• No results found

Veien videre

A aplicação terapêutica do ato de contar e das histórias apresenta duas linhas distintas: de uma perspetiva, o ato de narrar uma vivência pessoal é o instrumento base da terapia, já que a narrativa é entendida enquanto forma estruturante da experiência; de outra perspetiva, os “contos de fadas” são utilizados enquanto veiculo de ensinamentos explícitos ou encobertos que auxiliam na superação de problemas e na compreensão dos processos psicológicos e emocionais. Apesar da sua complementaridade, a primeira perspetiva, sob o paradigma do homo narrans, evidencia a utilidade do ato de contar em si, enquanto a segunda destaca os benefícios da “história”, das narrativas ditas tradicionais, nos processos terapêuticos.

Apesar da importância do paradigma do homo narrans nos discursos legitimadores e dinamizadores dos movimentos de narração oral, prevalece o protagonismo da “história”. Neste sentido, o vetor utilitarista apresenta os “contos de fadas” como o instrumento, por excelência, dos processos terapêuticos, legitimado por uma perspetiva que tem no trabalho de Bruno Bettelheim (2010), entre outros, uma referência seminal. Conforme referido, a legitimação das aniles fabulae por parte da psicologia e da psicanálise foi um importante fator dinamizador dos movimentos de narração oral e fundamenta os discursos utilitaristas. Nessas perspetivas, as narrativas tradicionais

deixam de ser apenas um património ancestral e popular a salvaguardar e se tornam utensílios pertinentes na atualidade das sociedades urbanas.

Michael Wilson reconhece essa corrente no seio dos movimentos de narração oral do Reino Unido, referindo que tanto a Society for Storytelling como a National

Storytelling Network dinamizam grupos de interesse na área da narração oral aplicada à

terapia. Segundo o autor, essa é uma perspetiva influenciada pelo pensamento de Sigmund Freud, de Carl Yung, de Joseph Campbell e de Bruno Bettelheim (Wilson 2006: 103-110)

Do mesmo modo, Marina Sanfilippo identifica essa tendência, que configura práticas de narração e repertórios que visam auxiliar processos de autoconhecimento:

Dejando a un lado el, por otra parte, indudable alcance narrativo de la oralidad en la práctica psicoanalítica o los estudios como los de Bruno Bettelheim, me refiero a la extraordinaria difusión de libros como los del argentino Jorge Bucay (2004), la estadounidense Clarissa Pinkola Estés (2001) o el chileno Jodorowski (2002). Desde distintos puntos de vista y con diversa formación del tipo psicoanalítico, estos autores presentan el cuento y la narración oral de cuentos como un modo de autoconocimiento o un instrumento de crecimiento personal (Sanfilippo 2007: 74).

Clarissa Pinkola Estés, referida na citação de Sanfilippo, é autora de Mulheres que

Correm com Lobos: Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem, obra

extremamente influente no universo dos movimentos de narração oral (Estés 2004). A autora e terapeuta, que articula um discurso representativo da perspetiva utilitarista na área da terapia e do desenvolvimento pessoal, descreve a sua prática da seguinte forma:

Às vezes pedem-me que diga o que faço no consultório para ajudar as mulheres a voltar para suas naturezas selvagens. Dou uma ênfase substancial à psicologia clínica e de desenvolvimento e uso o ingrediente mais fácil e mais acessível para a cura: as histórias (ibidem: 29).

De forma eloquente, ainda, a autora afirma pouco a seguir: “as histórias são bálsamos medicinais” (ibidem: 30). Assim, de modo semelhante a Bruno Bettelheim, Estés não reflete especialmente sobre o ato de contar, mas sobre a eficácia das próprias histórias, das suas estruturas e dos seus conteúdos:

Nas histórias estão incrustadas instruções que nos orientam a respeito da complexidades da vida. As histórias nos permitem entender a necessidade de reerguer o arquétipo submerso e os meios para realizar essa tarefa (ibidem: 30).

Laura Simms, uma figura proeminente do movimento de narração oral dos Estados Unidos da América (Sobol 1999: 49-53), narradora profissional e formadora há diversos anos, também se refere às histórias como strong medicine (Simms 2011: 149-154). Ao

relatar a experiência de adoção de uma criança da Serra Leoa, a narradora salienta o papel das histórias na relação entre mãe e filho. Novamente, o vetor revivalista contamina o entendimento utilitário, o que se manifesta numa valorização da oralidade fundada numa dicotomia oral/escrito:

As time passed, we both began to understand the immense power of having grown up with cultural oral tales shared over and over, never printed or edited, but spoken and discussed, learned, reflected on. This living tales offered templates for inner meaning and morality (Simms 2011: 154).

Deste modo, ora numa aproximação dos terapeutas ao universo dos contos, ora dos artistas aos benefícios terapêuticos destes, as perspetivas utilitaristas promoveram e legitimaram práticas de narração oral. Importa salientar, como se fez a propósito da abordagem pedagógica, que a relação entre a narração oral e a terapia não é linear. A profusão da literatura de autoajuda e de desenvolvimento pessoal, a proliferação de processos terapêuticos e de novas disciplinas holísticas, bem como o desenvolvimento de um mercado de “retiros”, em que a terapia e a espiritualidade se confundem, configuram um mercado profissional com evidentes atrativos. Neste contexto, a indefinição dos limites entre as competências do terapeuta e do narrador, conforme refere Michael Wilson, pode ser problemática:

It is certainly important, in any discussion of storytelling and therapy, to differentiate between the work of a therapist working long-term with story as a tool, storytelling as a technique or a storyteller as a colleague, and the kind of “prescription” approach occasionally seen, whereby the storyteller becomes the healer, diagnosing and treating all manner of complaint by dispensing the “right” story (Wilson 2006: 104).

Apesar de ser um campo em expansão, a terapia através dos contos tem uma presença pouco significativa no universo observado. São pouco expressivas as consequências dessa perspetiva do vetor utilitarista nos discursos e nas práticas dos artistas observados no contexto do presente estudo. De qualquer modo, interessa reconhecer que os dois princípios fundamentais dessa perspetiva, o paradigma do homo

narrans e a reverência pela “história”, contribuem para uma imagem generalizada das

práticas de narração por parte das estruturas de programação e dos seus públicos, influenciando, dessa forma, os interesses e os critérios do mercado de trabalho dos narradores orais.