre, montering og bruk av kjetting
Em debates políticos, os candidatos preocupam-se não apenas com a construção e a manutenção de imagens positivas de si próprios, mas também (se não principalmente) preocupam-se em colocar em xeque a imagem positiva do adversário: é o que classificamos como “desconstrução do ethos”8.
Maingueneau destaca que, diferentemente do que ocorre em um texto escrito, nos debates é muito difícil para os participantes enunciarem por meio de suas próprias cenografias, pois eles precisam reagir no campo dos atos imprevisíveis. “Em situação de interação ‘ao vivo’, é a ameaça às faces (no sentido de Goffman) que passa para o primeiro plano” (2005, p. 77).
Goffman (1982) define face como “o valor social positivo que uma pessoa reivindica para si própria, por meio daquilo que os outros supõem ser a linha por ela adotada durante um contato específico” (p. 5, tradução nossa). Trata-se, portanto, de uma imagem de si construída a partir de atributos sociais aprovados.
O autor destaca que a face de um determinado sujeito e a face das outras pessoas são constructos9 de uma mesma ordem; são as regras do grupo e a
8
Terminologia proposta por nós, não encontrada na revisão da literatura.
9
definição da situação que determinam a quantidade de sentimento a ser distribuída entre as faces envolvidas. Porém, é preciso destacar que:
(...) enquanto a face social de um sujeito pode ser sua posse mais pessoal e o centro de sua segurança e prazer, ela é apenas emprestada a ele pela sociedade; ela será retirada, a não ser que ele se comporte de uma forma que o faça merecedor dessa face. Atributos aprovados e sua relação com a face fazem de cada homem seu próprio carcereiro; essa é uma prisão social fundamental, ainda que cada homem possa gostar de sua cela (GOFFMAN, 1982, p. 10, tradução nossa).
Brown e Levinson (1996) partem do pressuposto de que todos os membros adultos de uma sociedade estão cientes de que eles (e os outros) possuem uma face negativa e uma face positiva. A face negativa corresponde ao desejo de não ser controlado pelo outro, de não-imposição, à reserva do território pessoal. Já a face positiva refere-se à fachada social, ao desejo de ser amado, compreendido e admirado não por qualquer pessoa, mas por aqueles que são relevantes em determinada ocasião. Os autores exemplificam: “(...) eu posso querer que o meu estilo literário seja admirado por escritores, minhas rosas, por jardineiros, minhas roupas, pelos meus amigos, meu cabelo, pela pessoa que eu amo” (p. 63).
De acordo com Goffman (1982), durante um diálogo, cada participante tende a se comportar de modo a preservar tanto a sua própria face10 quanto a dos outros envolvidos, pois, assim como se espera que um membro de qualquer grupo tenha respeito por si próprio, espera-se também que este seja respeitoso com os outros. Isso significa que a linha de ação de cada participante normalmente é autorizada a ser mantida, e cada participante é autorizado a desempenhar com sucesso o papel que ele aparentemente escolheu para si.
Para Silva (1998), no entanto, “o simples contato com o outro já representa o rompimento de um equilíbrio preexistente entre as partes, ameaçando a auto- imagem pública construída pelos participantes da interação” (p. 112). Em debates políticos, torna-se inevitável a ocorrência desse tipo de ameaça, pois os enunciadores tendem a apresentar pontos positivos sobre si mesmos e pontos negativos sobre os outros.
10
Optamos por utilizar o termo “face”, no singular, no entanto, deve-se ter em mente que todo sujeito tem sempre duas faces – uma negativa e outra positiva, conforme exposto no parágrafo anterior.
Ainda assim, apesar de representarem posições políticas divergentes, os protagonistas costumam comportar-se de maneira educada e demonstrar que respeitam as regras do “jogo”. Consequentemente, ao discordar do discurso de seu adversário, o candidato será considerado um “jogador” íntegro, em “combate” com um oponente íntegro. Goffman salienta (1982, p. 11, tradução nossa):
De fato, as regras e etiqueta de qualquer jogo podem ser analisadas como um meio pelo qual se pode expressar a imagem de um jogador íntegro, assim como a imagem de um jogador íntegro pode ser analisada como um meio pelo qual as regras e etiquetas de um jogo são mantidas.
