Assimilation of real time series data into a dynamic bioeconomic fisheries model:
2.2 The Variational Inverse Formulation
Paralelamente às abordagens dadas por Silviano Santiago à literatura latino- americana e a ideia de entre-lugar, motivada pela situação de dependência cultural que a região se encontra, nota-se em algumas das colunas traços de um crítico que baseia algumas de suas ideias nas de Jacques Derrida, linguísta e filósofo francês pós- estruturalista, criador da corrente crítica conhecida como Desconstrutivismo.
A desconstrução em Derrida se caracteriza pela oposição a duas ideias consagradas do pensamento ocidental: a noção de centro, na qual se baseia o pensamento metafísico, e a ideia da superioridade da fala sobre a escrita, que Derrida chama de fonocentrismo. Para Derrida, a ideia de centro, ou seja, de uma verdade universal, de um modelo único, deve ser questionada e desconstruída, já que é uma construção cultural. Segundo Teixeira (1998c, p. 34-35)
Como toda verdade metafísica, a noção de centro deve ser posta em questão, deve ser desprezada na análise da estrutura de que participa. O centro não é uma realidade, mas uma construção do pensamento ocidental. O analista deve desconstruir esse construto, escolhendo um enfoque que aborde a estrutura por um ângulo até então secundário na ordem geral de todas as coisas. (...) Derrida coloca-se contra a concepção logogêntrica do pensamento metafísico. Para ele, o valor do centro é sempre afirmado pelo não-valor de seu oposto: Deus/diabo, homem/mulher, natureza/cultura, fala/escrita, espírito/corpo, inteligível/sensível etc. O pensamento metafísico atribui valor intrínseco aos elementos que compõem essas dualidades, em que se fundamenta quase toda a filosofia europeia. Todavia, Derrida não reconhece significado essencial nos elementos desses pares. Nega qualquer verdade transcedental. Aplica a todos os significados a condição de construções culturais, entendendo-as a partir do conceito saussuriano de fonema.
Ou seja, para Derrida, tudo é uma construção cultural e, por isso, não pode haver uma verdade absoluta, um centro. O papel, então, do crítico seguidor de Derrida é o de desconstruir a ideia de centro na literatura, tanto na obra em si quanto na estrutura literária na qual ela se insere.
É aí que se identifica a proximidade de Silviano Santiago à ideia de Derrida. Ao longo desta análise, pode se perceber o posicionamento claro do crítico em relação à
defender que sua tradição seja autônoma, livre dos modelos eurocêntricos, aos quais ela se subordina. Seu próprio conceito de entre-lugar carrega essa ideia e sua condenação à crítica comparativista mostra uma tendência à desconstrução derridiana. Por exemplo, em "Cara de um, focinho de outro" (07 ago. 2010), Santiago questiona a metodologia aplicada nos ensaios objetos de crítica e propõe que sejam usados contrastes que não estimulem no analista a ideia de um modelo absoluto.
Se a metodologia calcada em contrastes deve ser, pois, elogiada, já que conduz o leitor-aprendiz ao pleno conhecimento das diferenças que o constituem sem que delas se tivesse dado conta, deve ser, no entanto, relativizada caso o encaminhe para a ideia de modelo superior de desenvolvimento, a ser imitado. Somos mais bem construídos por pedagogia que incentiva a rejeição a modelo dado como consensual por uma das partes. Pela atitude crítica precoce seremos, na idade madura, melhores construtores do saber e da ação democráticos. A estrita obediência a qualquer modelo dado como superior inibe a experimentação e a criação que existem de modo latente em todo ser ou grupo humano carente de aperfeiçoamento. (SANTIAGO, 07 ago. 2010, ver ANEXO A)
Ainda segundo Teixeira (1998), outra ideia que Derrida desconstrói, motivado pela desconstrução do centro (logocentrismo) é o que ele mesmo chama de fonocentrismo, ou seja, a superioridade da fala sobre a escrita. Segundo ele, esta é uma ideia que deve ser desconstruída, já que a significação também é uma desconstrução cultural. Para Derrida, fala e escrita seguem uma lógica pré-existente chamada arquiescritura, e dela surge a significação por meio de contradições. Assim, o leitor de um texto deixa de ser um mero leitor, que recebe uma informação, e passa a ter autonomia, já que o texto com o qual tem contato já não tem laços com seu autor.
Em "Morte e vida do autor" (16 abr. 2011), Santiago, ao comentar a biografia do próprio Derrida, expõe a teoria da autonomia do leitor.
Derrida assinala o quiproquó do grego e afirma que os interlocutores, ao deixarem gravar no papel a palavra, dela se ausentam para que o texto do diálogo, a escrita, seja em toda plenitude. Gravada no papel, a palavra viva de Sócrates é a letra morta de Platão. Sem a assistência do autor, o texto autossuficiente passa a deambular pelo mundo em busca de sentido. (...) Ao assumir a postura derridiana, o leitor do diálogo platônico reclama, pois, a autonomia e a liberdade
indispensáveis para apreender com rigor qualquer texto. Responsabiliza-se: faz seu o que é de outro. Esse é o fundamento da teoria de Derrida sobre a escrita (e não sobre o poder da voz) e sobre a leitura (e não sobre a interlocução ao vivo). A prática filosófica foi herança do diálogo entre falantes, da maiêutica. Hoje, o leitor não se julga mais um interlocutor desvalorizado de Sócrates que, além- túmulo e ainda junto à fala, protege-a dos falsários e a explica. A prática filosófica desconstrói (verbo de Derrida) o fundamento fonocêntrico da metafísica ocidental, da linguística de Ferdinand de Saussure, da antropologia de Lévi-Strauss e da psicanálise de Lacan. Ao desconstruir esse pressuposto, a filosofia passa a ter por objeto a escrita e como prática a leitura. (SANTIAGO, 16 abr. 2011, ver ANEXO A)
Inspirado no pensamento de Derrida, Santiago questiona se as biografias não são desconstruídas, já que a fala, o discurso de vida do biografado não estariam presos à biografia. Assim, segundo o crítico, a biografia é "um caminhão baú que, tendo como destinatário o admirador do filósofo, transporta com competência e carinho documentos e depoimentos de ordem pessoal dispostos cronologicamente". Santiago não considera a biografia a memória do autor, mas um texto independente, uma nova construção cultural.