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DEL 2 Tiltak

9 Tiltaksnivå 3: KMI ≥ iso-KMI 30

14.9 Vedlegg 9: Individuell plan – komplisert

A viúva é sempre vista como uma mulher desgraçada, pois tradicionalmente vivia dependente do seu marido, e assim que fica viúva, a vida passa a ser muito difícil, sendo muitas vezes humilhada e diminuída pela família e pela sociedade. Portanto, muitas mulheres viúvas procuram casar-se novamente e suscitam opiniões ambivalentes.

Nas primeiras dinastias feudais chinesas não havia obstáculo ou restrição quanto ao segundo ou novo casamento. Porém, a situação mudou quando o confucionismo se tornou a ideologia oficial, nomeadamente a partir da dinastia Song10, época em que o casamento era demasiadamente influenciado pelo

neoconfucianismo ( 理 学 , lǐxué), cujo ponto de vista importante é ‘salvar a lei da natureza, eliminar a paixão’11. O governo da dinastia Song e as posteriores dinastias

começaram a promover rigorosamente a consciência de que a viúva devia manter a castidade (Lin, 2007). Elogiavam-se aquelas viúvas que não se casavam de novo através da construção de uma grande quantidade de ‘Arcos de Castidade’ (贞节牌坊, zhēnjié páifāng). Neste contexto, tendo em conta a ética e a moralidade, muitas viúvas optaram por viver sozinhas a fim de proteger a reputação da família e de comprovar a fidelidade ao marido falecido. Há vários provérbios chineses que refletem e apoiam esta mentalidade:

1) 好女不嫁二夫。

Boa mulher não se casa com dois homens. 2) 饿死事小,失节事大。

Morte por fome é preferível a perda de castidade. 3) 一女不吃两家饭。

Mulher não come refeição dos dois homens.

10 Dinastia que reinou na China de 960 a 1279.

4) 众臣不事二君,贞妇不事二夫。

Ministros não trabalham para dois imperadores, mulher de castidade não serve dois maridos.

O exemplo 1) é retirado da obra Gramática e Diálogos em Português e Chinês: um manuscrito inédito do P.e Joaquim Afonso Gonçalves (Barros e Ng Cen, 2014). O padre português, sinólogo extremamente importante na história do ensino do chinês e do português, foi o primeiro a estudar especificamente os provérbios em ambas as línguas, tendo fornecido muitos equivalentes ou explicações. Tal como refere Barros na Introdução à edição semidiplomática do manuscrito BNP 7975, este apresenta numerosas partes e passagens também publicadas no manual e gramática chinesa da autoria do padre lazarista intitulado Arte China, publicado em Macau no ano de 1829, contudo, elas não coincidem completamente, apresentando muitas vezes variação de enorme interesse linguístico, histórico e cultural, toda ela devidamente anotada e comentada no aparato crítico, também no que respeita aos provérbios e idiomatismos estudados pelo Padre (Barros e Ng, 2014; 2017).

Nota-se que, apesar de defender o conceito de castidade, geralmente a lei não proibiu claramente o casamento da viúva desde a dinastia Han12 (Wang, 2013). De

facto, havia sempre viúvas procurando casar-se novamente em busca de uma vida melhor, mesmo enfrentando problemas de ética e moralidade, uma vez que era o homem que suportava economicamente a família, como refere o provérbio 姑娘操 贞易,寡妇守节难 (gūniáng cāozhēn yì, guǎfù shǒujié nán), que significa ‘é fácil uma rapariga manter a virgindade, é difícil uma viúva manter a castidade’.

Na verdade, na China antiga tanto as viúvas solitárias como as casadas de novo sofriam preconceitos e discriminação por parte da sociedade, tendo uma vida difícil. Portanto, há um idiomatismo que o refere: 寡妇脸 (guǎfù liǎn), ‘um rosto cheio de amargura, sem nenhuma alegria’. De facto, a palavra viúva em chinês, 寡妇 (guǎfu), não indica apenas o estado civil da mulher, sendo também uma forma de tratamento depreciativa (Luo, 1996: 445). Há vários provérbios e 歇后语 (xiēhòuyǔ)

chineses que revelam esta realidade:

1) 寡妇改嫁,儿女受骂。

Viúvas casadas (de novo), filhos insultados. 2) 寡妇门前是非多。

Há muitos escândalos diante da porta de uma viúva. 3) 疾风暴雨,不入寡妇之门。

Não entre na casa da viúva, mesmo em tempo de tempestade. 4) 寡妇赶集——没人也没钱。

A viúva vai à feira – não tem acompanhamento nem dinheiro.

No caso de Portugal, há um provérbio que diz: Viúva é barco sem leme. A vida muda completamente por causa da perda do companheiro, já que tradicionalmente era o homem que sustentava a família. Sem apoio do marido, a viúva tornou-se mais vulnerável e podia sofrer uma certa discriminação, por exemplo em relação aos seus filhos: Filho de viúva, malcriado ou mal-acostumado. Quanto a si própria, diz-se: Viúva de estrada nem viúva nem casada.

