Chapter 4 Results & Discussion
4.1 Results of Experiment 1: Production of /θ/
maneira como Marx concebe o desenvolvimento histórico em sua forma geral, nele concebendo “etapas” contingentes e necessárias. O interessante é que as duas primeiras etapas não possuiriam um caráter fortemente social e, a terceira, estaria mais próxima de um modelo organizado através de estruturas fundamentais de parentesco, e não em relações sociais de produção, ainda que a pressão pela satisfação de necessidades e uma organização cada vez mais fracionada do trabalho estabeleçam o tom. Primeiramente:
[...] o primeiro pressuposto de toda existência humana e, portanto, de toda a história, é que os homens devem estar em condições de viver para poder ‘fazer história’ [...] comer, beber, ter habitação, vestir-se [...] O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios que
permitam a satisfação destas necessidades, a produção da própria vida material, e de fato
este é um ato histórico, uma condição fundamental de toda história [...] (grifo nosso) (MARX, 1996, p.39)
Em seguida:
[...] satisfeita esta primeira necessidade, a ação de satisfazê-la e o instrumento de satisfação já adquirido conduzem a novas necessidades – e essa primeira produção de necessidades é o
primeiro ato histórico. (grifos nossos) (MARX, 1996, p. 40)
Por fim
A terceira condição que já de início intervém no desenvolvimento histórico é que os homens, que diariamente renovam sua própria vida, começam a criar outros homens, a procriar: é a relação entre homem e mulher, entre pais e filhos, a família. Esta família, que
no início é a única relação social, torna-se depois, quando as necessidades ampliadas engendram novas relações sociais e o acréscimo da população engendra novas necessidades, uma relação secundária [...] (grifos nossos) (MARX, 1996, p. 41)
Em que implicariam aqueles dois primeiros momentos? Ora, eles seriam uma etapa, ou melhor, um aspecto na unidade do processo; esse momento, uma expressão determinada da unidade sintética na qual, praticamente, não haveria relações sociais entre os homens, mas apenas relações homem-natureza, relações imediatas, quase se poderia dizer intuitivas- sensíveis - ainda que esse momento se afigure como condição essencial e indispensável de toda e qualquer história ele não estipula a existência de relações sociais. Mas, na verdade,
não é necessário que assim o seja, e não estaria correta a afirmação de que as categorias marxistas não conseguiriam sustentar-se no modelo. O primeiro ato histórico seria histórico não por ser social, mas por implicar na modelação da natureza pela atividade humana, à qual, em contrapartida, modifica suas próprias condições de desenvolvimento no interior desse ato primogênito. Portanto, modifica o próprio homem adicionando a sua experiência vital novas expectativas, formas de perceber, uma nova existência. Dá-se um ato criativo, fundante e transformador, no qual a idéia da tensão entre mudança e permanência seriam uma constante. Além do mais, a forma geral e a função, se se pode dizer assim, básicas desse estágio, não teriam deixado nunca de existir; ou seja, os homens, historicamente determinados, em quaisquer relações sociais de produção, nunca deixaram ou puderam deixar de satisfazer as suas necessidades. Assim, não se trata de fato de um etapismo, mas de aspectos de um ato primordial: a atividade, a produção e reprodução da vida e de suas condições e meios. Apenas na unidade do ato é que se pode captar a sua concreticidade, o real não se apreende em seus aspectos fragmentados e abstratos43. O problema da transição aqui também se resolveria, pois ela corresponderia a um desenvolvimento sempre mais dinâmico e acelerado das ordens de complexidade, definidas pelo modo como se estruturariam as atividades produtivas. Nesse processo, expressões mais complexas e posteriores conteriam sempre características das mais simples, ao mesmo tempo em que as explicariam, pois que seriam faces de uma mesma totalidade orgânica “a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor etc., só seriam apreendidos enquanto determinados por uma unidade concreta anterior.” (MARX, 1996)
A partir desse terceiro “momento” dá-se um novo movimento. Os homens passam a cada vez mais depender de outros homens para viver, suas necessidades se ampliam, os modos de cooperação se desenvolvem, intensifica-se então a divisão do trabalho com todas as suas conseqüências. Estabelece-se então um processo de hierarquização e organização social bastante complexo, no qual a idéia de atividade produtiva cumpre um papel central. Já não apenas a relação homem-natureza, mas os homens entre si, pessoas
43 “O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso, o
concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação [...] enquanto o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a
maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado. Mas este não é de modo nenhum o processo da gênese do próprio concreto. (grifos nossos)” (MARX, 1996, p. 40)
travando ralações recíprocas e cada vez mais assimétricas entre si. A satisfação das necessidades, a modelação da natureza, portanto, a atividade, torna-se atividade conjunta, intercâmbio entre indivíduos organizados sob condições determinadas. Mas, justamente, nesse processo continuado de realização a divisão do trabalho começa a se constituir enquanto processo inverso de desintegração, uma vez que parece fugir ao controle dos indivíduos em particular, apresentando-se a eles como autônomos e, mesmo, em conflito com suas aspirações44. Primeiro, com as divisões entre: os sexos; trabalho intelectual/trabalho produtivo; cidade/campo; indústria/comércio. Progressivamente ele vai se intensificando e adentrando em todos os setores da atividade.
