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Diskurspsykologi

Outro aspeto fundamental dos discursos revivalistas dos movimentos de narração oral diz respeito a perspetivas sobre os modelos de relação presentes nas sociedades pré- industriais, em que o ato de contar histórias se manifesta sob o paradigma do homo

narrans. Nesse contexto, a narração oral é algo que pertence ao foro do quotidiano, das

relações de proximidade, da partilha comunitária do tempo e do espaço social. É na reactualização desses modelos de relação que o vetor revivalista procura legitimar as práticas de narração oral. As ideias de “união” e “partilha” comunitária são, assim, centrais nesses discursos e nas motivações de um vetor revivalista, como nota Maria Patrini (2002: 93-95). Segundo essas perspetivas, as particularidades de uma performance centrada no ato de contar histórias e dotada de uma informalidade e proximidade evidentes tornam as práticas de narração oral um instrumento comunitário por excelência. Nas palavras de Michael Wilson:

Storytelling is the ultimate democratic, low art and “genuine” storytelling does not transpose easily or well to the platform of high art. Storytelling is “the art form of social interaction”, something that everybody does and participates in every day at some level (Wilson, 2006: 62, itálico no original). Ao ter em conta o fenómeno do renouveau du conte em França, Görög-Karady repete a ideia de forma muito semelhante:

As such, storytelling is certainly one of the most democratic forms of aesthetic experiences, because of the intimate complicity established through its peculiar sociability of participatory listening (Görög-Karady 1990: 176).

Com efeito, é recorrente no discurso de alguns narradores a valorização do aspeto informal da relação entre artista e público, da sua horizontalidade e espontaneidade, em detrimento do espetacular e do que apelidam “teatral” (Wilson 2006: 39-48), como se verá no quinto capítulo. Conforme salienta Anne-Sophie Haeringer: “les conteurs du renouveau du conte définissent le conte comme un ‘art de la relation’ en précisant que

‘relation’ est à entendre au double sens de ‘relater et relier’” (Haeringer, 2011: 28). Este entendimento está bem presente no depoimento dos artistas observados para a presente tese, sendo mais expressivo naqueles que revelam uma tendência para o vetor revivalista (Dahlsveen 2, Fontinha 4, Haggarty 2, Imaz 3, Weisse 2).

A procura desta “relação” com a assistência será tratada em pormenor no capítulo dedicado à poética da narração oral. De maneira mais ou menos percetível na performance, configura uma preocupação fundamental dos artistas, aspeto que procuram garantir através de mecanismos próprios, mesmo quando confrontados com tipos de evento e de espaço que implicam alguma distância entre performer e assistência. No entanto, conforme se verá, os próprios modelos de evento podem manifestar, desde logo, essa preocupação, estabelecendo um paradigma de horizontalidade e partilha que se concretiza através de grupos de interesse, “rodas de contos” e “maratonas”. O paradigma dessas perspetivas é o “serão”, entendido enquanto tipo de evento tradicional, familiar ou comunitário, que será alvo de atenção no capítulo dedicado à poética.

Nessas propostas, as fronteiras entre o artista convidado e o público tendem a esbater-se em eventos que propõem uma participação “democrática”. O Estória,

História, no Maciço da Gralheira, em que narradores “urbanos” dialogavam com as

pessoas locais, é um exemplo paradigmático dessas propostas em Portugal. Influenciou, entre outras iniciativas, os Contos da Avó, festival anual com sede em Joane, que promove eventos em casas particulares em que os narradores convidados partilham a performance com os “avós” locais.

Deste modo, os discursos revivalistas procuram, novamente, salvaguardar a ideia de uma linha de continuidade entre a narração oral contemporânea e as práticas ditas tradicionais, centrando-se, neste caso, nos modelos de relação. Contudo, importaria questionar se essa horizontalidade supostamente presente nos contextos tradicionais não é ela própria mais uma idealização romântica das práticas do “passado” e dos “outros”. Talvez seja pertinente interrogar, enfim, em que espaço da tradição a palavra é realmente partilhada, em que medida é ela de facto “democrática”. Aqueles que se têm dedicado aos estudos da oralidade reconhecem que a performance, o direito à palavra, é função, muitas vezes, de um determinado grupo ou tipo de indivíduo, que apenas ao possuir o estatuto exigido, mais ou menos especializado, pode se dedicar à transmissão deste ou daquele património (Zumthor, 1983: 167-182; Finnegan, 1992: 95-97). Reconhece-se, assim, que nem todos os temas e conteúdos podem ser partilhados por todos, que, regra

geral, determinadas práticas e patrimónios são exclusivos deste ou daquele estado, núbio ou iniciado, próprio dos homens ou das mulheres. Enfim, quer isto dizer, que nem sempre se contam as mesmas histórias às crianças e aos adultos, nem às mulheres e aos homens, nem aos locais e aos estrangeiros. Identificam-se universos exclusivos que pressupõem uma estrutura hierarquizada ou, pelo menos, uma distribuição de competências e patrimónios, o que contraria o caráter horizontal que os discursos revivalistas associam à ideia de comunidade tradicional.

Conforme se procurou descrever, o fenómeno a que se tem chamado oralidade levanta inúmeras questões sobre a performance, os seus contextos sociais e os seus intervenientes, aspetos que foram negligenciados por estudos centrados no “texto” (Finnegan 1992: 50-52). Torna-se pertinente, deste modo, questionar os paralelismos entre as sociedades contemporâneas e as tradicionais fundados em conceitos que polarizam a realidade através de dicotomias como literacia/oralidade, individualismo/comunidade, consumismo/sustentabilidade, entre outros.