• No results found

Del 5 Kvinner og dokumentasjon

5.6 Vegen videre

O ponto zero da discussão parece ser um argumento objetivo: é ilusório pensar em uma vida autônoma das imagens, pois a presença da imagem é parte fundamental da constituição das culturas. Enquanto manifestação de processos culturais e cognitivos, a imagem já foi teorizada por diversas correntes de pensamento, e assume, de maneira renovada, um papel fundamental para a cultura ocidental.

Os temas tratados até aqui são mais gerais e abstratos quanto à concepção e uso da imagem. Mudando o viés dessa abordagem, podemos questionar o posicionamento histórico do produtor de imagens: o artista histórico, de certa forma, sempre foi um funcionário do poder. Em todas as eras de produção da imagem até a modernidade, todos aqueles que lidavam com a criação de representações visuais, de uma forma ou de outra, estavam vinculados com alguma instância de poder e com a afi rmação do mesmo. Podemos citar o plano iconográfi co católico durante a Idade Média que através de uma concepção de mundo revelada servia para divulgar e educar a sociedade naquela estrutura de regras.

Na época, surgem inquietações que questionam e colocam em perspectiva o conhecimento revelado, como o cientifi cismo apoiado pelas revoluções mercantis e a expansão comercial do ocidente. A imagem, que antes estava ligada a ideias perfeitas da divindade, se transforma para atender novos usos como, por exemplo, o registro exato e enciclopédico da realidade e instrumento de autenticação da nova classe ascendente burguesa (não por acaso a pintura a óleo e sua portabilidade remontam a esse momento).

Seguindo neste panorama histórico, observamos mais uma vez a mudança dos paradigmas artísticos enquanto produção de artefatos visuais com o advento da revolução industrial. Surgem as artes aplicadas e um novo espectro de visualidades que são adaptadas a atender as necessidades da nova ordem mundial.

Esse lugar é evidenciado pelo uso das imagens na sociedade contemporânea, se presta aos mais diversos fi ns, com funções tanto na arte como na cultura de massas, além de estar em outros nichos de

9. O uso do masculino aqui foi proposital para de- notar as instâncias de poder de uma sociedade ainda construí

fruição cultural, como a cultura popular. Se por um lado são pensados os sistemas culturais que produzem artefatos visuais, por outro, os agentes que produzem imagens merecem ser analisados. Contemporaneamente a sociedade - e sua visualidade - se organiza de acordo com o complexo econômico industrial, onde há, em geral, estruturas organizadoras da experiência de vida do sujeito sistematizadas em três modos de vida possíveis (TEIXEIRA, 2010):

a)Funcional. O modo funcional é expresso por aqueles sujeitos que operaram a máquina sistêmica com maior ou menor grau de conformidade, procurando adequar-se aos parâmetros vigentes: quem se insere no sistema cultural segundo este agenciamento não produz atrito com o sistema, nem se insere na luta pela construção equânime dos diversos sujeitos socioculturais, elaborando, dessa forma, percursos que consolidam o funcionamento da máquina.

b)Pária. O modo pária é manifesto por aqueles excluídos do sistema por ao se tornarem inúteis ou desconformes. Vivem às margem dos circuitos: não participam da engrenagem social e, portanto, são os estranhos. Interessante observar que esse tipo de comportamento, quando oferece risco à organização estabelecida, também é, em última instância, absorvido pelo sistema. As fotografi as do corpo de Che Guevara e sua icônica foto com a boina revolucionária, estampadas em uma multidão de suportes, corroboram este argumento.

c)Fissural. Este modo se refere a sujeitos que traçam percursos nômades de colisão/fi ssura, procurando as brechas sistêmicas e os pontos cegos dos aparelhos de controle. Produzem imagens com o intuito de fi ssurar o sistema, envolvendo grande desenvolvimento cognitivo-imaginativo, bem como engajamento ético/estético. Seu percurso formativo é diverso (formal, informal, semi-formal4) assim como sua expressão: artista

popular ou erudito, jovem ou adulto, engajado em uma transformação do mundo através da proposição de reconfi guração das instâncias dadas. Os modos de vida funcional, pária e fi ssural se tornam ainda mais complexos quando excitados pelas permutações entre real e virtual que nos penetram a partir dos aparelhos. A dissolução dos limites entre estes dois conceitos e a conseguinte distensão de suas fronteiras mistifi cam

10. Semi- formal é um con- ceito desenvolvido no âmbito deste projeto para identi• - car as iniciativas de ensino que, apesar de se relacionarem de alguma forma com a escola formal regular, não são regidas diretamente por parâmetros Curriculares, ou ainda, a aplicação destes parâmetros é problematizada e ainda não consoli- dada segundo uma agenda Político Pedagógica de• nida, como acr- editamos ser o caso do PEI atualmente.

11. A misti• cação dos conceitos é um fenômeno agencia- dor da dominação sociocultural por aqueles detentores do poder intelec- tual e econômico (BENJAMIN, 1985a;1985c; FREIRE, 2000).

87

5como estas ideias são compreendidas.

Tal mistifi cação gera opacidade na forma com a qual percebemos a construção dos sujeitos socioculturais, implicando em uma reconfi guração de como desenvolver a faculdade de perceber e se relacionar com a imagem. Se por um lado o educador em arte, nesse regime, lida com o novo humano, fruto da conformação tecnológica, por outro, o educando, principalmente o jovem, deve lidar com um educador que também está inserido no mesmo processo. Ambos os sujeitos se constituem como usuários-fruidores da realidade a partir das imagens e suas tecnologias. Ignorar essas mudanças e sua paradigmática implicação na educação é os condenar ao abismo civilizatório. Em uma realidade tramada onde todos, em algum grau, são interpenetrados por redes (PIMENTEL, 2002), cada processo de agenciamento ou resistência deve ser observado com respeito, pois são nessas pequenas iluminações que a educação acontece.