Todavia, o que mais me interessa aqui é a divisão por Marx proposta entre atividade intelectual – “espiritual” – e atividade produtiva. Ela estipula de início a tensa relação entre mundo da cultura e mundo prático, bem como de sua correspondente, estrutura e superestrutura:
Para a teoria da práxis [...] o momento auto-suficiente e decisivo é o ato. Ele próprio coagido pela necessidade instrumental, o ato gera necessariamente forma e significação cultural com base nas qualidades dadas do real [...] – o famoso ato de auto-criação humana através do trabalho [...] A construção específica da cultura é o produto de uma atividade
concreta que transcende o sistema para apropriar a novidade e atualidade do mundo
material. Nesse momento criativo do ato, a ordem da cultura existente perde sua função
histórica (isto é, constitutiva). (grifo nosso) (SAHLINS, 2003, p. 31)
Ou seja, a subsunção da vida “espiritual” ao espectro da produção em seu sentido amplo empobreceria a vida significativa ao privá-la de autonomia e, portanto, de ser também atividade histórica, constituinte da história. E se, de fato, como nos estruturalismos inglês e francês, também de forma distinta em Simmel e Weber, se aposta na idéia de que os seres humanos seriam, fundamentalmente, seres capazes de interpretar, significar e dar sentido as suas vidas, ou, melhor dizendo, seres nascidos e feitos através de um arbitrário, sendo a emersão do sentido a expressão de uma competência fundante e um ato
44 Situação através da qual emergiria a experiência da alienação: “O poder social, isto é, a força produtiva
multiplicada que nasce da cooperação de vários indivíduos, porque sua cooperação não é voluntária, mas natural, não como seu próprio poder unificado, mas como uma força estranha situada fora deles, cuja origem
e cujo destino ignoram que não podem mais dominar e que, pelo contrário, percorre agora uma série particular de fases e estágios de desenvolvimento, independente do querer e do agir dos homens e que, na
estruturante básico de toda a vida inclusive a econômica, então de fato se está diante de um sério dilema. Ou seja: se “Para o estruturalismo, o significado é a propriedade essencial do objeto cultural, da mesma forma que o simbólico é a faculdade específica do homem [...]” (SAHLINS, 2003, p. 80) a precedência da produção torna-se uma impossibilidade lógica e valorativa. Ainda que ninguém duvide de que “[...] o significado não cria as forças materiais reais, mas, na medida em que estas são empregadas pelo homem, o significado cinge-as e governa sua influência cultural específica.” (SAHLINS, 2003) Ou seja, a atividade produtiva só pode ser atividade específica porque, em primeiro lugar, já se encontrava perpassada e comprometida com uma determinada ordem simbólica.
