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Is there enough energy for an inversion?

Slowness-frequency spectra

3.2 Is there enough energy for an inversion?

Para que melhor se compreenda a preocupação com as condições climáticas de guarda do acervo de nitrato, é importante entender a estrutura físico/química desse material. Toda película cinematográfica constitui-se basicamente de 3 partes: a base (ou suporte) – material plástico, transparente, que dá a estabilidade física/dimensional à película; o aglutinante56 – uma gelatina de origem animal que tem por função manter os elementos formadores da imagem fixos e aderidos ao suporte; e o elemento formador da imagem – grãos de prata ou corantes, que formam a imagem (e a pista óptica de som57), no caso do filme preto-e-branco58 e do colorido respectivamente. Chama-se de emulsão a reunião destas duas últimas camadas (aglutinante e elemento formador de imagem). O desenvolvimento técnico das películas tornou-as cada vez mais sofisticadas e os filmes ganharam outras camadas: a camada anti-halo, vernizes, camadas de filtro de cor, no caso dos coloridos, etc. Porém, didaticamente, podemos considerar que todos os elementos de uma película cinematográfica estão contidos na base ou na emulsão.

A base de nitrato de celulose tem uma composição química muito próxima do algodão-pólvora e, embora não seja explosiva, tem a propriedade de combustão espontânea, ou seja, a capacidade de incendiar-se apenas com calor, sem a necessidade de uma chama para deflagrar o fogo. Sendo um material quimicamente instável, a temperatura de ignição do nitrato de celulose tem relação direta com sua idade: quanto mais antigo o filme, menor é a sua temperatura de ignição. Em testes de envelhecimento acelerado, o nitrato de celulose chegou a incendiar-se à 40ºC – note-se que se trata de uma temperatura muito próxima da temperatura ambiente nos verões dos países

54 Assim nomeado no Relatório de 1957. Op. cit. Ver TERMOHIGRÔMETRO no Glossário – Anexo I. 55 Relatório de 1957. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op.cit.

56 Ver também SUBSTRATO ADESIVO no Glossário – Anexo I. 57 Ver SOM ÓPTICO no Glossário – Anexo I.

tropicais como o Brasil. Mesmo que as altas temperaturas nos galpões cedidos pela Prefeitura fossem amenizadas pela sombra das árvores do Parque e transmitisse uma certa tranqüilidade, os problemas não residiam apenas aí. O principal agente de deterioração do suporte de nitrato é a umidade. Não precisa ser água “visível”, bastam as gotículas de água que estão naturalmente em suspensão na atmosfera. O contato com a umidade do ar é suficiente para provocar reações químicas e, com a presença de calor servindo de energia de reação, o processo de deterioração do filme é acelerado significativamente. Em sua decomposição, o nitrato de celulose exala ácido nítrico (HNO2) na forma gasosa que, sob pressão, pode tornar-se explosivo. Num estágio mais

avançado esse ácido pode assumir a forma líquida, que dissolve a emulsão gerando um substância pastosa que se acumula no fundo da embalagem de guarda – neste estágio o material é irrecuperável. Além disso, a reação da base de nitrato com a umidade do ar – que se convencionou denominar hidrólise – é uma reação exotérmica, ou seja, uma reação química que produz calor. Isto significa que um rolo de filme (ou partes de um rolo de filme), por causa das suas reações químicas internas, pode estar alguns graus acima da temperatura ambiente e atingir temperatura suficiente para deflagrar a combustão espontânea. Uma vez iniciado, o fogo do nitrato atinge altas temperaturas e é inextinguível – impossível de ser apagado por qualquer método de extinção de incêndio conhecido59; o gás que exala, ao queimar, é letal quando inalado em grandes proporções.

Este é um bom momento para comentar a publicação de 1952, da National Film Library60, que oferecia muitas indicações de como se deveria proceder para que as películas cinematográficas em base de nitrato sobrevivessem ao tempo. H. G. Brown, inicia o texto listando as principais causas para a deterioração do nitrato: 1. o fogo; 2. os desgastes físicos e rupturas, causados pelo uso e manuseio; 3. os danos provocados pela água; e 4. a instabilidade química intrínseca ao material. Porém, antes de discorrer sobre cada um destes pontos, comenta que a maioria dos filmes do acervo da National Film Library eram cópias únicas (como também era o caso do acervo da Cinemateca), às quais o arquivo tinha a obrigação tanto de dar acesso, quanto de conservar pelo maior tempo possível. Uma vez que a película cinematográfica sofre algum desgaste, toda vez que é colocada em um equipamento, o arquivo precisava enfrentar o conflito entre a conservação e o desgaste pelo uso. A melhor opção seria a duplicação das cópias únicas,

