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3.4 Dispersion curve selection

É quase certo que Paulo Emilio Salles Gomes, pelo seu relacionamento com a Fiaf, tivesse conhecimento deste documento da National Film Library. Seus artigos no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo demonstram consciência do quanto estávamos distantes das condições seguras para a conservação dos filmes de nitrato. Em 16 de fevereiro de 1957, ainda sob o impacto da perda provocada pelo incêndio e observando a situação em que se encontrava a Cinemateca, escreve o artigo intitulado A outra ameaça:

Não tendo instalações adequadas para armazenar os seus filmes, enquanto esperava dias melhores a Cinemateca Brasileira procurava colocá-los em locais pelo menos secos. O incêndio num desses locais, precisamente aquele anexo aos escritórios centrais, e por isso mesmo o mais cuidado, determinou o transporte dos filmes que se encontravam em outros depósitos para novas acomodações, isoladas, porém úmidas, o que pode significar uma catástrofe para os filmes num espaço de apenas algumas semanas. O fogo é uma ameaça extremamente grave mas eventual; a umidade significa a condenação dos filmes a um aniquilamento, que não sendo espetacular como o provocado pelo fogo, não é menos inelutável e definitivo.65

Apesar de tudo, os depósitos do Parque do Ibirapuera eram a única opção. Para minimizar os problemas desses “locais provisórios”, a Cinemateca “instalou estantes para proteger as películas do contato direto com a umidade do pavimento, além de outras medidas provisórias tais como: orifícios para ventilação e rudimentares cortinas para proteção contra o sol”.66 Pelo que já se relatou, fica claro que estas foram decisões corretas e coerentes – porém insuficientes.

65 Paulo Emilio Salles Gomes. “A outra ameaça”. In Crítica de cinema no Suplemento Literário: volume

I, 1982, p. 79.

No momento da mudança, há uma pré-classificação do acervo, que organiza o armazenamento nos locais cedidos: 6 depósitos para filmes em nitrato; 1 para filmes em acetato; e 1 para as cópias em 16mm67. Desta proporção dos depósitos, fica patente o risco que a instituição corria, pois é evidente que a grande maioria do acervo era constituída de filmes em base de nitrato de celulose. A razão técnica para a separação dos filmes de acetato dos filmes de nitrato é óbvia: o primeiro é inflamável e o segundo não. No entanto, a decisão foi mais acertada do que possivelmente se poderia perceber na época. Com o passar dos anos, os arquivos audiovisuais entenderiam que a convivência do filme em acetato com o filme em nitrato era especialmente nefasta para o acetato. A degradação do nitrato de celulose, ainda que discreta, acelera significativamente a degradação68 do filme em base de acetato de celulose. Nesse momento ainda não se poderia ter conhecimento deste fato, pois a fabricação de filmes em suporte de acetato de celulose era muito recente. Com o passar dos anos, e com o processo de substituição de uma base pela outra, foi comum a utilização indiscriminada das duas bases, durante o período de transição. Sendo assim, existem vários negativos originais de imagem, desta época, que intercalam cenas em base de nitrato com cenas em base de acetato. Nestes casos e com o tempo, o que se constatou na experiência da Cinemateca Brasileira foi uma deterioração muito acentuada do acetato, enquanto o nitrato se manteve razoavelmente em boas condições.

A opção de separar as cópias 16mm responde a outro tipo de lógica. As cópias em 16mm eram utilizadas para exibição e empréstimo para os clubes de cinema. Como a difusão de filmes para várias localidades do país foi a atividade que se manteve praticamente ininterrupta, reunir todas a cópias num só depósito facilitava a localização e a movimentação, otimizando o trabalho que contava com mão-de-obra limitada.

Apesar de todas as dificuldades, a Cinemateca conseguiu manter as atividades mínimas de conservação de seu acervo durante o ano de 1957. Os filmes eram revisados, fazia-se uma limpeza superficial, consertavam-se as perfurações e emendas danificadas, eliminavam-se as partes deterioradas; eram substituídas as latas em mal estado (enferrujadas) por novas; parte dos filmes era embrulhada em papel manteiga quando possível e, quando não, embrulhada em jornal.

67 Cabe lembrar que só foram fabricados com base em nitrato de celulose, filmes na bitola 35mm.

Portanto, o depósito para cópias em 16mm só reunia filmes em base de acetato de celulose.