Por um lado, acredito que a proposta sugerida por Marshall Sahlins visando confrontar, ou mesmo por parcialmente em questão o marxismo, ao mesmo tempo em que aproximando-se da perspectiva estruturalista sem no entanto abrir mão da importância da existência e persistência de uma determinada vida material, pode encontrar uma expressão e síntese num interessante fragmento que nos fornece Mary Douglas:
Para continuar a pensar racionalmente, o indivíduo precisa de um universo inteligível, e essa inteligibilidade precisa ter algumas marcas visíveis. Conceitos abstratos são sempre difíceis de lembrar, a menos que assumam alguma aparência física. Neste livro, os bens são tratados como mais ou menos custosos, marcadores mais ou menos transitórios de categorias racionais [...] Os bens reunidos em uma propriedade fazem afirmações físicas e
visíveis sobre a hierarquia de valores de quem os escolheu. (grifos nossos) (DOUGLAS, 2004, p. 28)
Se estou certo, embora a autora dispense a maior importância aos objetos e relações que estes estabeleceriam com as pessoas, a sua função se daria quase que numa mão inversa ao esquema marxista. Aqui, os objetos serviriam a uma atividade de simbolização constante. Tratar-se-ia, não da necessidade humana básica de consumir ou produzir, mas da inescapável demanda humana de simbolizar e de pensar45. Todavia, para a autora seria um pensar já não mais através de formulações abstratas, mas sim, a partir do suporte material disponível. Os objetos seriam meios auxiliares, indispensáveis sem dúvida, mas auxiliares da vida simbólica, das práticas classificatórias. Decerto, no meu entender
45 E também, Levi-Strauss “[...] as espécies animais e vegetais não são conhecidas porque são úteis; elas são
consideradas úteis ou interessantes porque são primeiro conhecidas [...] Pode-se objetar que uma tal ciência
[os saberes dos ‘primitivos’] não deve absolutamente ser eficaz no plano prático. Mas, justamente, seu objeto primeiro não é de ordem prática. Ela antes corresponde à necessidades intelectuais ao invés de satisfazer
continuaríamos aqui no recurso a uma bifurcação, pois que a dicotomia práxis x cultura parece continuar suposta; além, é claro, da dificuldade que a ênfase intelectiva e lógico- formal traria para trabalhos que pretendam atentar para as percepções e sensibilidades sócio-históricas, entendendo-as como que delimitadas por correlações de forças variáveis. Todavia, acredito obter-se um avanço do ponto de vista da interpretação do significado dos fenômenos enquanto instaurados pela cultura. Os objetos, nesse esquema, permaneceriam objetos da representação, mas já definidos por uma certa valorização: adquirem o estatuto de “marcas visíveis” que contribuíssem para a atividade fundamental de pensar o mundo e coordenar valores. Também, mas não mais comprometido com uma opção estruturalista:
Nosso entorno material leva ao mesmo tempo nossa marca e a dos outros. Nossa casa, nossos móveis [...] lembram-nos nossa família e os amigos que geralmente vimos nesse quadro [...] Nossa cultura e nossos gostos aparentes na disposição desses objetos se explicam em larga medida pelos elos que nos prendem sempre a um grande número de sociedades, sensíveis ou invisíveis. (grifos nossos) (HALBWACHS, 2004, p. 137)
Aqui, o que apareceria seria a efetiva capacidade dos bens e objetos – resultantes de fato da atividade humana - em relacionar pessoas entre si, constituir reciprocidades através de uma vida em comum. Em ambos os casos, trata-se de dois pensadores – Douglas e Halbwachs – com posições distintas entre si e que, até onde sei, não apresentam quaisquer vínculos com uma chamada interpretação “materialista histórica de mundo” – termo que, como se sabe, nunca foi usado pelo próprio Marx. Todavia, é interessante notar como em ambos a relação com o “entorno material” se apresenta como fundamental para as propostas, inclusive, sob um ponto de vista que pode ser entendido até mesmo como em oposição a uma interpretação dessa natureza. Se há uma semelhança com o pensamento de Marx ao se sugerir que a relação entre objetos ou coisas nada mais seria que relação entre pessoas, tal semelhança para por aí. E, mesmo a esse respeito, as ordens que estabeleceriam o sentido da relação seriam fundamentalmente distintas - ao que mais à frente indicarei.
Assim, tanto Douglas quanto Halbwachs, apontam para o fato de que as relações que as pessoas estabeleceriam com o mundo – antes de tudo, relações entre as pessoas entre si – dependeriam todo o tempo da presença de uma infinidade de objetos que permeariam as próprias interações. Todavia, não há precedência de uma vida material como atividade produtiva, a vida material aqui estaria, a princípio, aberta a variadas
possibilidades de determinação, mas sempre condicionadas por maneiras anteriores de significar. Nesse sentido é que se abre a possibilidade de se atribuir um estatuto analítico viável para os espaços tidos como ordinários e banais do cotidiano. Relações que a princípio não pudessem ser consideradas produtivas não interessariam por si mesmas, se as analisássemos dentro de um referencial marxista mais estreito46; mas elas ainda estariam dentro de uma lógica da faculdade e da atividade de simbolizar, interpretar, classificar. Por outro lado, não se trataria de meras relações abstratas, passíveis de serem forjadas no vácuo de uma interioridade reflexiva, a consciência, mas também, não se bastariam como determinação de relações materiais anteriores. Para Halbwachs nenhuma interioridade poderia sobreviver sem a existência de objetos particulares. Da mesma forma, seria indispensável se observar as disposições que os põe em contato numa ordem específica de relações, e no contato com as pessoas participando de suas vidas.
