Uma das expressões, sem dúvida artísticas mas também políticas, que marcaram o espaço público português e em particular o lisboeta num passado recente foi o muralismo político da segunda metade dos anos 70 do séc. XX. Logo a seguir à revolução de 25 de Abril de 1974 sucede-se o PREC – Processo Revolucionário em Curso - no âmbito do qual é profusa a pintura de murais como estratégia comunicacional dos partidos políticos que a ela recorrem, nomeadamente o MRPP/PCTP, PCP e UDP, sendo característico na prática um alinhamento à esquerda, no espectro político, ainda que não exclusivamente.
Trata-se de facto de uma nova forma de ocupação visual do espaço urbano. Nas palavras de Rui Mário Gonçalves:
«O golpe militar de 25 de Abril de 1974 tem imediatamente adesão popular. Desde logo, pode-se falar de uma nova ocupação do espaço urbano. Os muros, anteriormente lugar da mensagem autoritária ou do silêncio, são apropriados por uma intensa actividade política. Slogans e contra-slogans aí se registam, em letrismo, colagem e descolagem.» (Gonçalves, 1991:115)
Estes murais, enquadrando-se nas estratégias comunicacionais dos grupos que os criavam, tinham duas vertentes: por um lado, a propaganda política geral; e por outro, o chamamento para iniciativas em particular (Caldeira, 2005). Autores como Helena Freitas (2011) e Alfredo Caldeira (2005) sublinham o carácter comunicacional desta forma de expressão artística, que, pretendendo denunciar ou divulgar, constituía uma alternativa aos meios de comunicação disponíveis na altura – a televisão, a rádio e os jornais – que apareciam como «dissociados da realidade crepitante do quotidiano revolucionário.» (Caldeira, 2005). Por outro lado, a informação contida nos murais, quando referente a um evento específico, revestia-se de uma efemeridade que Helena Freitas compara à do jornal diário: «Forma de comunicação dirigida ao transeunte, cujo olhar, eventualmente cúmplice, procura seduzir, a arte mural dá notícias do quotidiano que a envolve e pode ser tão efémera como um jornal diário.» (Freitas, 2011:417).
Os públicos a que as mensagens dos murais se destinavam eram diversos, penetrando com facilidade entre as camadas com menor instrução escolar. Os destinatários poderiam ser mais direccionados (os operários de uma fábrica em greve, por exemplo), ou indiferenciados - os transeuntes (Caldeira, 2005). Neste sentido, é de destacar a ideia de que tiveram um papel activo na percepção política e cívica dos cidadãos, incitando a tomadas de posição sobre assuntos políticos e sociais. Assumiam, assim, um papel de socializadores da informação, na medida em que se constituíam como reforços dos meios de comunicação habituais (Pedro Celedón, cit. in Freitas, 2011:419).
Com um cunho estético particular, inspirado no muralismo político soviético e chinês, os murais políticos do PREC assumiam quatro abordagens: a pintura de um desenho original; a pintura como reprodução de cartazes; a reprodução de moldes pré-desenhados e a adaptação de cartazes. Os partidos
que mais recorriam à pintura de murais tinham na sua estrutura grupos próprios para pintura mural, que incluíam artistas plásticos e, eventualmente, outros militantes, simpatizantes e «populares» – transformando assim o acto de pintar um mural político numa forma concreta de participação na vida política do país (Caldeira, 2005).
A prática do muralismo político continuou a aparecer nos anos 80, mas com expressão cada vez menor. Contudo, nos anos 90, novas técnicas e expressões como o stencil e o graffiti tendem a substituir essa anterior expressão política de rua. Se o muralismo político partilha com estas a vontade de visibilidade, é marcadamente diferente a prática em si, colectiva no muralismo e tendencialmente, mas não exclusivamente, individual no graffiti.
Hoje em dia, nota Ricardo Campos (2014) que há um ressurgimento da temática política nas expressões comunicacionais que aparecem nos muros e paredes da cidade, tanto no graffiti como na
street art . Um exemplo desse ressurgimento é o mural apresentado na Figura 3.1.
