Assimilation of real time series data into a dynamic bioeconomic fisheries model:
2.5 The North East Arctic Cod stock
Finalmente, o último grupo temático aqui analisado diz respeito aos aspectos de noticiabilidade e de factualidade jornalística identificados nas colunas de Sérgio Augusto. Estas são duas características essenciais da produção jornalística. Segundo elas, o conteúdo jornalístico baseia-se em fatos noticiáveis, ou seja, que são de interesse de um determinado público receptor e que merecem essa divulgação. Essa noticiabilidade é determinada por diversos fatores, sendo os principais a atualidade, a relevância e a proximidade de um público leitor (TRAQUINA, 2005).
Analisando as críticas de Sérgio Augusto, é possível perceber que, sendo ele um jornalista, seus textos críticos, apesar de terem toda a carga analítica própria da crítica, são dotados também de um conteúdo noticioso, atual. O que se identifica é que os temas das críticas, em muitos casos, são motivados tanto por algum evento ou fato noticiável condizente com os valores-notícia do jornalismo cultural - a morte de um autor, a publicação de uma obra, um evento literário - quanto por fatos que não seriam notícia no campo cultural, mas que Sergio Augusto estabelece conexões com sua crítica.
Em "Um kadish para Tony Judt" (14 ago. 2010), o comentário às ideias do historiador britânico Tony Judt foi motivado por sua morte no dia 6 de agosto de 2010, oito dias antes da publicação da coluna. Além da atualidade, destaca-se a importância que Sérgio Augusto dá ao historiador por ter se dedicado à análise do presente, atividade semelhante a do jornalista.
Sua morte, no dia 6, aos 62 anos, deu novo alento semântico à expressão "perda irreparável", quase sempre inapropriadamente invocada para folhear de ouro defuntos de latão. Judt fará muita falta no circuito de ideias e questionamentos incômodos. Ninguém usava a História para refletir sobre o presente com a sua acuidade e a sua nonchalance expositiva. Oficialmente historiador, transformou-se, malgré lui, num intelectual público, mas por vocação vigoroso, sem rebuços e em permanente estado de alerta. Jamais permitiu que o conformismo e a complacência debilitassem sua argumentação. Nem que suas convicções políticas e morais lhe envenenassem o raciocínio. (AUGUSTO, 14 ago. 2010, ver ANEXO B)
Também inspirado pela morte de um autor, no caso o centenário dela, em "A morte épica do leão" (04 dez. 2010), Sérgio Augusto aborda o frenesi jornalístico causado na época pela morte de Léon Tolstói, escritor russo morto em 20 de novembro de 1910.
A morte de Tolstoi foi o primeiro grande evento midiático da Rússia acompanhado por câmeras fotográficas e cinematográficas, relatado por telegramas e imagens de cinejornais, as primeiras das quais chegaram a Paris em apenas 48 horas, com o selo da Pathé Films. Até hoje o circo que se armou em Astapovo é motivo de curiosidade e inspiração para historiadores (vide The Death of Tolstoy, de William Nickell, lançado em maio) e até ficcionistas, que o consideram o marco divisório entre a Rússia czarista que então definhava e a Rússia moderna que sete anos depois surgiria no rastro da revolução bolchevique. (AUGUSTO, 04 dez. 2010, ver ANEXO B)
Já no que diz respeito às referências a acontecimentos relacionados às temáticas das obras e às abordagens dadas pelo crítico, destacam-se "A marca do Zorro" (11 set. 2010), na qual Sérgio Augusto faz memória do crime ocorrido no México em que 72 pessoas foram assassinadas e que ficou conhecido como Massacre de Tamaulipas, de forma a contextualizar a situação atual do país para abordar o livro México Insurgente, cobertura jornalística da Revolução Mexicana feita por John Reed; e "Livros com bula" (06 nov. 2010), em que o crítico comenta o fato de as obras de Monteiro Lobato terem sido denunciadas porque teriam um conteúdo racista.