59 Como sabemos, qualquer fogo precisa de oxigênio para manter a chama. No processo de queima do

nitrato, ele libera oxigênio suficiente para se auto-alimentar. É por este motivo que o fogo do nitrato é inextinguível.

antes do seu uso. Mas o custo para duplicar tudo que era solicitado tornava o procedimento inviável. Para minimizar os riscos de danos e não impedir o acesso, a instituição inglesa optou por dar acesso às cópias únicas somente em moviola, com a justificativa técnica de que a intensidade da luz, o calor emitido pela lâmpada de projeção e o movimento intermitente do projetor são muitas vezes pior para o filme (para a conservação e pelo risco de danos) do que o movimento contínuo61 e a lâmpada de baixa intensidade de uma moviola. Além do fato da moviola ser um equipamento sobre o qual se tem mais controle, podendo ser interrompida rapidamente uma projeção se algo de errado acontecer. Dito isso, Brown passa a discorrer sobre os principais agentes de deterioração do nitrato, listados acima.

Alguns detalhes, a partir de experiência de Brown, são interessantes de realçar. O autor afirma que um calor relativamente pequeno é suficiente para deflagrar processos degenerativos muito rápidos, mas que “the film at normal temperature decomposes slowly”, sempre lembrando que “temperaturas normais” na Inglaterra são significativamente mais frias do que no Brasil. Descreve que quando há uma grande retenção de gases, estes vão se compor com a emulsão, produzindo uma substância com grande capacidade de absorver a água presente na atmosfera. A partir desta reação, o nitrato começa a “melar” (tornar-se pegajoso) e ataca a prata formadora da imagem, provocando um esmaecimento62 (rebaixamento das baixas luzes, os tons escuros, e perda dos detalhes nas altas luzes, os tons claros) que pode destruir completamente a imagem. Além disso, este estágio é muito perigoso, pois é neste ponto que o nitrato apresenta a maior probabilidade de entrar em combustão espontânea, com temperaturas relativamente baixas (40oC como citado anteriormente). Por estes motivos, Brown dá grande ênfase ao arejamento dos filmes, para permitir o escape dos gases resultantes da deterioração e faz uma série de recomendações para facilitar a dispersão destes gases: guardar os rolos na horizontal (quando estão na vertical, as espirais de baixo, com o peso do rolo sobre elas, tendem a reter o ácido e deterioram-se mais rapidamente); não selar as latas onde os filmes estão guardados (lembremos que o ácido nítrico sob pressão pode causar explosão); desenrolar periodicamente os rolos (observou que filmes não manipulados por muito tempo degradavam mais rapidamente); e recomenda um enrolamento frouxo dos rolos (o enrolamento muito justo provoca retenção do ácido). Conclui esta questão afirmando que está convencido de que um ambiente seco e o

61 Ver PROJEÇÃO CONTÍNUA no Glossário – Anexo I.

arejamento são condição indispensável para a conservação do filme, porém não suficientes: a constante vigilância é igualmente importante.

O que define por constante vigilância vai além do monitoramento diário das condições climáticas de armazenamento. Brown descreve detalhadamente dois tipos de testes realizados sistematicamente nos filmes do acervo: o primeiro, teste de idade (artificial ageing test), determina o grau de retenção de ácido nítrico no rolo e permite uma projeção aproximada do tempo que o filme levará para começar a hidrolisar-se; o segundo, teste residual de hipossulfito (Residual Hypo63

), serve para determinar o nível de retenção de resíduos químicos resultantes do processamento laboratorial (acontece quando o filme é fixado e lavado por tempo insuficiente durante sua revelação). Segundo o autor, o teste de idade foi adotado a partir de 1946 e, quando indicava a presença de níveis perigosos de ácido nítrico, o rolo em questão era colocado numa lista de prioridade para duplicação. Uma comissão especial da National Film Library posteriormente resolvia se o filme seria realmente duplicado ou simplesmente descartado. Os resultados obtidos pela aplicação regular do Artificial ageing test levaram o arquivo a separar dos demais os rolos mais acidificados e, em cerca de 5 anos do uso dessa prática (até 1951), a porcentagem de rolos com retenção de ácido nítrico em níveis críticos baixou de 9% para 5% – ou seja, reduziu-se o nível de contaminação mútua entre os rolos do acervo. No segundo teste, ao revelar níveis excessivos de hipossulfito (hypo) na emulsão de um rolo de filme, este era encaminhado automaticamente para o reprocessamento (nova lavagem). Este segundo teste era aplicado em todo filme novo que se incorporava ao acervo, especialmente nos filmes coloridos, devido à grande capacidade do hipossulfito para descorar os pigmentos formadores da imagem.