Por outro lado, em Portugal, a nível religioso e civil, permitiam-se as segundas núpcias dos viúvos. Em vista disso, para as viúvas, nomeadamente as que têm dificuldade financeira, era possível que recorressem ao segundo casamento. Vejam-se os provérbios que demonstram esta realidade:

1) Sol e chuva, casamento de viúva 日晒雨淋,寡妇结婚。

2) Viúva rica, casada fica. 有钱的寡妇容易再婚。

3) Quem tripas comeu e com viúva casou, nunca esquece o que lá passou. 吃过牛肚和娶了寡妇的人,永不会忘记发生的事。

理智的寡妇总是疯狂得要再婚。

Ao falar da hipótese de a viúva casar novamente, surge sempre a questão da deslealdade para com o primeiro marido. Levando em consideração os fatores religiosos e sociais, muitas viúvas optam, por isso, por permanecer sozinhas. Pode-se observar essa mentalidade nos provérbios: Viúva honrada, porta fechada.

A verdade é que era tal o preconceito contra as viúvas, por se lhes negar qualquer direito à felicidade na ausência do marido, que nenhuma viúva, sendo viva, fica fora de suspeita e mau conceito, sendo sempre objeto de crítica e julgamento duro, até passarem a merecer o universal elogio fúnebre: É boa e honrada a viúva sepultada, que significa que as viúvas só são boas/bem comportadas quando mortas, vivas portam-se habitualmente "mal".

Por fim, de acordo com as Ordenações da monarquia absoluta, “a esposa não tinha nenhum direito em relação aos bens que tinham sido completamente administrados pelo marido, apenas era responsável pelos bens comuns até à partilha como cabeça de casal” (Guimarães, 1986: 559). Dito de outro modo, a viuvez era vista como momento de liberdade e prazeres para as mulheres, tal como ficou plasmado na frase e expressão idiomática viúva alegre / Ser uma viúva alegre. Há igualmente provérbio a esse respeito: Viúva rica com um olho chora com o outro repenica.

Capítulo IV

A imagem discriminatória da mulher

e a imagem de homem que pressupõe

De acordo com Furlanetto (1981: 120), “a língua não só reflete a ideologia da cultura como também é segmento material dessa cultura”. A partir daí, nota-se que a discriminação e o preconceito em relação à mulher, ou seja, a ideologia machista, muitas vezes também partilhada pelas próprias mulheres assim dominadas, podem ser refletidos na língua portuguesa e chinesa.

Diz-se que a língua portuguesa é machista, uma vez que o masculino possui uma posição predominante conforme algumas regras gramaticais de concordância. Posto isto, há também muitas expressões que demonstram preconceito contra a mulher, por exemplo, no caso de uma rapariga que permaneça solteira além do tempo normal para casar, usam-se idiomatismos como Ficar encalhada, Ficar para tia, Solteirona. Por fim, no dia-a-dia muitos palavrões que frequentemente aparecem estão também relacionados com a figura feminina.

A língua chinesa também reflete a ideologia machista. Antigamente o marido chamava “内人” (nèirén), literalmente ‘pessoa dentro de casa’,à mulher na hora de apresentá-la a outras pessoas. Tal forma de tratamento revela a posição inferior da mulher, já que o seu papel se resume a cuidar dos assuntos domésticos, enquanto o homem trata dos assuntos importantes e pesados. Outro exemplo tem a ver com a filha; como foi referido no capítulo anterior, ela é considerada às vezes um tipo de 赔钱货 (péiqián huò, ‘mercadoria que dá prejuízo’). De acordo com Gu (2016), esta ideologia machista também pode ser descoberta do ponto de vista linguístico. Basta analisar a ordem dos substantivos homem e mulher quando aparecem juntos em expressões, e é fácil reparar que a maior parte das vezes a palavra homem vem antes de mulher, de acordo com o hábito de falar. Exemplificando, 儿 女 情 长 (érnǚ qíngcháng, 儿 ‘rapaz’ e 女 ‘rapariga’), 夫唱妇随 (fūchàng fùsuí, 夫 ‘marido’, e‘esposa’), 衣食父母 (yīshí fùmǔ, 父 ‘pai’ e 母 ‘mãe’), 男女授受不亲 (nánnǚ shòushòu bùqīn, 男 ‘homem’ e ‘ 女 ’ mulher’). Tal fenómeno existe também em expressões com animais, como 攀 龙 附 凤 (pānlóng fùfèng, 龙 ‘dragão’ e 凤 ‘fénix’).

Na verdade, ao coligir exemplos de provérbios e idiomatismos chineses e portugueses pode-se descobrir facilmente o facto de a figura feminina ser

habitualmente alvo de crítica negativa, ou seja, a existência ao longo dos tempos do sexismo em desfavor da mulher. De entre todos os papéis analisados no capítulo anterior, apenas a figura de mãe não sofre nenhuma crítica, sendo sempre alvo de elogio. A seguir, apresenta-se uma análise no que se refere à imagem negativa da mulher em geral.