A preservação das faces é, segundo o autor, uma condição para qualquer interação, e não o seu objetivo (como exemplos de objetivos de interação, podemos citar: resolver problemas; realizar tarefas; menosprezar o outro etc.). Um sujeito pode desejar preservar a própria face devido a sua ligação emocional com a imagem construída, por questão de orgulho, honra etc. Por outro lado, ele pode desejar preservar a face do outro devido a sua ligação emocional com a imagem construída por este, ou para evitar ser tratado com hostilidade, caso ponha em xeque a imagem deste, ou ainda para parecer compassivo e solidário.
O ato de preservar faces tem, por conseguinte, duas dimensões: uma defensiva (em que o enunciador preserva sua própria face) e uma protetora (que preserva a face do outro). Há situações em que uma delas será preponderante, porém, em geral, espera-se que ambas ocorram simultaneamente. O autor classifica os atos ameaçadores de faces em três níveis de responsabilidade: os feitos de forma inocente (e interpretados como gafes); aqueles que demonstram terem sido feitos por malícia e maldade (com a intenção de insultar); e as ofensas incidentais (que soam como não-planejadas, apesar de, às vezes, serem previsíveis).
Brown e Levinson explicam que atos devem ser entendidos como o resultado
de comunicações verbais e não-verbais, sendo os atos ameaçadores de faces aqueles que vão de encontro aos desejos do enunciatário. Os autores distinguem os atos que ameaçam a face positiva dos que ameaçam a face negativa do enunciador e do enunciatário.
Exemplos de ameaças à face negativa do enunciatário são ordens, pedidos, avisos, sugestões, conselhos, advertências, desafios. Atos que ameaçam a face positiva do enunciatário são, por exemplo, as críticas, desaprovações, manifestações de desprezo, zombaria, queixas, repreensões, acusações, insultos, refutações, desafios, irreverências, interrupções, levantamento de assuntos polêmicos e tabus. É importante ressaltar que essa classificação não é estanque, visto que há atos que ameaçam simultaneamente as duas faces (como as queixas, ameaças etc.).
O próprio enunciador pode ser responsável por ameaçar suas faces, tanto negativa quanto positiva. A primeira situação acontece quando ele agradece ou pede desculpas, quando aceita um agradecimento ou um pedido de desculpas do enunciatário, ao aceitar algo que lhe é oferecido, ao prometer ou oferecer algo de maneira relutante. São exemplos de atos que ameaçam a face positiva do enunciador: pedidos de desculpas, aceitação de elogios, perda de controle do próprio corpo (tropeções, quedas etc.), contradições, autocríticas, confissões, admissões de culpa ou erro, incapacidade de controlar o riso ou o choro, entre outros.
Em resumo, em uma interação entre duas pessoas, há quatro tipos possíveis de atos ameaçadores de faces: face positiva e negativa do enunciatário; face positiva e negativa do enunciador. Brown e Levinson propõem um esquema para ilustrar as diferentes estratégias para ameaçar faces:
Segundo os autores, quanto maior for o perigo de se ameaçar uma face (sob a ótica do enunciador), maior é a tendência de que este escolha, no esquema acima, um número elevado. Isso quer dizer que, em caso de alto risco, tende-se a não ameaçar a face do enunciatário ou a fazê-lo de forma ambígua. A escolha menos
Figura 3. Atos ameaçadores de faces. Adaptada de Brown; Levinson, 1996, p. 69 Ameaçar a face
de forma explícita
4. de forma ambígua
1. sem correção posterior
com correção posterior
2. polidez positiva
3. polidez negativa 5. Não ameaçar a face
provável, nesse caso, seria o ato ameaçador explícito (e, menos ainda, sem uma correção posterior).
Cada uma das estratégias que visam a ameaçar faces tem vantagens e riscos específicos, acarretando em consequências diferentes. Uma ameaça à face feita de forma explícita tem como consequência positiva a possibilidade de o enunciador ganhar crédito por honestidade, por sinceridade, evitando-se o risco de haver mal- entendidos ou de ser interpretado como manipulador. Essa estratégia geralmente é escolhida pelo enunciador que pretende ameaçar uma determinada face com o máximo de eficiência.
Tendo sido feita a ameaça de forma explícita, o enunciador pode optar por corrigi-la/minimizá-la ou não (situação em que a face é ignorada ou considerada irrelevante). Brown e Levinson (1996) explanam:
Por correção nós entendemos ações que ‘dão face’ ao enunciatário, isto é, que visam a neutralizar o dano potencial causado pela ameaça à face, de tal maneira (ou com determinadas modificações e acréscimos) que fique claro que aquela ameaça à face não foi pretendida ou desejada, e que o enunciador reconhece os desejos da face do enunciatário e quer que eles sejam atingidos (pp. 69-70, tradução nossa).
