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Forskerrollen

Outro fator indissociável do processo de dinamização e de legitimação das práticas de narração oral nas últimas décadas foi o que se tem chamado “a viragem narrativa” nas ciências sociais e humanas. Se o processo de valorização da oralidade veio legitimar as narrativas tradicionais e os modelos de relação não mediados enquanto fenómeno cultural, a viragem narrativa nas ciências sociais e humanas veio colocar o conceito de “narrativa” no centro das atenções de qualquer pensamento sobre o indivíduo, a cultura e a sociedade, introduzindo-o no vocabulário das ciências e, finalmente, nos discursos vernaculares. Consistiu numa mudança, em termos epistemológicos, de perspetivas que valorizam a abstração e a generalidade para as que privilegiam a experiência e a subjetividade, como aponta Sarah Raine (2013: 64).

Conforme nota Barbara Czarniawska, o interesse pela narrativa está presente desde as abordagens hermenêuticas sobre a Bíblia, o Talmude e o Corão (Czarniawska 2004: 1). No entanto, na origem dos processos contemporâneos que deram azo a esta “viragem” encontra-se referido, muitas vezes, o trabalho seminal de Vladimir Propp, aqui referido. A sua Morfologia do Conto (Propp 2003), de 1928, foi extremamente influente a partir dos anos sessenta, após a sua tradução para francês e inglês.

Conforme propõe Czarniawska, terá sido em quatro ramos, associados à nacionalidades, que o estudo sobre a narrativa terá vingado: em primeiro lugar, no formalismo russo; logo, no estruturalismo francês; na hermenêutica alemã; e no new

criticism norte-americano (ibidem: 2). Do formalismo de Ramon Jakobson ao

estruturalismo de Gérard Genette, de Roland Barthes a Tzvetan Todorov, sob a influência da antropologia de Claude Lévi-Strauss, passando pela hermenêutica de Wolfgang Iser e Hans Robert Jauss, ou pela “nova crítica” norte-americana, o texto passa a ganhar uma autonomia em relação ao seu autor e ao seu contexto, o que vem questionar os fundamentos das tradições hermenêuticas anteriores. Nesta lista, entre muitos outras, é pertinente acrescentar a perspetiva hermenêutica de Paul Ricoeur (Kreiswirth 1992: 632) e as singulares e influentes teorias de Mikhail Bakhtin (Czarniawska 2004: 2).

Da teoria literária, em que o protagonismo do conceito se deve em primeiro lugar à natureza dos seus objetos de estudo, o interesse pela narrativa transbordou para todas as ciências sociais e humanas. A partir dos anos setenta, o fenómeno alastra-se, numa dinâmica pluridisciplinar que inclui as ciências políticas, a psicologia, a sociologia, a

antropologia, a história, os estudos de cultura, a pedagogia, entre outras, numa vasta diversidade de abordagens:

As anyone aware of the current intellectual scene has probably noticed, there has been a virtual explosion of interest in narrative and in theorizing about narrative; and it has been detonated from a remarkable diversity of sites, both within and without the walls of academia (Kreiswirth 1992: 629). Desta variedade de perspetivas, duas interessam particularmente ao presente estudo, porque facilmente se reconhece a sua influência nos discursos e práticas da narração oral, o que permite identificar assim esta “viragem narrativa” como fator dinamizador destes movimentos artísticos. Em primeiro lugar, está a perspetiva que propõe a narrativa enquanto estrutura do conhecimento, como no trabalho de Jerome Bruner, entre os quais, Actual Minds, Possible Worlds (Bruner 1986). O autor estabelece uma distinção entre o pensamento o narrativo e o paradigmático, ideia central destas perspetivas que contribuem para a valorização do papel da narrativa nas ciências e além. Bruner propõe que existem duas formas distintas de pensar e de compreender a experiência. De um lado, está o pensamento paradigmático, que corresponde à lógica, que é reconhecido como próprio dos procedimentos científicos e que persegue o ideal de um sistema formal de descrição e explicação. Funciona por conceptualização e categorização, estabelecendo um sistema das operações entre essas categorias. Do outro lado, está o pensamento narrativo, centrado no sentido subjetivo das experiências processadas na forma de narrativas. Este modo de conhecimento centra-se nas intenções e ações humanas num determinado contexto, nas vicissitudes e consequências destas no curso das experiências. Deste modo, se o primeiro modo de pensamento, o paradigmático, procura a generalização através de métodos lógicos e científicos, uma verdade verificada através de procedimentos empíricos, o modo narrativo procura a subjetividade imanente da experiência individual, uma explicação contextualizada no sensível e no particular.

Em segundo lugar, é também central o entendimento da narrativa enquanto forma de comunicação, que funda o paradigma do homo narrans, referido muitas vezes ao longo desta tese para identificar alguns dos problemas de definição das práticas de narração oral. É no trabalho seminal de Walter Fisher, como em Human Communication

as Narration: Toward a Philosophy of Reason (Fisher 1987), que esta perspetiva coloca

a narrativa no centro das atenções das ciências sociais e humanas. O paradigma narrativo na comunicação, como proposto por Fisher, assenta na ideia de “racionalidade narrativa”

e nos princípios de “probabilidade narrativa” e de “fidelidade narrativa”. O princípio da probabilidade diz respeito à coerência e integridade da narrativa, enquanto que o princípio da fidelidade está relacionado com a credibilidade da história pelo reconhecimento dos seus processos de causa e efeito. No entanto, conforme nota Czarniawska, Fisher reconhece que nem toda a comunicação é necessariamente narrativa: outras formas de comunicação podem incluir o argumento técnico, o discurso poético, a descrição, entre outras (Czarniawska 2004: 11). Neste sentido, o autor não pretende, ao explorar o modo narrativo de conhecimento, rejeitar completamente o paradigmático, o que resulta manifestamente na expressão “paradigma narrativo”.