Em "À espera do fim do mundo" (28 mar. 2011), o comentário de obras da literatura japonesa inspirados em catástrofes naturais e em grandes destruições foi motivado pelo terremoto, seguido de tsunami e acidente nuclear que atingiu o Japão em
11 de março de 2011. Já em "Fugindo para Dublin" (04 jun. 2011), o crítico se antecipa à festa de comemoração a James Joyce, anunciando que ela se aproxima.
Faltam só 12 dias para o Bloomsday, a festa anual dos joycianos, a cada ano mais difundida e concorrida, atraindo a curiosidade até de quem nunca leu Ulisses ou, se o fez, nem esperou Buck Mulligan terminar a barba para repor o romance na estante. No início, as comemorações do mítico dia 16 de junho se restringiam à leitura de trechos do romance em livrarias e nichos acadêmicos os mais diversos, inclusive no Brasil. Posteriormente as incrementaram com a performance de antigas baladas irlandesas - ou de pelo menos uma, The Lass of Aughrim, ouvida numa das cenas mais bonitas de Os Mortos, de John Huston, a única transposição para o cinema de um texto de James Joyce à altura do original. (AUGUSTO, 04 jun. 2011, ver ANEXO B)
Porém, o aspecto mais interessante dessa carga noticiosa das críticas de Sérgio Augusto é a proximidade da publicação dos textos com o lançamento das obras. Considerando que as críticas dedicam-se a discutir a literatura em seu aspecto estético e já que está inserida no jornalismo cultural, também aborda a cobertura do mercado editorial, é compreensível que o lançamento de uma obra tenha grande valor-notícia na crítica de um crítico jornalista, que é o caso de Sérgio Augusto.
Este é um reflexo das relações de interdependência que existem dentro do campo da crítica jornalística, se tomarmos como base as ideias de Bourdieu (1992). Ao mesmo tempo que o jornalismo, uma instância difusora, mantém essas relações com o mercado editorial, instância produtora, a crítica jornalística, instância legitimadora na figura dos críticos, também está envolvida nessa rede de interdependências. Em "A que horas receber as musas?" (12 fev. 2011), o crítico anuncia a compilação de entrevistas que o serve de referência para refletir sobre como diferentes autores produzem sua literatura.
Em breve nas livrarias mais um volume de entrevistas com escritores publicadas pela Paris Review, o terceiro ou quarto aqui traduzido nos últimos 43 anos. Insuperáveis no gênero, só perdem em longevidade para aquele questionário que Proust inventou, Bernard Pivot levou para a TV, James Lipton para o auditório do Actors" Studio e Graydon Carter para a última página da Vanity Fair. (AUGUSTO, 12 fev. 2011, ver ANEXO B)
Em "Felizes para sempre (21 mai. 2011), Sérgio Augusto também inicia sua crítica anunciando que a obra objeto de crítica - Liberdade, de Jonathan Franzen - chega às livrarias em uma semana. Já em "A arte de ficar à toa" (30 jul. 2011), o motivo de o crítico abordar o livro de Milan Kundera é a sua recente reedição.
Por que o prazer da lentidão desapareceu?, pergunta-se Milan Kundera na abertura de sua primeira narrativa escrita diretamente em francês, et pour cause intitulada A Lentidão, que a Companhia das Letras acaba de reeditar. (AUGUSTO, 30 jul. 2011, ver ANEXO B)
É necessário ponderar que, apesar de serem colunas e abordagens ligadas de forma bastante próxima ao mercado editorial, não se pode dizer que são resenhas de fins puramente comerciais, prática comum à cobertura cultural, conforme já foi visto aqui. Analisando-se os próprios trechos destacados neste estudo, percebe-se que, diferentemente das resenhas, Sérgio Augusto não aparenta ter a pretensão de fazer de sua coluna um anúncio de livros. Toda a contextualização feita com base em suas referências e seus posicionamentos tomados, por vezes negativos às obras, fazem com que seus textos superem as resenhas, tornando-os um espaço de discussão literária.