2.2 Probabilistic AI
2.2.4 Variational Inference
A exposição conceitual a ser feita das figurações reais de Estado e História Universal requer a elaboração de algumas questões globais acerca do sistema. A Ciência da Lógica aparece em sua expressividade e nas suas funções fundamentais quando é lida na perspectiva do sistema, significa dizer que a Ciência da Lógica não é uma pura lógica considerada na sua inteireza conceitual e desligada das outras partes da filosofia. Para Puntel, “aqui a Lógica será posta como momento (ou um estágio) da sistemática completa da totalidade: em meio a esta totalidade ou no sentido desta totalidade a Lógica só é a primeira, abstrata, ainda não explicitada, pura ciência imediata, isto significa: a ciência na determinidade da esfera lógica do ser.”59 A filosofia hegeliana pode ser considerada em vários níveis de fundamentação, cada qual conduzindo a um grau mais elevado de determinação da filosofia. Um primeiro nível é interno à Ciência da Lógica, um desenvolvimento categorial e metódico resultante na estrutura arquitetônica global da obra e caracterizada como a forma universal de todo o conteúdo determinado. Num segundo nível, considerado como resultante do desdobramento e diferenciação do primeiro, é a interioridade do sistema quando emerge a questão da relação da
Ciência da Lógica com as ciências particulares ou realidades determinadas. Neste nível, uma
esfera específica da realidade é exposta na sua logicidade própria quando repõe e desdobra a partir da sua determinidade a logicidade do sistema, ou seja, a grande Ciência da Lógica é compreendida como lógica do desenvolvimento imanente de um conteúdo determinado e as relações deste com outras regiões do real. Um grau mais sistemático de fundamentação conduz este movimento de circularidade até a totalidade do sistema quando a Ciência da
Lógica é traduzida na sistemática de exposição da universalidade do conteúdo, vale dizer, na
logicidade60 do autodesenvolvimento de todo o sistema. Como veremos mais adiante, na
58 As interpretações da obra hegeliana são das mais variadas possíveis. Existem grandes obras restritas a uma
interpretação reconstrutiva da Ciência da Lógica. Por outro lado, também existem obras que ultrapassam a
Ciência da Lógica e a estendem a todo o sistema filosófico do autor. Referente ao primeiro caso, destacamos
SCHMITZ, Hermann. Hegels Logik. Bonn: Bouvier Verlag, 2007; STEKELER-WEITHOFER, Pirmin.
Hegels Analytische Philosophie. Die Wissenschaft der Logik als Kritische Theorie der Bedeutung. München:
Schöningh, 1992; HARTMANN, 1999. No segundo caso, incluímos Emil Angehrn, 1977; JARCZYK, G.
Système et Liberté dans la Logique de Hegel. Paris: Aubier-Montaigne, 1980; PUNTEL, 1981; HÖSLE,
1998.
59 PUNTEL, 1981, p. 122.
60 Uma significativa exposição sobre o binômio Lógica e Sistema, compreendido como uma lógica-ontológica,
a Lógica como momento do sistema, e a sistemática da Idéia idêntica ao seu conteúdo é exposta por BOURGEOIS, 2004, p. 301-16.