A ação corretiva de uma ameaça feita explicitamente pode ser realizada de duas maneiras: por meio da polidez positiva ou da polidez negativa, dependendo de qual aspecto da face (positiva ou negativa) é enfatizado. Kerbrat-Orecchioni define a polidez como “uma violência feita à violência”, cuja finalidade é “reduzir ao máximo possível os antagonismos potenciais entre interactantes, desarticular, ao menos, parcialmente, os conflitos que ameaçam surgir a qualquer instante do desenvolvimento da interação” (2006, p. 101, grifo da autora).
A polidez positiva volta-se para a face positiva do enunciatário, a imagem positiva que ele requer para si. Nesse caso, o enunciador deixa claro que ele tem os mesmos desejos do enunciatário (por exemplo, tratando-o como membro de um grupo, um amigo, uma pessoa de personalidade admirável).
Por outro lado, a polidez negativa, voltada para os aspectos da face negativa do enunciador, tem como característica a demonstração de respeito pelo território pessoal do enunciatário, ou seja, de que não se pretende interferir em sua liberdade
de ação. Os autores destacam que, nas sociedades ocidentais, quando se pensa em polidez, é justamente a polidez negativa que vem à mente. A formalidade é um exemplo de estratégia de polidez negativa. Enquanto a polidez positiva aproxima enunciador e enunciatário, a polidez negativa garante o distanciamento entre eles.
Se a polidez negativa procura corrigir especificamente o fator que causou a ameaça à face, a polidez positiva, por sua vez, é feita de forma mais ampla, com a demonstração de simpatia e estima pelo enunciatário (e por seus desejos). “Talvez o único diferencial entre a ação corretiva feita por meio da polidez positiva e o comportamento linguístico corriqueiro de pessoas íntimas seja uma pitada de exagero” (BROWN; LEVINSON, 1996, p. 101, tradução nossa). Os autores explicam que o uso do exagero é coerente em ações corretivas, pois, mesmo que o enunciador não possa dizer com sinceridade ao enunciatário: “Eu desejo o que você deseja”, ele pode ao menos indicar de forma sincera: “Eu quero satisfazer sua face positiva”.
Como se pode notar na figura 3, a polidez positiva antecede a polidez negativa (indicadas com os números 2 e 3, respectivamente) na escala de “perigo” dos atos ameaçadores de faces. Isso se deve ao fato de que a polidez positiva depende da cooperação do enunciatário para que seja eficaz, enquanto a polidez negativa é menos invasiva, por demonstrar respeito ao desejo de liberdade do enunciatário. Os autores esclarecem: “(...) o enunciatário prefere sua paz e autonomia a manifestações de estima, a não ser que se esteja certo do contrário” (1996, p. 74, tradução nossa).
Os quadros a seguir ilustram as estratégias de polidez, sistematizadas por Brown e Levinson (1996), sendo quinze positivas e dez negativas:
Quadro 2. Estratégias de polidez positiva. Adaptado de Brown; Levinson, 1996, p. 102
POLIDEZ POSITIVA
Objetivo Estratégia Sigla
1. Perceba o outro. Mostre-se interessado pelos desejos e
necessidades do outro PP1
2. Exagere o interesse, a aprovação e a simpatia pelo outro PP2
3. Intensifique o interesse pelo outro PP3
4. Use marcas de identidade de grupo PP4
5. Procure acordo PP5
6. Evite desacordo PP6
7. Pressuponha, levante, declare pontos em comum PP7
Reivindicar “pontos em comum”11
8. Faça piadas PP8
9. Explicite ou pressuponha que conhece e se preocupa com os
desejos do outro PP9
10. Ofereça, prometa PP10
11. Seja otimista PP11
12. Inclua enunciador e enunciatário na atividade PP12
13. Dê (ou peça) explicações PP13
Transmitir a ideia de cooperação entre enunciador e enunciatário
14. Suponha ou reivindique reciprocidade PP14
Satisfazer os desejos do enunciatário
15. Presenteie o enunciatário (com bens materiais, simpatia,
compreensão, cooperação) PP15
11
Quadro 3. Estratégias de polidez negativa. Adaptado de Brown; Levinson, 1996, p. 131
POLIDEZ NEGATIVA
Objetivo Estratégia Sigla
Ser direto 1. Seja convencionalmente indireto PN1
Não presumir/supor 2. Questione, seja evasivo PN2
[1. Seja convencionalmente indireto] PN1
[2. Questione, seja evasivo] PN2
3. Seja pessimista PN3
4. Minimize a imposição PN4
Não coagir
5. Mostre respeito PN5
6. Peça desculpas PN6
7. Impessoalize o enunciador e o enunciatário: evite os pronomes "eu"
e "você" PN7
8. Declare os atos ameaçadores de face como uma regra geral PN8 Comunicar que não
se quer constranger o enunciatário 9. Utilize nominalizações PN9 [5. Mostre respeito] PN5 Compensar outros desejos do enunciatário, oriundos da face negativa
10. Deixe explícito que está assumindo uma dívida, ou não atribua uma
dívida ao enunciatário PN10
Kerbrat-Orecchioni (2006) afirma que o sistema elaborado por Brown e Levinson constitui atualmente, em matéria de polidez linguística, o quadro referencial mais sofisticado, produtivo e célebre. Segundo a autora, “hoje se admite que é impossível descrever de modo eficaz o que se passa nas trocas comunicativas sem considerar alguns princípios da polidez, na medida em que tais princípios exercem pressões muito fortes sobre a produção dos enunciados” (p. 76).
