Por estar localizado numa região considera de risco, já que é circundada por pontos de tráfico de drogas, era esperado que a questão da segurança do local fosse apontada pelos alunos das duas disciplinas. No entanto, a distinção dos conflitos enfatizados entre elas pode evidenciar o quão subjetiva é a questão da segurança para cada grupo e pessoa. Talvez por se criar uma impressão preliminar dos riscos existentes ao se visitar um conjunto habitacional como este, inserido numa área da cidade que é marcada por alguns crimes além do tráfico de drogas, seja comum também associar essa tensão a um ambiente hostil e violento, impressão que nem eu NE a turma da segunda disciplina tivemos ao visitar o local.
Seria preciso considerar que a percepção dessa sensação de insegurança pode ter se dado mais do ponto de vista do estudante ou do grupo que visitou esse conjunto do que dos próprios usuários em si. Tomar essa impressão por verdade limitou a análise que os alunos fizeram. Evitaram inclusive realizar visitas ao conjunto no período da noite (por, possivelmente, considerarem um horário de risco), deixando assim de observar alguns fatores importantes como a necessidade de maior iluminação nas áreas comuns nesse período. Caso não existisse, a iluminação por si só ofereceria maior possibilidade de uso e permanência nas áreas coletivas durante a noite.
Em conversa informal com alguns moradores pude observar, no entanto, que havia por parte deles tanto a consciência de que o entorno imediato corresponde sim a uma área de risco, quanto a consciência de que cada grupo respeita o ‘seu’ espaço e o dos indivíduos do grupo alheio, havendo entre eles algum tipo de código, de negociação e de harmonia de convivência. Essa impressão foi constatada também por Santos (2003) no texto “Tranquilidade no caos” que fala sobre o modo como os moradores do IAPI encaram o fato de viverem num conjunto habitacional situado numa área de risco da cidade:
Uma ilha de tranqüilidade em meio ao caos urbano. É essa a definição dos moradores, principalmente os mais velhos, sobre o Conjunto IAPI. A mendicância e a circulação de pivetes nas ruas e jardins incomoda, mas não chega a tirar o sono. A convivência com os moradores da Favela Pedreira Prado Lopes, [...] também é pacífica. "Violência, infelizmente, tem em todo o lugar. Tiroteio sempre tem, mas graças à Deus não estamos na linha de fogo e eles nos respeitam", garante o presidente da Associação
110 Comunitária do Conjunto Residencial São Cristóvão, Otacílio Ferreira de Andrade, 61 anos, 32 deles vivendo na comunidade.
A movimentação das crianças na praça central e nas quadras de futebol durante todo o dia demonstra que o medo, apesar de dominar os grandes centros urbanos, pelo menos ali não predomina. A prosa animada, nas mesas e bancos da praça central, de grupos formados em sua maioria por pessoas sexagenárias [...] indica que a insegurança, incorporada ao dia-a- dia de quem vive nas grandes cidades, não intimida os moradores a praticar velhos hábitos interioranos que garantem a boa convivência. (SANTOS, 2003, n.p.)
Esta mesma impressão pode ser tomada a partir da descrição do conjunto, realizada na página inicial do blog do IAPI (iapibh.blogspot.com), desenvolvido por uma moradora que habita o conjunto há 54 anos. Nela, além de demonstrar orgulho pelo valor histórico do conjunto, a moradora o descreve da seguinte forma:
Sou o CONJUNTO RESIDENCIAL SÃO CRISTÓVÃO-IAPI. Estou situado entre o grande Centro de BH e a região da Pampulha. Ao contrário do que muitos pensam, não estou á margem da nossa capital, pelo contrário, sou um autêntico oásis em meio ao deserto de concreto que me situo! [...] Sou o primeiro Conjunto Habitacional vertical do Brasil!! [...] Minha construção é de rara e excelente qualidade! Venha me visitar e comprove. Garanto que você também vai me admirar e gostar! [...] Sou eclético, abrigo em meu interior diferentes classes sociais que vão de B a D. Aqui residem boas famílias, o que me torna um lugar de respeito! [...] Terei o maior prazer em te receber em minhas dependências! (SANTOS, 2011, n.p.)