objetividade do sistema a Lógica funciona como mediação universal e roteiro de desdobramento do conteúdo. Na Ciência da Lógica, Hegel fala sobre o sistema filosófico:
A idéia absoluta é o único objeto e conteúdo da filosofia. Porquanto contém em si toda a determinação e sua essência consiste em voltar a si através de sua autodeterminação ou particularização, tem diferentes configurações, e a tarefa da filosofia é reconhecê-las nestas. A natureza e o espírito são, em geral, diferentes maneiras de representar sua existência; a arte e a religião são suas diferentes maneiras de compreender-se e dar-se uma existência apropriada; a filosofia tem o mesmo conteúdo e o mesmo fim que a arte e a religião; mas é a maneira mais elevada de compreender a idéia absoluta, pois sua maneira é a mais elevada de todas, o conceito.61
Lógica e sistema62 constituem duas dimensões integradas de uma mesma arquitetônica filosófica. A Lógica compreende o método como caminho imanente de autoconstituição do conteúdo, um percurso categorial de racionalidade intrínseca a proporcionar ao sistema a autodeterminação a partir de si mesmo. Por sistema entendemos um todo organicamente estruturado onde as “partes” são constituídas como diferenciadas e unificadas num mesmo conjunto metodicamente construído. A conjugação de Lógica e sistema articula uma totalidade interrelacionada de diferenciação de suas esferas e do caráter transcategorial de uma racionalidade presente em cada diferença, mas irredutível a qualquer esfera constitutiva do sistema. Para Hegel, “assim, a ciência da idéia se divide em três partes: I – a Lógica, a ciência da idéia em si e para si; II – a Filosofia da Natureza, como ciência da idéia em seu ser- outro; III – a Filosofia do Espírito, enquanto idéia que em seu ser-outro retorna a si mesma” (Enz, § 18). Assim, o movimento sistema consiste num processo metódico de diferenciação e exposição das esferas de Lógica, Natureza e Espírito63, cada qual
61 “Sie ist der einzige Gegenstand und Inhalt der Philosophie. Indem sie alle Bestimmtheit in sich enthält und
ihr Wesen dies ist, durch ihre Selbstbestimmung oder Besonderung zu sich zurückzukehren, so hat sie verschiedene Gestaltungen, und das Geschäft der Philosophie ist, sie in diesen zu erkennen. Die Natur und der Geist sind überhaupt unterschiedene Weisen, ihr Dasein darzustellen, Kunst und Religion ihre verschiedenen Weisen, sich zu erfassen und ein sich angemessenes Dasein zu geben; die Philosophie hat mit Kunst und Religion denselben Inhalt und denselben Zweck; aber sie ist die höchste Weise, die absolute Idee zu erfassen, weil ihre Weise, die höchste, der Begriff ist.” WL II, p. 236.
62 B. Bourgeois, ao descrever o movimento de exteriorização da Idéia na Natureza e no Espírito, destaca que se
trata de uma exteriorização que permanece uma diferenciação interior ao próprio sistema. “A totalidade só existe, isto é, só se exterioriza, a cada etapa de sua realização, num meio ou num elemento diferente dela e – já que não há nada fora dela – diferente dela na medida em que ele promove um momento abstrato dela; a totalidade desdobra-se, portanto, no elemento supremo do saber absoluto na medida em que este promove sucessivamente os três momentos do absoluto, que se sabe como absoluto.” BOURGEOIS, 2004, p. 306.
63 Bernard Bourgeois elaborou um texto célebre sobre o significado e a estrutura do sistema na Enciclopédia das Ciências Filosóficas, destacando a lógica interna de universalização e de autoparticularização,
movimentos complementares realizados um pelo outro. “O absoluto ou a idéia – identidade de identidade e da diferença – se diferencia primeiro no elemento da identidade: tal é a Idéia Lógica, objeto da primeira parte da Enciclopédia. Depois , no elemento da diferença: é a Idéia em seu ser-Outro, a diferença ou a Natureza,
estruturada na sua determinidade e compreendida a partir de seus problemas próprios. Trata- se de esferas em certo sentido limitadas e irredutíveis umas às outras, com diferenças claramente caracterizadas pela racionalidade fundamental (Ciência da Lógica), determinidade imediata (Filosofia da Natureza) e totalidade concreta (Filosofia do Espírito) correlatas. A diferenciação também compreende o movimento de unificação quando todas as estruturas retornam reflexivamente ao fundamento que proporciona a inteligibilidade sistemática a todas elas. Assim, a diferenciação em totalidades regionais de Lógica, Natureza e Espírito se dá pela unificação em sistema auto-referenciado e a unificação se dá pela diferenciação. A identidade se dá pela diferenciação e a diferenciação se dá a partir da unidade, ou seja, a universalidade é unidade dos particulares e o conjunto dos particulares constitui a universalidade concreta.64
A presente discussão gira em torno das obras sistemáticas principais da filosofia hegeliana, a Ciência da Lógica e a Enciclopédia das Ciências Filosóficas. O significado da primeira já foi traçado em toda a trajetória do trabalho, compreendendo a autofundamentação da razão estruturada no desdobramento categorial. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas se caracteriza pela exposição metódica do processo global da autoconstrução do sistema determinado nas diferenças internas das esferas constitutivas. Na Enciclopédia das Ciências
Filosóficas, a Ciência da Lógica se encontra resumida no primeiro volume, mas revestida de
um significado maior de representar a racionalidade imanente de todo o sistema, ultrapassando os parâmetros estritamente lógicos. Nesta obra, a Ciência da Lógica aparece como a inteligibilidade do conteúdo em sua diferenciação e unificação, estendendo-se para todas as ramificações do sistema. Neste sentido, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas,
objeto da segunda parte. Enfim, no elemento da identidade da identidade e da diferença – portanto um elemento adequado ao que nele se manifesta, e por isso terminal: é a Idéia como Espírito, objeto da terceira parte da Enciclopédia. O Espírito é a unidade concreta da Lógica (do sentido) e da Natureza (do sensível); o retorno a si mesmo no sentido a partir do (e para o) interior do sensível – a sensibilização do sentido como sentido.” BOURGEOIS, Bernard. A enciclopédia das ciências filosóficas de Hegel. In: HEGEL, 1995a. v. 1. p. 418-9.
