On the dynamics of commercial fishing and parameter identification
5.2 Dynamics of Commercial Fishing
Ah, ser somente o presente: esta manhã, esta sala.
(Ferreira Gullar, “Extravio”)
Segundo o caminho percorrido até aqui, não existe representação ou significação única para a angústia: isso está claro tanto pelas ideias de Kierkegaard quanto pelas de Freud e de Lacan. Ela está na constituição do indivíduo, como o “estranho familiar” que não pode ser traduzido de forma definitiva, já que aponta para o absurdo do existir. Além disso, sentir angústia é algo fundamental na forma como o ser humano consegue se entender; a presença dela é sinal – sintoma – de que algo envolvendo o desejo está se processando: talvez na forma de escolha ou de realização do gozo e no medo de que tudo isso ocorra. Ainda assim, a angústia é fundamental na medida em que, por ela, é que nos identificamos com outros e criamos nossas maneiras – tão diversas – de lidar com ela, sempre permanecendo um hiato a se decifrar e que alimentará outros desejos: não existe escolha definitiva nem resolução definitiva de desamparo; o que há é repetição, satisfação que nunca ocorre e, caso ocorresse, seria a morte.
Tais repetições também são nítidas na ficção. No entanto, segundo Willemart (1997), esta não tolera repetições muito evidentes, já que trabalhadas pela linguagem. Logo, conseguir reconhecer as repetições que um texto artístico-literário apresenta significa apontar caminhos interpretativos para a obra de um escritor. A ficção, em constante relação com a realidade sócio-histórica e a do escritor, apresenta diferentes espécies de “elaborações secundárias” – metáforas, metonímias, jogos de palavras etc – que ajudam o crítico literário a apontar caminhos a serem observados e interpretados, com o cuidado de se ver o que de fato está no texto e não naquilo que o intérprete quer ler. Busca-se, por meio do uso da filosofia e da psicanálise, aqui, em nenhum momento, tocar o “inconsciente do autor”, mas aquilo que Willemart (1997, p. 48) chama de “inconsciente do texto” significações possíveis – dificilmente “esgotáveis” – para o discurso da obra que podem ser apontadas por meio das repetições que estão ali:
o crítico observa alguns significantes repetidos que mostrariam pelo menos um lugar comum aos inconscientes do escritor e do leitor. Essa comunidade de significantes reencontraria a ‘mesmice’ do consciente e do inconsciente do leitor e do escritor e poderia induzir e introduzir a noção de inconsciente do texto. (Willemart, 1997, p. 48)
Este é o grande ponto de encontro entre o crítico e o autor da obra estudada: o inconsciente do texto, espécie de zona intangível onde se encontram significados traduzíveis somente por meio de elementos presentes no discurso escrito do romance. Saímos da escrita e adentramos a escritura: processo em que, por meio de uma linguagem elaborada para tanto, a significação se processa. Assim, numa ficção artística, o enunciado não pode ser entendido de forma literal, mas sempre secundária, como se, abaixo da camada escrita do romance, houvesse um universo de significações - a escritura, conotativa, que elabora o inconsciente do texto – que só pode ser atingida por meio de elementos – em sua maior parte, repetidos – encontrados no texto. Quando estes são atingidos, devem ser analisados levando-se em conta os universos social e histórico em que a obra foi escrita, os quais, afinal, ajudam a determinar o processo de escritura do inconsciente do texto: a significação maior do romance ficcional- artístico.
Sendo a angústia, tanto na concepção de Kierkegaard quanto na de Freud, reconhecida justamente por sua intraduzibilidade, a questão que se nos coloca é: como o discurso, seja ele ficcional ou não, conseguiria dar conta de a colocar em palavras, em significantes? Seria algo possível ou fadado ao fracasso? Acreditamos que as duas possibilidades se alimentam e são possíveis. Por meio sempre de uma linguagem indireta, conotativa, podemos construir enunciados que sugiram, por suas repetições, elementos que se liguem à representação que um sujeito ou uma obra literária faz de sua angústia. No entanto, tal representação é sempre algo instável, provisório, por mais um motivo central: a natureza própria da angústia, sempre mantendo um vão entre o que se sente e a linguagem, sendo o terreno da subjetividade humana que mais nos define em sua indefinição, alimentadora do desejo de querer se traduzir e nunca se cumprir. Daí, também seu fracasso. Na tentativa de adentrar zonas mais sombrias e subterrâneas da subjetividade humana, a arte moderna, do fim do século XIX até os nossos dias, busca, em diversos momentos, instaurar a angústia como componente de nossa representação de mundo. Sendo assim, se é impossível mobilizar a angústia em um único significante, como a obra de arte a pode incorporar. Justamente por elementos que, repetidos, constroem uma atmosfera passível de entendimento por meio de um ritmo e de uma estrutura que se criam.
Assim, a angústia é um dos poucos afetos que pode ser representado pela ficção romanesca enquanto tema e enquanto estrutura, tanto no plano do conteúdo quanto no da expressão. Na busca de, em alguns momentos, abordar-se diretamente tal afeto, a obra como um todo mobiliza seus significantes para que, juntos, consigam apontar para o aspecto sempre intraduzível e provisório da angústia. Ela está ali na obra mas nunca de forma literal; nem a
palavra “angústia” é capaz de traduzir em definitivo o efeito de sentido pretendido. Logo, ela acaba sendo traduzida, na ficção romanesca, mais como atmosfera que, pelo processo de narração, vai ser convertido em enunciado, onde personagens, tempo, espaço, enfim, podem apontar para um inconsciente textual no qual o que paira é justamente o transbordamento de significantes que tentam decidir nossa falta original enquanto sujeitos. Como se vê, angústia é falta e transbordamento. Estamos bem distantes do sujeito solar e geométrico cartesiano.
Acreditamos que só foi possível tornar a angústia, de fato, elemento da obra artística, em especial da ficção romanesca, com a passagem do século XIX para o XX. Com o trabalho de pensadores como Kierkegaard e Freud aliado ao de pensadores da linguagem e das artes, é possível abordar um afeto como a angústia diante da complexidade que ela nos exige. Assim, retomando o dito anteriormente com a ajuda de Stierle (2006), a ficção, por meio da atividade da ‘mimesis’, não se propõe a dizer verdades, mas a criá-las, a subvertê-las, e assim por diante. Trata-se de um barro amorfo, ‘fictio’, semelhante ao que o ser humano é. Vejamos, então, caminhos possíveis da constituição dos romances de José Saramago e da angústia neles presente.