Repetindo, seguindo esse argumento, nada seria mais equívoco do que supor aqui uma identificação, intencional ou não e, apesar de uma superficial semelhança, com o marxismo. Concordando com Sahlins, somos impelidos a entender o marxismo – já em Marx – como uma tentativa de explicar o mundo humano como resultado, em última instância, da produção da vida através da atividade produtiva, do trabalho. A categoria trabalho na argumentação marxista adquire uma centralidade específica ao associar o espaço das relações sociais de produção a um espaço que, antes de tudo, especificaria o modo de vida humano em cada sociedade. Portanto, trata-se de uma relação unidirecional e hierárquica entre o reino das necessidades e a vida “espiritual”, na qual esta última, em forma de ideologia, não poderia nunca ser interpretada como produção autônoma e orientada a partir de dentro47, sempre dependendo dos efeitos advindos do exterior: as tensões e desdobramentos entre as forças produtivas e as relações sociais de produção. A idéia, inclusive, de uma ação prática transformativa, emerge das próprias condições materiais já dadas, a partir das quais se constituiria o mundo simbólico, basicamente expresso na noção de superestrutura.
46 Não se pode esquecer, o marxismo proporcionou ou influenciou outras direções e combinações, por
exemplo, através de Lukács, Gamisc, a escola de Frankfurt etc.
47 É bem verdade que em textos como o 18 Brumário, a apreciação histórica dos fenômenos apresenta um
O problema do materialismo histórico – o mesmo problema de todas as teorias ‘naturalísticas da cultura – é que ele aceita o interesse prático como condição intrínseca e
auto-explicativa, inerente à produção e portanto inevitável à cultura. Mas na problemática da práxis, a lógica simbólica é subordinada à instrumental dentro da produção, e portanto através da sociedade. Como, na produção, a razão é um interesse prático, a satisfação das necessidades do homem, ela é parte do processo natural que ela mesma desencadeia. Em última análise, a cultura é organizada pela natureza material das coisas e não pode,
através de suas diferenças conceituais ou sociológicas transcender a estrutura de realidade manifesta na produção. (grifos nossos) (SAHLINS, 2003, p. 205)
Ou seja, se para o marxismo as relações materiais precisam ser entendidas, “antes de mais nada”, como relações sociais de produção, ligando os homens pelo espaço e tempo através das múltiplas definições de um modo de produção específico, tais relações sociais só podem ser entendidas pela lógica última das necessidades materiais. Mas, pergunta Sahlins: de onde vem a necessidade? Para entender o circuito produção, distribuição, consumo - alega o autor -, justamente, seria preciso se entender a produção das necessidades e a maneira específica de sua reprodutibilidade como processo fundamentalmente cultural e autônomo, não redutível às condições materiais de existência. E Marx não teria mais nada a dizer aqui, pois fica-se dentro da circularidade produção- distribuição-consumo, num ciclo submetido pela produção. De fato, afirma Karl Marx: “o consumo produz de uma dupla maneira a produção.” Todavia, sua conclusão parece-me um tanto desanimadora; pois, “[...] o produto não se torna produto efetivo senão no consumo; [...] um vestido converte-se efetivamente em vestido quando é usado [...] Ao dissolver o produto, o consumo lhe dá seu retoque final [...]” (MARX, 1996, p. 27) O consumo determina a produção, uma vez que realiza conclusivamente o produto pelo uso. Também, “o consumo cria a necessidade de uma nova produção [...] O consumo cria o impulso da produção; cria também o objeto que atua na produção como determinante da finalidade.” (MARX, 1996, p. 28) Assim, gera uma demanda pelos objetos, bens de consumo, bem como fornece sua idealização enquanto meta da produção. Nesse sentido, dá-se algo mais complexo, mas, no meu entender, ainda insuficiente para se enfrentar as dificuldades postas pelas práticas do consumir, pois que, em última instância, a dimensão do consumo não possui autonomia, não é em si mesma atividade, mas atividade subordinada.