64 Entre os grandes intérpretes da filosofia hegeliana circula o questionamento sobre a divisão do sistema em
três ou quatro partes, resultando uma concepção de sistema triádico o tetrádico. Muitos se afastam da divisão usual feita a partir da tríade Lógica, Natureza e Espírito e partem para uma estrutura tetrádica de uma lógica, uma natureza, um espírito objetivo e um espírito absoluto. Vittorio Hösle é um dos defensores de um sistema tetrádico perfeitamente viável em Hegel: “Natureza e Espírito podem ser significados como submomentos dos momentos negativos de todo o sistema triádico. Em meio a esta concepção de sistema seria a Lógica a primeira, momento tético; natureza e espírito finito serão juntos o segundo momento; do espírito absoluto (espírito objetivo e absoluto) advém uma dupla função sintética: por um lado espírito objetivo e espírito absoluto serão síntese das esferas da filosofia do real de natureza e espírito subjetivo; por outro serão eles conclusão de uma outra tríade, cujo primeiro momento seria a Lógica, contrariamente o segundo será dado pela natureza e espírito finito figurados conjuntamente. Isto seria, portanto, neste sentido, o encadeamento sistemático tetrádico de reconduzir a uma triádica, que desvia das considerações acima feitas. O segundo momento agora não seria Natureza e Espírito, seriam as duas esferas finitas de natureza e espírito subjetivo por um lado e o Espírito Absoluto por outro. Uma semelhante tripartição do sistema hegeliano sustenta fortes antecedentes – não apenas um jogo de idéias dos atuais intérpretes, Hegel as fundamenta na sua Filosofia da Religião.” HÖSLE, 1998, p. 150.
metodicamente apresentada por Hegel em parágrafos curtos, densos e de difícil leitura, apresenta a estrutura da Idéia em seu autodesenvolvimento nas esferas da Lógica, da Natureza e do Espírito. Conforme exposto acima, a Natureza é a Idéia exposta na exterioridade imediata da matéria, do espaço e do tempo, constituindo uma totalidade estrutural específica do conjunto da filosofia. Ela não é compreendida por Hegel como a mera materialidade fenomênica carente de uma racionalidade ordenadora, mas uma determinação da Idéia expressa na estrutura interna do mecanismo, da física e da orgânica. A Filosofia do Espírito corresponde ao retorno da Idéia a partir da auto-exteriorização e configurado como a concretude racional da totalidade do real. Assim, a Filosofia do Espírito se caracteriza como a estrutura sintética de coextensividade entre Lógica e Natureza, razão teórica e prática, inteligibilidade e sensibilidade, autodeterminação e diferenciação do conteúdo. O Espírito, como totalidade sintética, não é uma mera somatória de partes antitéticas e extrínsecas entre si, mas as determinações de Lógica e Natureza aparecem suprassumidas, respectivamente, na logicidade do real e na concreticidade do espírito. Neste sentido, a estrutura da Filosofia do
Espírito compreende os vários graus de racionalidade e autodeterminação do conteúdo,
configurado nas esferas de subjetividade, objetividade e absoluticidade.