Em sua fala percebe-se não apenas a ausência do sentimento de medo ou hostilidade mas também o orgulho de habitar um local repleto de significados, além de uma agradável hospitalidade para receber visitantes. Tais impressões apontam para a necessidade de se desenvolver um olhar não superficial ou até mesmo não preconceituoso sobre o IAPI, abrindo a percepção para a visão dos habitantes familiarizados com as questões de segurança, muito mais do que os arquitetos. Ao focar especificamente na questão da segurança, os alunos apesar de chegarem a propor o uso de TI ou TIC, apenas reproduziram um modelo de resolução de problema pré-determinado e assertivo, deixando assim de explorar as possibilidades de experimentação do espaço e interação, inclusive com a vizinhança ‘perigosa’. Da mesma forma, enquanto foi descrito na disciplina da graduação a questão do problema acústico nos pátios internos aos blocos residenciais, pude observar durante visitas ao local e durante conversas informais, que algumas mães consideravam o barulho uma forma de saber que os filhos estavam de fato brincando naquele pátio. Pela disposição em “O” dos edifícios que formam os blocos do conjunto IAPI, dá-se um efeito acústico que ecoa os sons originados nos átrios
111 internos e assim as mães podem ouvir seus filhos brincando nesses locais. Embora alguns aposentados encarassem esse barulho como um problema, para algumas mães era a garantia de ter seus filhos por perto, o que caracteriza uma divisão de opinião entre os moradores. Assim, o conflito não poderia ser simplificado como um “problema” do espaço a partir do ponto de vista unilateral dos aposentados, como observado pelos alunos. Caracteriza-se de fato como conflito espacial, por não ser um problema para as crianças e para as mães, mas ser um problema para os aposentados. Nesse caso, a caracterização do conflito deveria ser mais ampla, abordando os dois lados da questão que estabelecem o conflito espacial, tentando enxergar a situação não apenas pela visão de um grupo envolvido mas sim de todos envolvidos na questão. Novamente a análise mostrou-se superficial e reafirmou a tendência comumente observada na arquitetura de se tentar resolver os conflitos como problemas bem delimitados, com soluções ‘engessadas’ ao invés de se preocupar com a subjetividade complexa dos processos de produção do espaço. Foi possível observar também que alguns halls internos de entrada dos apartamentos, assim como algumas fachadas, eram decorados em diferentes arranjos, como áreas de jardim, áreas para secar roupas e áreas para cachorros e/ou passarinhos. Cada hall tinha a sua apropriação e algumas disposições seguiam até os corredores. A forma como se dava a disposição dos apartamentos, permitindo um hall para cada unidade residencial, possibilitava essa apropriação de forma mais ou menos demarcada e aparentemente consentida pelos moradores. Numa observação inicial, a confusão de estilos presentes nas circulações de alguns pavimentos parecia um conflito espacial, contudo, logo se entendia que entre os moradores parecia haver um respeito sobre essa apropriação de espaços, como se houvesse a conscientização de que ‘o que vale para meu vizinho, vale para mim e isso pode ser bom.’
Essa articulação espacial acordada internamente entre os habitantes provavelmente foi sendo construída em função dos processos de negociação espacial pelos quais eles tiveram que passar para conseguir uma convivência em grupo harmônica e uma usabilidade comum das áreas coletivas. Esses tipos de acordos e adequações também foram observados nos estacionamentos, com vagas limitadas e frequentemente compartilhadas pelos próprios moradores por meio de rodízio de uso. Nesses exemplos de adaptações, os alunos observaram apenas o conflito
112 espacial e não o potencial por trás da apropriação do espaço. Dada a possibilidade destas circunstâncias nem serem conflitos reais, apenas parecerem conflituosas aos olhos de quem não habita o condomínio, poderia se considerar o potencial que existe por trás das negociações do cotidiano, pois tais situações demonstram a capacidade que os habitantes têm de administrarem o processo de produção do espaço, incluindo-se construção e uso.
A necessidade de se explorar esse processo interativo que existe nas negociações pela utilização das áreas comuns não foi enfatizada, mas mostra-se, no entanto, relevante para a abordagem dos conflitos espaciais identificados.
De um modo geral, observei a necessidade de os alunos conversarem mais com os habitantes para distinguirem conflitos espaciais reais e aparentes, a necessidade de visitarem também as áreas comuns dos edifícios e não apenas as áreas externas e a necessidade de observarem também as potencialidades além dos conflitos.
Essas questões levantadas a cerca dos conflitos identificados ressaltam a necessidade de desenvolver um olhar que foque menos na crítica da produção formal do espaço e se volte mais para tentar compreender as especificidades intrínsecas ao contexto de produção contínua do espaço. Considerar as relações e interações que emergem entre as pessoas a partir da negociação espacial de áreas comuns, mostra-se pertinente não apenas para fazer proposições espaciais, mas também, e principalmente, para identificar a capacidade que os próprios habitantes têm de administrarem seus espaços.