O papel manteiga – “impermeável” destaca o relatório69 – tem a função de isolar os filmes da umidade do ar. Sabendo-se da umidade descontrolada dos locais de guarda, a atitude “caseira” parece bastante coerente. No entanto, o jornal tem uma atuação contrária, por ser um papel poroso que absorve muita umidade. Quando o ambiente externo torna-se seco, o jornal passa a liberar a umidade absorvida e acaba por manter o ar úmido ao redor do rolo de filme, mesmo quando o ar externo já está seco. Pior do que isto, o papel do jornal contém muita acidez e, ao liberar a umidade que absorveu, libera água ácida, que por sua vez será absorvida pelo elemento mais higroscópico do filme: a gelatina da emulsão onde estão registrados as imagens e sons da obra cinematográfica. A médio prazo esta acidez vai se compor com outros elementos do filme e participar ativamente de processos degenerativos, como por exemplo o descoramento das imagens coloridas.

Quanto ao uso do papel manteiga, cabe ainda algumas observações. A prática de embrulhar os rolos de filmes em papel manteiga será repetida no final dos anos de 1970, não só para proteger os filmes da umidade, mas também para protegê-los da ferrugem das latas que não eram substituídas porque o arquivo não dispunha de latas novas. Em 2007, ao ser incorporado um lote de filmes que havia permanecido por anos à espera de processamento arquivístico, foram encontrados alguns rolos de filme ainda embrulhados em papel manteiga, dentro de latas bastante enferrujadas. Para nossa surpresa, os filmes estavam em boas condições de conservação. Certamente esse exemplo é uma exceção, pois a conservação do filme depende de muitos outros fatores e um papel manteiga não é suficiente para garantir sua sobrevivência. No entanto, observou-se que de fato os rolos foram protegidos da ferrugem da lata e da umidade externa que certamente existia no local (ou locais) onde estiveram depositados durante anos.

Voltando ao ano de 1957, os relatórios mensais produzidos por Rudá de Andrade, o conservador-adjunto responsável pelo acervo fílmico, descrevem situações, por vezes surreais que prenunciam questões com as quais a Cinemateca iria se deparar durante muito tempo. Há uma série de pequenas ocorrências que exemplificam as dificuldades de se trabalhar com um objeto volumoso, perigoso, cheio de exigências para se conservar e, de certa forma, um artefato novo com o qual a humanidade estava aprendendo a lidar. Rudá se debate com dificuldades tanto com a administração do parque, quanto com a estrutura (ou falta de estrutura) interna. Com a administração do

Parque do Ibirapuera tenta resolver diversas questões: os vigilantes dos depósitos que abandonam seus postos, ou deixam bitucas de cigarro dentro do depósito de nitrato (alguém fumou dentro do depósito de nitrato!); precisa reclamar o conserto dos vidros quebrados, das goteiras, da água da chuva que entrava por debaixo das portas – e do roubo do termohigrômetro, que inviabilizou o monitoramento das condições climáticas dos depósitos. Enfim, uma série de infortúnios que, reunidos, potencializavam o risco da conservação do acervo. Internamente, são dificuldades de outra natureza: controlar a circulação de filmes, que se acumulavam indevidamente na sede principal; a impossibilidade de movimentar os filmes em dias de chuva por causa da distância entre os depósitos espalhados em várias guaritas do parque; os revisores não formados nas “artes” da conservação que “encara[vam] o filme com sua característica de continuidade e movimento, não valorizando os singulares fotogramas (...)”70, e, para não haver acidentes de projeção, preferem cortar partes dos filmes a consertar defeitos reincidentes, como o de perfurações quebradas em seqüência.

Por outro lado, a eliminação criteriosa das partes mais deterioradas dos filmes em nitrato, como citado anteriormente, sustenta-se pelo conhecimento de que a deterioração da base de nitrato acontece de forma pontual e, uma vez eliminado o foco da deterioração, o resto do rolo tende a se estabilizar. Como explicar para um leigo que em alguns momentos o corte de fotogramas é para conservar e, em outros, significa a mutilação de uma obra? Sem uma compreensão mais profunda da questão, é quase impossível.

Dentre os problemas para organizar a Cinemateca que se mudara para o Parque do Ibirapuera, está a dificuldade em manter sob controle a circulação dos materiais entre os depósitos e a sede central, onde eram realizados todos os trabalhos. Sem nos aprofundarmos por enquanto neste ponto, queremos apenas destacar que o controle de circulação e localização de cada objeto de um acervo ganha maior relevância, em termos de conservação, quanto maior for o crescimento desse acervo.