As esferas de Lógica65, Natureza e Espírito não são totalidades conceitualmente completas em si mesmas e externamente justapostas para formar um todo hierarquizado de determinações fixistas compreendidas como estruturas fechadas nelas mesmas. As três grandes esferas do sistema são, cada qual, totalidades específicas e figuram como níveis diferenciados de concretização do mesmo sistema ou da mesma Idéia. Para Puntel, “Todas as esferas da sistemática do real, desde a natureza anorgânica até o Espírito Absoluto, serão do ponto de partida da Idéia, concebidas e expostas como realizações da Idéia.”66 As totalidades aparecem sistematicamente em círculos inclusivos e exclusivos, a inclusividade representando a consubstancialidade entre todas as partes do sistema e a exclusividade representando a especificidade própria de cada totalidade. A Natureza encontra-se radicada na Lógica porque resulta do desdobramento metódico da mesma e se diferencia daquela porque os seus conteúdos são de natureza empírica e espacial. Em outras palavras, a Natureza possui como
65 “As ciências reais, assim como os segmentos da efetividade que elas exprimem, não são ilustrações de uma
Idéia pura. Pelo contrário, Hegel afirma que a Idéia só é Idéia verdadeira graças ao processo no qual ela se expõe como natureza e como espírito. O conceito entrega-se, então, à temporalidade da história e à contingência dos acontecimentos. A mediação efetua-se pelo ato de repor suas próprias pressuposições. O processo de totalização reflexiva do mundo, do qual a filosofia exprime o conceito, consiste em uma abertura originária, fundamental, ao movimento das coisas. A mediação realiza-se pelo ato de pôr de modo diferente as suas próprias pressuposições na própria imprevisibilidade do curso da história.” ROSENFIELD, 1983, p. 33-4.
constitutivos elementos que não estão na Lógica desta forma. Por outro lado, a Natureza não esgota a inteligibilidade de determinação da Lógica que se autodetermina em outros níveis de efetividade. O Espírito está radicado na Lógica porque comporta a racionalidade e reflexividade e se radica na Natureza porque a base material e concreta desta esfera caracteriza o Espírito como universalidade concreta. De modo geral, a Natureza aparece na
Filosofia do Espírito como a segunda natureza, não na configuração de uma naturalidade
imediata da mecânica e da física, mas na configuração de uma natureza realizada pela existência cultural e histórica dos homens. Desta forma, o Espírito suprassume todas as formas de unilateralidade contidas na Lógica e na Natureza e se caracteriza como a racionalidade do concreto. O entrelaçamento das esferas do sistema faz com que uma mesma inteligibilidade conceitual se determine em diferentes graus de efetividade e segundo a determinidade característica de cada região conceitual. Assim, fica bem claro que a Idéia lógica não é uma transcendentalidade apriorística fixa de onde são unilateralmente inferidas as estruturas do real, mas a inteligibilidade do sistema é coextensiva com a fundamentação e estruturação das mais variadas figurações do real. A estrutura do sistema é claramente exposta em um dos parágrafos mais densos da Enciclopédia das Ciências Filosóficas:
Cada uma das partes da filosofia é um Todo filosófico, um círculo que se fecha sobre si mesmo; mas a idéia filosófica está ali em uma particular determinidade ou elemento. O círculo singular, por ser em si totalidade, rompe também a barreira de seu elemento e funda uma esfera ulterior. Por conseguinte, o todo se apresenta como um círculo de círculos, cada um dos quais é um momento necessário, de modo que o sistema de seus elementos próprios constitui a idéia completa, que igualmente aparece em cada elemento singular67
Este parágrafo da Enciclopédia das Ciências Filosóficas68 expressa claramente a estrutura do sistema e o método de exposição inerente ao mesmo. No primeiro momento, cada
67 “Jeder der Teile der Philosophie ist ein philosophisches Ganzes, ein sich in sich selbst schließender Kreis,
aber die philosophische Idee ist darin in einer besonderen Bestimmtheit oder Elemente. Der einzelne Kreis durchbricht darum, weil er in sich Totalität ist, auch die Schranke seines Elements und begründet eine weitere Sphäre; das Ganze stellt sich daher als ein Kreis von Kreisen dar, deren jeder ein notwendiges Moment ist, so daß das System ihrer eigentümlichen Elemente die ganze Idee ausmacht, die ebenso in jedem einzelnen erscheint.” Enz., § 15.
68 G. Jarczyk desenvolve com todas as exigências especulativas da filosofia hegeliana as relações entre Ciência da Lógica e o sistema esboçado na Enciclopédia das Ciências Filosóficas, esboçando vários níveis de
articulação dos componentes fundamentais deste sistema. Para a filósofa francesa, a Ciência da Lógica estende-se a todo o sistema como estrutura articuladora do sistema enciclopédico através do exercício desta função nas diferentes formas de articulação e de relações internas compreendidas a partir do ser, da essência e conceito. “Sistematicidade da Ciência da Lógica, sistematicidade da Enciclopédia das Ciências Filosóficas: tais são os dois domínios ou exprime ultimamente a liberdade especulativa, tais são assim os dois aspectos de uma mesma verdade lógica que Hegel expõe no derradeiro capítulo da Doutrina do Conceito, consagrado à Idéia Absoluta.” JARCZYK, 1980, p. 260.
