Chapter 2 Literature Review
2.3 Variation in the Speech Stream
Neste ponto, gostaria de indicar mais precisamente para a questão que me propus no início do texto, a do arbítrio e do arbitrário. Para tanto, devo me antecipar um pouco, ao deixar indicadas algumas das dificuldades que surgirão à diante. Ora, tanto Weber, como Durkheim e Marx tenderam a dar uma atenção muito maior a esfera produtiva, a idéia de trabalho, e a uma interpretação do ocidente moderno atrelada privilegiadamente a essa dimensão. Fica ausente, desvalorizada ou secundarizada na obra dos três autores uma discussão mais detalhada das conseqüências e de certa especificidade, em termos da esfera - e práticas a ela associadas - do consumo35, bem como do significado que ele possa vir a ter para a compreensão de alguns aspectos da vida considerados como caracteristicamente ocidentais36. E, por outro lado, provavelmente, somente Marx conseguiu enxergar na atividade produtiva em si mesma, um significado afirmativo, ou mesmo criativo e propiciador de felicidade.
É como se o trabalho, a atividade produtiva em sua modalidade capitalista de produção enquanto participação explícita nesse mundo que se criava, fosse ocupando cada vez mais o lugar de constituinte e fundamento da vida. Mais que atividade produtiva, era atividade que ligava pessoas e coisas num amplo sistema integrador, mas que ao mesmo tempo, dependia de desintegrações constantes e mobilização de energias corrosivas, como na famosa e impactante asserção de Marx:
A burguesia não pode existir sem revolucionar, constantemente, os instrumentos de produção e, desse modo, as relações de produção e, com elas, todas as relações da
sociedade [...] Todas as relações firmes, sólidas, com sua série de preconceitos e opiniões antigas e veneráveis foram varridas, todas as novas tornaram-se antiquadas antes que pudessem ossificar. Tudo o que é sólido desmancha-se no ar, tudo o que é sagrado é
profanado, e os homens são por fim compelidos a enfrentar de modo sensato suas condições reais de vida e suas relações com seus semelhante (grifos nossos) (MARX, 2004, p. 14)
35 De fato, um dos valiosos e inaugurais trabalhos a seguir nessa direção foi o de Thorstein Veblen, “A teoria
da classe ociosa”.
36 Talvez o autor dentre os clássicos que mais se aproximou dessa tarefa de apostar nas práticas e sentidos
ligados ao consumo como arena importante para a construção da vida tenha sido Simmel, em sua discussão em torno da moda, por exemplo.
Diante do recuo de outras formas de vida e moralidade, como diria Durkheim, a aposta nessa dimensão da vida vai tomando cada vez mais força e forma, com toda a sua ambigüidade, violência e rejeição do passado. Para Marx e Durkheim, essa etapa de quase irracionalidade será mais ou menos rapidamente superada, seja por um ato decisivo e revolucionário, seja por acomodações graduais e harmonizadoras. Nesse sentido, Weber me parece, dos três autores, aquele que menos investe nessa esperança. O que ele identifica em “A ética protestante e o espírito do capitalismo” seria uma correlação bastante circunstancial e parcial, diante de um volume bem mais imbricado e extenso de interdependências. A contribuição para um determinado tipo de ética e racionalidade do trabalho – no caso, advinda da religião - seria apenas uma contribuição, fundamental sem dúvida, mas apenas uma, em suas conseqüências, para a configuração de determinado tipo de vida.
Ainda assim, embora Weber indique – principalmente, sob o ponto de vista da sedimentação de um modo de vida mais especificamente moderno - para a importância da constituição, por exemplo, dos mercados, ao meu ver ele preocupa-se muito mais em especificar as disputas que nele ocorrem por imposição de sentido, sem descrever mais detalhadamente, por exemplo, a relação entre um certo modo de vida, a constituição de determinados modelos de elaboração das estimas e a escolha, posse, distribuição e exibição de objetos e serviços37. Também Durkheim, se por um lado ele se mostra sensível à constituição da idéia de indivíduo enquanto valor, ele não é capaz – impregnado que está pelas noções de solidariedade e especialização funcional – de perceber o radicalismo e especificidade de algumas linhas de mudança, ou mesmo de perceber naquilo que naquele momento seria considerado fútil, uma fonte autêntica de constituição de identidades e estimas. Ou seja, talvez não tenha sido suficientemente explorada, tanto em Weber quanto em Durkheim ou Marx38, uma percepção mais clara a respeito de uma possível
37 É claro que Weber, ou qualquer dos autores em questão não “teria que” ter coberto e tratado desse ou
daquele tópico em particular. Todavia, a sua fraca ou secundária presença – a do consumo - impõe que se recorra ao duplo trabalho de se encontrar em suas obras caminhos analíticos, linhas de sugestão e questões que, porventura, contribuam para minhas atuais preocupações e, ao mesmo tempo, exige ainda mais urgentemente que se acumule uma erudição mínima através da incorporação de outros autores advindos, inclusive, de áreas diferentes da Sociologia.
38 Este, como se sabe, ao formular uma interpretação sobre o consumo, o submeteu, no interior do ciclo
produção-distribuição-consumo, a um papel determinado pela precedência analítica da produção, e sem vida própria que o especificasse.
particularidade e autonomia relativa dos aspectos éticos e morais que emergiam, presentes nas relações entre a constituição de um modo de vida em que se pressupõe – prescindindo- se por hora, do fato de se se alcança ou não, e de que forma - como um forte ideal o respeito à autonomia, e a elaboração dos gostos e estilos de vida, bem como uma valorização do pessoal e singular.