Fávero et. al. (2000) ressaltam que a polidez é um princípio regulador de conduta, que está situado entre a distância social e a intenção do enunciador e possibilita a manutenção do equilíbrio social entre os participantes.
As ameaças a faces feitas de forma ambígua são menos arriscadas do que as realizadas explicitamente, pois, como possibilitam diversas interpretações, o enunciador pode fugir da responsabilidade dos possíveis danos causados por uma determinada ameaça, além de ter a vantagem de ser visto como diplomático e não- impositivo. São quinze as estratégias elencadas pelos autores para que se atinja tal objetivo (1996, p. 214):
1. Dar dicas (motivos para se fazer algo / condições para algo); 2. dar pistas de associação;
3. pressupor; 4. minimizar a importância; 5. exagerar a importância; 6. utilizar tautologias; 7. utilizar contradições; 8. ser irônico; 9. utilizar metáforas;
10. fazer perguntas retóricas; 11. ser ambíguo;
12. ser pouco claro;
13. utilizar hipergeneralizações; 14. deslocar o enunciatário;
15. ser incompleto, utilizar elipses.
Dentre as estratégias listadas acima, destacamos duas, que, segundo Brown e Levinson (1996), estão associadas e interessam particularmente ao nosso estudo: a ironia e as perguntas retóricas.
O conceito de ironia evoluiu ao longo do tempo. De acordo com Muecke (1995), trata-se de um conceito vago, instável e multiforme, cujos primeiros registros estão na República, de Platão: “Aplicada a Sócrates por uma de suas vítimas,
parece ter significado algo como ‘uma forma lisonjeira, abjeta de tapear as pessoas’” (p. 31). Brait (2008, p. 115) aponta a definição clássica de ironia: “figura pela qual se quer fazer entender o contrário do que se diz”.
Kierkegaard (1991) destaca que faz parte da essência da ironia jamais desmascarar-se, de modo que “é essencial ao irônico jamais enunciar a idéia como tal, mas apenas sugeri-la fugazmente, e tomar com uma das mãos o que é dado com a outra, e possuir a idéia como propriedade pessoal, a relação naturalmente se
torna ainda mais excitante” (p. 51). A partir do exposto, depreendemos que a ironia tem como característica permanecer nas entrelinhas, levantar dúvidas, transitar entre a “realidade” e a “aparência”.
Para Lausberg (2004), há dois tipos distintos de ironia que se relacionam: a “ironia retórica” (ou de palavras) e a “ironia tática” (ou de pensamento). Brait (2008) explica:
Mais ou menos na mesma linha de outros retóricos, o autor caracteriza a “ironia retórica” como simulatio, illusio, permutatio ex contrario ducta,
definindo-a como a utilização, por parte de um locutor, de um vocabulário, de um discurso característico da parte contrária (aqui entendida como o alvo da ironia), com a certeza de que o receptor reconheça a não-credibilidade desse vocabulário, desse discurso proposital, enfática e estrategicamente instaurado. É esse caráter enfático que resulta em palavra irônica, ou seja, impregnada de um sentido oposto a seu sentido próprio. A “ironia tática”, por sua vez, caracteriza-se para o autor como uma espécie de continuidade da “ironia retórica”, na medida em que não tem uma existência independente e consiste na substituição do pensamento que se quer fazer entender [substituído] por um outro que lhe é contrário [substituto] (pp. 91-2, grifo da autora).
