Esta descrição ganha maior importância quando, pouco depois, em 28 de janeiro de 1957, um trágico incêndio na sede da Filmoteca, ainda funcionando no mesmo local apesar do “divórcio” com o MAM, causa perdas irreparáveis. O desolado relatório anual procura dar conta das perdas:
Tentou-se fazer um levantamento do material perdido, mas a destruição de toda a correspondência impossibilitou um trabalho satisfatório.
Podemos entretanto anunciar aproximadamente as seguintes perdas:
44 José Inacio de Melo Souza, op. cit., 2002, p. 365.
45 Ata da assembléia geral de constituição da Cinemateca Brasileira como sociedade civil foi lavrada em
1/12/1956 segundo José Inacio de Melo Souza, op. cit., 2002, p. 366.
FILMES – Aproximadamente 1 terço do total do acervo assim distribuídos – cerca de 2 mil latas de filmes.
a) Oitenta por cento das cópias em 16mm para divulgação nos cineclubes e algumas cópias diversas como por exemplo: série de filmes enviados pela Cineteca di Milano; filmes alemães (Anjo azul, Last laugh, etc.); filmes de Griffith; filmes experimentais e da Avant Garde; etc.
b) Uma dezena de filmes sobre arte em 35mm.
c) Cinco filmes completos mudos alemães e fragmentos de Messterfilm e filmes de Lubith [sic por Lubitsch], todos encontrados no território brasileiro.
d) Outros filmes de enredo, documentários e primitivos, inclusive Paixão de Cristo, e filmes coloridos à mão, também encontrados no território brasileiro.
e) Grande quantidade de filmes brasileiros antigos, principalmente documentários, realizados desde 1910.47
José Inacio de Melo Souza dá outros detalhes do que se queimou:
parte dos filmes depositados pelos produtores cariocas Adhemar Gonzaga e Jaime de Andrade Pinheiro e os lotes dos pioneiros curitibanos Aníbal Requião e João Batista Groff produzidos entre 1910 e 1925. [...] Da biblioteca, naquele momento com 700 a mil volumes, sobraram alguns livros encharcados pelo rescaldo dos bombeiros. [...] Da discoteca, perdeu-se a coleção de vitafones. Da mapoteca foram para o céu em cinzas cerca de 200 cartazes brasileiros e estrangeiros. Todos os roteiros desapareceram [...] No arquivo fotográfico, das cinco mil fotos e quatro mil fotogramas sobraram ao menos quatro mil fotos chamuscadas [...] Toda a coleção de programas antigos de cinemas. Todas as 150 pranchas didáticas com a história do cinema doadas pela Unesco. A coleção de aparelhos e máquinas (estereoscopias, praxinoscópios, fenaquistiscópios, uma filmadora construída por Antonio Medeiros em 1914, etc.) foi perdida [...] 48
Para Paulo Emilio, segundo nos conta Carlos Roberto de Souza, o incêndio de 1957 na Cinemateca, e o desmantelamento do curso de Cinema da Universidade de Brasília, pela ditadura militar (em 1965), foram “as piores coisas que aconteceram na minha vida”49.
Se a necessidade de se criarem condições controladas para a guarda do acervo era uma idéia presente e incontestável, com o incêndio ela assume um contorno bem mais nítido e concreto. No Relatório de 1957 encontramos: “Após a trágica ocorrência, a Cinemateca dividiu seus esforços em dois setores: a obtenção de recursos financeiros através dos poderes públicos e de particulares e a preservação de seu acervo fílmico”.50 Durante muitos anos ainda a Cinemateca vai lutar por essas duas diretrizes.
O mesmo relatório relata a série de infortúnios que se seguem ao incêndio nesse ano decisivo. Os particulares que haviam cedido espaços para a guarda de filmes exigem a retirada imediata dos filmes. O MAM declara-se sem recursos para manter a Cinemateca e desfaz o convênio firmado na ocasião do “divórcio amigável” – conseqüentemente interrompem-se também as sessões cinematográficas no MAM. Com
47 Relatório de 1957. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 48 José Inacio de Melo Souza, op. cit., 2002, p. 367-368.
49 Idem, ibidem, p. 70.
a perda dos recursos, perde-se parte da mão-de-obra contratada. A Cinemateca passa a contar apenas com o trabalho voluntário (“trabalho desinteressado” diz o relatório) de Paulo Emilio como conservador, um arquivista (Sérgio Lima) e, ainda remunerados, os dois conservadores adjuntos – Rudá de Andrade e Caio Scheiby – sendo que um deles está “destacado para a organização dos arquivos de filme de uma televisão de São Paulo”51 [a TV Tupi].
O incêndio provoca comoção na sociedade: “O incêndio causou impressão na opinião pública. Os jornais e entidades de todo o Brasil se solidarizaram com a Cinemateca assim como as Cinematecas da Fiaf”.52 Cinematecas do exterior ofereceram filmes, que não puderam ser aceitos por falta de condições para armazenamento; cineclubes se pronunciaram publicamente; muitas notícias e artigos dos jornais da época comentaram sobre a grande perda; multiplicaram-se as promessas de verbas dos poderes públicos – municipal, estadual e federal vista à época como “imprescindível”53 – para a Cinemateca. Porém a grande maioria das promessas de ajuda econômica, amplamente alardeada pelos meios de comunicação, nunca chegaram realmente a acontecer. A Prefeitura de São Paulo, com a ajuda de Ciccillo Matarazzo, foi uma das poucas exceções.
Ciccillo Matarazzo, que ocupava o cargo de presidente da Comissão do Parque do Ibirapuera, facilitou a transferência provisória da Cinemateca para o último andar do prédio da Bienal, na ocasião ainda desocupado. A Prefeitura de São Paulo cede ainda oito pequenos depósitos (as guaritas dos portões) e a Cinemateca Brasileira se transfere para o Parque do Ibirapuera, onde permanecerá por algumas décadas. Cerca de um ano depois, a sede é deslocada para um galpão situado atrás do edifício da Bienal na Avenida IV Centenário e o acervo é levado para várias “casinholas” sombreadas pelas árvores do parque e situadas ao lado desse galpão – sem nada mais para garantir as necessárias temperaturas amenas.
Os depósitos cedidos estavam longe de serem adequados para a guarda dos filmes, mas traziam alguns benefícios. Por um lado, o acervo é distribuído em lotes menores, armazenados em locais distanciados entre si, evitando perdas em massa, em caso de algum outro acidente. Por outro lado, reuniu todo o acervo sob os olhos dos
51 Idem, ibidem.
52 Relatório de 1957. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op.cit.
53 José Inacio de Melo Souza, op. cit., 2002, p. 371. O autor narra detalhadamente, no primeiro capítulo
conservadores e permitiu melhor monitoração. Medições preliminares, realizadas nos locais antes da ocupação, com instrumento “termo-hidrométrico”54, acusavam certa estabilidade térmica, mantendo-se em aproximadamente 20ºC (temperatura mais ou menos estável que “não acompanha as oscilações externas”55); mas a umidade, em alguns períodos, mantém-se acima dos 80% de Umidade Relativa (UR).