parte da filosofia e cada esfera constitutiva do sistema constitui um círculo completo enquanto região conceitual estruturada dentro dela mesma. Cada círculo é compreendido como estrutura autônoma e específica que expõe metodicamente a si mesmo quando resolve as antinomias e paradoxos internos. Mas cada esfera é totalidade porque figura como uma particular determinação da Idéia filosófica e porque se encontra intrinsecamente ligada às outras esferas. Mas esta totalidade não é fechada porque ultrapassa a sua própria limitação e fundamenta uma esfera mais elevada e engendra a própria diferenciação. A última esfera filosófica é expressa pela metáfora do círculo dos círculos caracterizada como uma estrutura transregional que dá sustentação às totalidades particulares e específicas.
A construção do supracitado parágrafo da Enciclopédia das Ciências Filosóficas, lida na perspectiva da totalidade do sistema69 permite formular a estrutura de um edifício filosófico sistemático formado a partir destas estruturas. O primeiro círculo identificado por Hegel é o continente da Ciência da Lógica, um universo mais restrito, mais imediato e mais pobre. A pureza lógica e transcendental deste primeiro universo filosófico caracteriza um limite que precisa metodicamente ser ultrapassado para proceder à fundamentação de uma segunda esfera. A Natureza é mais complexa e mais ampla que a Ciência da Lógica, exatamente porque contém em seu interior a Lógica e a totalidade do natural. Uma fundamentação ulterior de um outro círculo mais amplo é a Filosofia do Espírito, universo filosófico portador de um grau mais elevado de universalidade e de complexidade. Assim,o processo metódico de desenvolvimento do sistema captado a partir de seus círculos constitutivos, pode ser caracterizado como um movimento de universalização concreta a estabelecer esferas cada vez mais amplas e concretas. Desta forma, o sistema hegeliano é estruturado linearmente na medida em que as suas esferas estão dispostas lado a lado, não na forma de uma justaposição imediata, mas a partir de inclusões parciais. O grau de universalidade e de complexidade é dado pelo espaço que cada círculo ocupa no desenvolvimento do sistema. Mas a disposição da sistemática das esferas de Lógica, Natureza e Espírito70 não é uma linearidade meramente justaposta, pois é possível identificar uma
69 “Desse modo, as três partes da Enciclopédia expõem o círculo da Idéia em cada um dos elementos que
universalizam os momentos fundamentais da manifestação ou diferenciação de si que é a idéia. Cada uma dessas exposições particulares – enquanto exposição do universal concreto, do Todo, do Sistema, do círculo que é a Idéia – é por sua vez um todo, um sistema ou um círculo. Mas cada uma dessas particularizações da Idéia enquanto universal é a idéia se particularizando, se negando, e pelo fato – já que o universal é a potência que dispõe do particular – negando essa negação de si, afirmando-se assim concretamente. Assim, as três partes totais da Enciclopédia são momentos particulares organicamente encadeados pela necessidade da vida imanente da Idéia (que é só livre, absoluta e verdadeiramente total)”. BOURGEOIS In: HEGEL, 1995a, p. 419.
70 Uma significativa obra sobre o sistema hegeliano é: KRONER, Richard. Von Kant bis Hegel. Tübingen:
ascensionalidade progressiva na sucessão das esferas que vão ocupando níveis mais elevados de concreticidade.
O supracitado parágrafo apresenta dois movimentos de fundamentação inerentes ao sistema enciclopédico. Um primeiro movimento, respondendo à ordem de redação da obra, caracteriza um progressivo movimento de expansão e de abertura da racionalidade filosófica que se autodetermina na diferenciação das esferas. Nesta lógica, a Filosofia do Espírito, na sua figuração de Espírito Absoluto, aparece como a esfera mais concreta, universal e inteligível. Esta configuração do método compreende a oposição contrária de movimentos inerentes a uma mesma estrutura para determinar-se no momento mais rico da síntese. Em outras palavras, a limitação e unilateralidade de um momento particular, seja ela interior à
Ciência da Lógica ou à Filosofia da Natureza, requer ulteriores determinações mais ricas e
verdadeiras para que o paradoxo seja resolvido. A Filosofia do Espírito constitui o círculo