Maingueneau (2002) classifica a ironia como uma “subversão” da enunciação por parte do próprio enunciador. Isso significa que há uma dissociação entre aquilo que se fala (nível do enunciado) e o sentido que o texto ganha (nível da enunciação) e, portanto, deve ser analisada a partir de uma perspectiva enunciativa.
Para que o texto efetivamente receba o status de irônico, faz-se necessário que o enunciatário o considere como tal, o que pressupõe a existência de um saber partilhado entre enunciador e enunciatário. Brait descreve esse mecanismo: “o enunciador (A1) dirige-se a um ouvinte (A2), com o qual instaura a cumplicidade para a percepção da possibilidade de uma outra maneira de entender a mensagem” (2008, p. 105).
A autora cita Bange (1978) para destacar que a ironia se dá no momento em que pressuposições sobre o mundo são confrontadas e ambiguizadas numa interlocução, o que pode causar um efeito cômico para um observador que não seja o alvo da ironia:
Utilizando o conceito de pressuposição concebido por Ducrot, [Bange] define o modo de discurso irônico como uma forma de destruição indireta e implícita de um esquema de expectativa por meio de sua afirmação: “A ironia reside na reprise, sob a forma de pressuposto, de asserções e de pressuposições do interlocutor ou de um terceiro (caráter citacional da ironia), reprise dissimulada que equivale a uma rejeição implícita do modelo do mundo instituído pela citação” (BRAIT, 2008, p. 92).
Parece-nos coerente estabelecer uma proximidade entre a ironia e o humor e concordar com a constatação feita por Freud (1905, p. 113) de que ambos produzem “prazer cômico no ouvinte, provavelmente porque excita nele uma contraditória despesa de energia, reconhecida como desnecessária”.
Reconhecer, porém, a distinção entre o discurso humorístico e o discurso irônico fica a cargo do enunciatário: de acordo com Brait, o primeiro acontece porque o receptor faz uma opção por apenas um dos sentidos (escolhe o literal, quando se trata do figurado, ou vice-versa); por outro lado, para que o fenômeno irônico se realize, o receptor precisa perceber os dois sentidos ao mesmo tempo.
A partir das considerações feitas até aqui, fica claro que a ironia decorre de um não-dito que se oculta no que é dito no enunciado e, para que esse sentido oculto venha à tona e se concretize como significação, o enunciador depende da perspicácia do enunciatário. Brait destaca: “Esse convite à participação ativa coloca o receptor na condição de co-produtor da significação, o que implica necessariamente sua instauração como interlocutor” (2008, p. 126).
De acordo com Muecke, a “velha definição de ironia” (dizer algo e dar a entender o contrário) foi substituída: “a ironia é dizer alguma coisa de uma forma que ative não uma mas uma série infindável de interpretações subversivas” (1995, p. 48). Atualmente, a eironeia é considerada uma figura de retórica que tem como
característica censurar por meio de um elogio irônico ou elogiar mediante uma censura irônica.
Enquanto a concepção retórica de ironia é formulada em termos de frase, Brait propõe o conceito de ironia conjugado à intertextualidade, à interdiscursividade e a outras formas de reinstauração de discursos:
Considerando-se que as relações de um discurso com outros discursos podem se dar por meio de estratégias de repetição, a citação explícita, a alusão indireta, a possibilidade de diferentes traduções de um mesmo texto,
a citação sem tradução, a citação entre aspas sem referência precisa, a paráfrase e a pseudoparáfrase, a paródia, o trocadilho, o estereótipo, clichê, o provérbio, o pastiche e mesmo o plágio se oferecem como formas de exposição do já-dito, que podem ser consideradas como maneiras especiais de produzir sentido, como artefatos que permitem descrever a produção do efeito irônico como atividade de linguagem (2008, p. 141).
Os autores que abordam a temática da ironia apontam que há determinados textos e contextos em que ela ocorre com mais facilidade e com maior frequência. Muecke (1995) acredita que a política, ao lado da religião, do amor, da moralidade e da história, são as áreas mais propícias para o discurso irônico. O autor explica que isso se dá pelo fato de que essas áreas se caracterizam por elementos contraditórios, tais como fé e fato, carne e espírito, emoção e razão, eu e o outro, dever ser e ser, teoria e prática, liberdade e necessidade. “Explorar estes [elementos] ironicamente é adentrar uma área em que o leitor já está envolvido” (p. 76).
Conforme exposto anteriormente, Perelman aponta que, em confrontações