Figura 3.1 – Mural na Wall of Fame, junto às Amoreiras. Feito por Nomen, Kurtz, Slap, Exas e Luka. Pode-se ler: «A lei do mais forte é um filme que já não interessa a ninguém!». Foto de Ágata Sequeira. Um contexto de crise económica (e também política e social) parece estimular estas expressões de repúdio aos actores políticos e económicos e às medidas governativas de que ambos são responsáveis: «A afronta ao poder e aos bons costumes tem encontrado no muro e nas formas anónimas de comunicação um reduto altamente criativo.» (Campos, 2014:s/p). O autor compara esta forma de comunicação às estratégias comunicativas da propaganda política e da publicidade, mas realizadas pelo cidadão comum e a ele destinadas.
Ao muralismo político pós-revolucionário dos anos 70 seguiu-se, nas duas décadas seguintes, uma maior visibilidade dos tags no espaço urbano, ligados à cultura graffiti hip hop. Como referido anteriormente, Joan Garí, citado por Ricardo Campos (2014), distingue entre duas tradições do graffiti: a americana e a europeia. A primeira ligada à cultura hip hop e a segunda remetendo para os escritos de parede políticos, filosóficos ou poéticos, como atrás discutimos. Se o muralismo político se insere na linha da tradição europeia, a prática de tags remete para a primeira. Porém, e num contexto de crise, é de novo comum ver-se nas paredes da cidade palavras ou slogans de ordem, murais pintados a aerossol e stencils, com mensagens de revolta e relacionadas com o actual panorama político e social do país:
«As paredes parecem, também elas, servir cada vez mais para expressar não apenas uma revolta difusa, mas para acicatar o poder político, satirizar a classe partidária e afrontar o ‘status quo’.» (Campos, 2014:s/p)
Acrescentaria que também tem havido um ressurgimento de um muralismo político em moldes – estéticos e de escala - decerto inspirados no da segunda metade dos anos 70, com peças de comentário político ou divulgação de iniciativas a serem pintadas em muros, com ligação directa a partidos políticos, nomeadamente, e segundo uma observação circunstancial, o Bloco de Esquerda e o PCP. Dos murais políticos dos anos 70 em Lisboa pouco resta, tendo muitos sido danificados pela erosão normal, pintados por cima ou tapados por painéis publicitários. Todavia, a estética destes murais foi revisitada em 2009 na elaboração de um mural, numa das paredes de fachada da galeria ZDB, no Bairro Alto, por Rigo 23 e António Alves.
Significativo mencionar é que street art em Lisboa aparece alinhada com este conjunto de práticas de revisitação teórica e prática do muralismo, nomeadamente na iniciativa «40 anos, 40 murais»36, que
pretende elaborar pelo país 40 murais alusivos à comemoração dos 40 anos do 25 de Abril de 1974 – tendo o primeiro sido pintado em Alcântara em 2014. O projecto foi organizado pela APAURB37 e,
significativamente, reuniu vários artistas de street art e graffiti, e também artistas ligados ao muralismo político, como o já referido António Alves, que nos tempos do PREC pintou murais ligados a campanhas do MRPP38. Imagem deste trabalho encontra-se reproduzida na Figura 3.2.
Em termos plásticos, os murais contemporâneos recriam o tipo de imagem dos seus antecessores, mas sem a conotação partidária. De notar também o carácter colectivo de um evento de street art desta natureza - uma «iniciativa cívica», lemos no site - em que entre artistas e voluntários foram muitas as pessoas a participar na sua elaboração. No capítulo 5 deste trabalho veremos em maior detalhe como esta iniciativa, entre outras, ilustra uma determinada perspectiva sobre o papel da street art no espaço público urbano da cidade de Lisboa, em que o aspecto participatório e a acção cívica aparecem como
36 http://40anos40murais.weebly.com/
37 APAURB – Associação Portuguesa de Street Art
38 Informação que apareceu em duas das entrevistas que fiz, com Octávio Pinho (SLAP), presidente da
APAURB que organizou o evento, e Alain Silveira (EXAS), também uma referência do graffiti nacional, que participou no evento.
elementos-chaves. Por ora, abordou-se como um aspecto particularmente visível da história portuguesa recente – o muralismo político – surge no momento presente como referência para alguma da street art que tem vindo a ser elaborada em Lisboa, ao nível não somente estético como também das formas de fazer, com ênfase na acção colectiva e no trabalho voluntariado.
Figura 3.2. – Mural «40 anos, 40 murais», em Alcântara. Pode-se ler «Este mural foi realizado com a colaboração de 67 artistas e voluntários, sem apoios institucionais.». Foto de Ágata Sequeira.