Estas duas perspetivas permitem compreender o que significa esta “viragem narrativa” para o desenvolvimento e a legitimação das práticas de narração oral. Transposto para fora do universo científico e intelectual, o protagonismo da narrativa instala-se no pensamento e nos discursos contemporâneos de forma muito evidente. É assim que contar uma história, ou reconhecer uma história na experiência vivida, passa a ser um modo de pensar, de compreender e, finalmente, de comunicar.

Conforme nota Raine, suportando-se em Polkinghorne (1988), o modo narrativo não representa uma nova epistemologia: está presente na experiência humana e talvez preceda mesmo o modo lógico e científico enquanto forma de dar sentido ao mundo. É talvez, por isso, continua a autora, pela sua ubiquidade, que o pensamento narrativo terá sido negligenciado pela esfera intelectual e científica:

Narrative sense-making seems natural to those who have achieved this competence and therefore may have attracted less academic attention and prestige. However, as schools become more culturally diverse due to greater transnational mobility and globalization, educators are also recognizing the cultural specificity of narrative forms and giving greater attention to the development of narrative competency (Raine 2013: 68).

Apoiando-se em Dell Hymes (1996), a autora nota uma tendência no pensamento científico para valorizar os discursos considerados académicos, científicos ou técnicos, em detrimento do conhecimento na forma de histórias e, em especial, nas narrativas pessoais. No entanto, apesar das resistências de uma tradição epistemológica centrada no modo paradigmático, parece haver um crescente interesse escolar na aquisição de competências narrativas, consequência provável de uma diversidade cultural que resulta da maior mobilidade e do fenómeno da globalização, conforme nota a autora na citação acima. Neste sentido, esta viragem epistemológica pode ser entendida no contexto de

uma reação pós-moderna às abordagens positivistas, à globalização modernista, ao Iluminismo, e ao domínio colonial europeu (ibidem).

No contexto do presente estudo, não cabe uma reflexão aprofundada sobre as diferentes perspetivas que vêm colocar a narrativa no centro dos discursos das ciências sociais e humanas. Naturalmente, a abordagem adotada nesta tese são delas devedoras, direta ou indiretamente, o que naturalmente está relacionado com a própria natureza do objeto de estudo. Importante será reconhecer que tais perspetivas, uma vez disseminadas no meio científico e intelectual, trasvazaram para o vocabulário e o pensamento de quase todas as esferas da sociedade:

Narrative is all around us, not just in the novel or in historical writing. Narrative is associated above all with the act of narration and is to be found wherever someone tells us about something: a newsreader on the radio, a teacher at school, a school friend in the playground, a fellow passenger on a train, a newsagent, one’s partner over the evening meal, a television reporter, a newspaper columnist or the narrator in the novel that we enjoy reading before going to bed. We are all narrators in our daily lives, in our conversations with others, and sometimes we are even professional narrators (should we happen to be, say, teachers, press officers or comedians) (Fludernik 2009: 1).

É neste sentido que a viragem narrativa evidencia e divulga o paradigma do homo

narrans. Por um lado, assim, este paradigma revela-se um dos grandes obstáculos na

identificação dos limites das práticas de narração oral, como se viu ao tratar-se dos problemas de definição. A citação de Fludernik acima expressa de forma evidente essa questão: não apenas designa de narradores toda e qualquer pessoa que conta alguma coisa, como desconhece, entre os inúmeros exemplos de atos narrativos e de narradores, estes desconhecidos “novos” contadores de histórias sobre os quais este estudo se debruça.

Por outro lado, no entanto, o protagonismo da narrativa veio contribuir em muito para a dinamização e a legitimação dessas mesmas práticas, o que, sem dúvida, contribuiu para o desenvolvimento de uma disciplina artística centrada no ato de contar histórias oralmente. Efetivamente, o interesse transversal pela narrativa veio valorizar estas práticas nos mais diversos contextos e para os mais variados fins. Munido dos recursos da narrativa e sensível ao que se entende próprio desse modo de pensamento, o contador de histórias profissional torna-se especialista de uma forma de entendimento e de comunicação que se tem tornado privilegiada. A sua prática passa a ter pertinência indiscutível no contexto da educação e do trabalho social, a sua presença, sentida em congressos e conferências, o seu know-how, solicitado em workshops de empresas e de

gestão de dinâmicas de grupo, numa diversidade de esferas inesgotável. Efetivamente, a viragem narrativa contribui de forma significativa para a atual apreciação da imagem do contador de histórias. Sobretudo, é evidente a simpatia dos discursos dos movimentos de narração oral por uma dicotomia entre o pensamento paradigmático, inevitavelmente associado às elites e à linguagem do poder e das estatísticas económicas, e o narrativo, entendido enquanto modo de proximidade e valorização da experiência pessoal. Com efeito, num contexto histórico e social onde, segundo estes discursos, prevalecem a informação, a massificação e a razão, um modo de entender o mundo que vem celebrar a partilha de experiências, de afirmação das singularidades e do envolvimento emocional e subjetivo, enquadra-se na perfeição nas motivações e propostas artísticas destes movimentos.