Brown passa então a descrever quais eram as condições de guarda permanente do acervo de nitrato e introduz o assunto remetendo-se ao Report of Special Committee do British Film Institute, publicado em 193464. Este documento recomendava uma temperatura de armazenamento entre 1oC e 5oC (33 – 40oF), e umidade relativa (UR) de 55%, com estabilidade constante o ano inteiro. Brown analisa que os custos de instalação de um depósito (vault) com estes parâmetros eram altíssimos, especialmente

63 Ver HIPO RESIDUAL no Glossário – Anexo I.

64 Report of Special Committee set up by the British Kinematograph Society to consider means that

should be adopted to preserve Cinematograph Films for an indefinite period. British Film Institute

Leaflet n. 4, August, 1934. Referenciado no texto citado. Não tivemos acesso a este documento, mas

Carlos Roberto de Souza afirma em sua tese de Doutorado que essa foi a primeira publicação que se tem notícia a sistematizar recomendações sobre conservação de filmes.

para o controle da temperatura. Felizmente, a partir de uma certa temperatura, a estabilidade climática era mais importante do que a baixa temperatura. Sendo assim, o arquivo inglês optou por manter seus depósitos entre 10oC e 13oC (50 – 55oF), com aproximadamente 30% UR. O depósito, construído durante a II Guerra, continha 12 câmaras de armazenamento no centro de um edifício maior, circundadas por um corredor interno que comportava o sistema de controle de temperatura. A estabilidade da temperatura era conseguida através de resistências elétricas, controladas automaticamente por termostatos que aqueciam o ar quando este ficava mais frio do que o desejado, e desligavam quando atingia uma temperatura previamente demarcada. As condições climáticas internas ainda eram registradas três vezes ao dia, através de instrumentos de medição (termômetro e psicrômetro). O sistema de prevenção de incêndio começava por subdividir o acervo em conjuntos menores, armazenados nas 12 câmaras – em caso de incêndio, o acervo não queimaria inteiro. As paredes que tinham contato direto com o ambiente externo eram tratadas internamente com isolantes, para não haver penetração (pela porosidade dos tijolos) da umidade ou do calor/frio do ambiente de fora. Havia uma chaminé central, no telhado do edifício maior, equipada com um ventilador, que forçava a troca de ar para não haver acúmulo dos gases inflamáveis resultantes da deterioração. Cada uma das 12 câmaras possuía também sua chaminé, que funcionava como uma válvula de escape para o fogo, em caso de incêndio, evitando explosões. Estas chaminés obviamente se comunicavam com o mundo externo e, portanto, eram portas de entrada para umidade e temperatura indesejáveis. A fim de proteger a estabilidade climática interna, estavam fechadas com uma lâmina de metal, fixada com betume. Em caso de incêndio, este betume derreteria, liberando o flange metálico e abrindo a chaminé. Quanto à umidade, o autor afirma que não havia um controle tão restrito quanto o da temperatura, porém as medições diárias indicavam estabilidade em torno de 30% UR, com pouquíssimas ocorrências que ultrapassavam significativamente esse parâmetro, nos anos de uso destes depósitos.

Além do custo de construção, Brown menciona um segundo motivo para a National Film Library optar pelos índices de UR e temperatura indicados, relacionados às questões mais operacionais do arquivo. Uma diferença muito grande entre os ambientes interno e externo pode causar condensação na lata e no rolo de filme, quando este é retirado do depósito, por exemplo, para uma área de trabalho mais quente e úmida. Se tivesse optado por temperaturas muito baixas, teria sido necessário criar câmaras de aclimatação, onde o filme passaria paulatinamente a condições de UR e

temperatura cada vez mais altas até se equiparar ao ambiente externo natural. Segundo Brown, tal opção retardaria e tornaria mais complexo o acesso ao filmes. O texto tece várias outras considerações, inclusive sobre as características do novo suporte introduzido “recentemente no mercado” – o acetato de celulose – mas sobre isso comentaremos mais adiante, quando for pertinente ao assunto tratado. Por enquanto, o que descrevemos basta para imaginarmos a angústia dos conservadores da Cinemateca Brasileira, quando foram obrigados a armazenar o acervo em depósitos úmidos, de construção tosca, sem possibilidades de controle climático, sem perspectivas de mudança a curto prazo.