Chapter 2 Literature Review
2.1 The Basics of Spoken-language Processing
A partir de sua própria experiência, em uma viagem, o autor deixa claro que nesse país – Estados Unidos -, formas coletivas de organização ainda eram fundamentais. Mais ainda, ao contrário do que se imaginaria, os Estados Unidos jamais poderiam – ainda que naquele momento estivesse ocorrendo uma mudança - ser considerados algo como uma reunião desorganizada de individualidades:
No passado e até o presente, uma das características da democracia especificamente americana era precisamente a de que ela não constitui um monte informe de areia,
composto de indivíduos, (grifo nosso) mas um animado complexo de associações rigorosamente exclusivas, embora voluntárias. (WEBER, 1982, p. 356)
Portanto, fica indicada a importância que era dada nesse país a se pertencer a qualquer forma de organização e, principalmente, ligar-se a algum grupo religioso. Embora tal ligação funcionasse muitas vezes como uma espécie de “carta de apresentação” para o mundo dos negócios, Weber sugere que a adesão não poderia ser encarada como mera hipocrisia. No limite, fica claro o fato de que só se estaria disposto a depositar confiança em alguém que tivesse sido aceito por um determinado grupo e que, portanto, tivesse demonstrado inclusive em seu passado – pois a aceitação em uma denominação dependia da verificação do passado do pretendente - inclinação para continuar a viver e agir eticamente regulado através de uma ética religiosa no futuro.
29 Por outro lado, provavelmente, mesmo em nações herdeiras de uma religiosidade predominantemente
católica, muitos dos desdobramentos e conseqüências dos fenômenos em questão tiveram atuação fundamental, contribuindo para a definição de rumos, perspectivas e fronteiras que se teve de descobrir. Ou seja, talvez – isso, mesmo que fosse possível desconsiderar outros fatores – a contribuição das religiosidades protestantes reformadas para a conformação de uma visão de mundo e de uma determinada orientação prática, tenha, no longo prazo de suas múltiplas articulações, excedido os limites geográficos de suas nações de origem. Inclusive, o conjunto de idéias que se dissemina com a Reforma não nasce da própria Reforma. Na verdade, trata-se do resultado mais radical de um longo debate, e de um complexo e muitas vezes tenso conjunto de disposições e confrontos que vinham se definindo dentro do próprio Catolicismo.
A passagem entre esses dois tipos ideais de orientação da conduta não se dá de maneira absoluta e incontroversa, e algo da racionalidade da ética religiosa sobrevive:
A concepção de mundo moderna continua dualista, na visão de Weber, precisamente pela permanência do confronto entre um mundo da causalidade natural e um mundo ‘postulado’ de uma causalidade compensatória de fundo ético. No entanto, ao contrário do dualismo imanente, já que o mundo da realidade ética postulada é pelo próprio homem desenvolvido acarretando, conseqüentemente, uma ‘responsabilidade’ bastante peculiar com respeito à esfera ética. (grifos nossos) (SOUZA, 2000, p. 38)
Esse tipo de “responsabilidade bastante peculiar com respeito à esfera ética”, corresponde ao que passou a se chamar individualismo ético. Parece que é a isso que Weber está chamando de ética de responsabilidade, em oposição a uma ética de convicção. Implica em que os indivíduos, ao tomarem posições, ao decidirem, tenham presentes todo o tempo as possíveis conseqüências de suas decisões. Mas a idéia de oposição não é também característica esclarecedora das duas orientações. “Vemos que a ética da convicção e a ética da responsabilidade não se contrapõem, mas se completam e, juntas, formam o homem autêntico, ou seja, um homem que pode aspirar à ‘vocação política’.” (WEBER, 1982, p. 122) Também não se trata de um utilitarismo, uma vez que um elemento de responsabilidade radical, por si e por outros deve estar constantemente enfatizado, sobretudo para os que se arriscam na vida política. Inclusive, um sentimento quase que de missão parece recorrente no texto de Weber. O problema é que, se só temos a “consciência própria” para recorrer no momento da decisão, deveremos estar cientes de que estaremos também sós para enfrentar as conseqüências de nossos atos30, principalmente pelo fato deles envolverem uma série de outras pessoas.
Quem age motivado por uma ética de convicção, não enxerga o mundo em seu politeísmo ético. Acredita e confia numa ordem unificada e não contraditória de mundo. Portanto, está convicto da possibilidade de eliminação do mal, uma vez que passarmos a viver radicalmente de acordo com esse ideal ético coerente e superior. Aquele que se propôs a viver e, sobretudo, agir por uma ética de responsabilidade, aceita que o mundo porta uma polissemia de orientações afetivas, cognitivas e éticas, muitas delas travando
30 Mas, para o próprio Weber, essa opção apresenta-se bastante tensa e, de difícil solução. De fato, a questão
se torna particularmente aguda quando se trata da esfera política. Pois, uma vez que o meio legítimo específico da política seria a violência, a relação entre decisão e efetivação da vontade adquire um caráter particularmente tenso. Pois, no limite, como diz Weber, quem está disposto a lutar com a espada, deve estar disposto a morrer por ela.
conflitos insolúveis. Para ele, um ideal ético tão elevado apresenta-se imediatamente como irrealizável. Portanto, qualquer decisão - e a política é por excelência a esfera da decisão – deverá pressupor como um de seus corolários, a necessidade do uso, ou ao menos a pressuposição do uso dos meios de violência.
Uma outra conseqüência à qual, quem pretende agir assim motivado não pode fugir, é a de que, em condições modernas, nenhum líder age sozinho. Portanto, ao se realizar qualquer ação, temos que depender de uma série de outras pessoas e de ânimos que podem ser bastante diferentes dos nossos. Também, o problema da rotinização após os desdobramentos de lutas determinadas.
Qualquer um que deseje dedicar-se à política e, em especial, aquele que deseje dedicar-se à política em termos de vocação deve tomar consciência desses paradoxos éticos e da
responsabilidade (grifo nosso) quanto àquilo em que ele próprio poderá transformar-se sob pressão daqueles paradoxos. (WEBER, 1982, p. 150)
Todavia, a conseqüência mais forte, para os propósitos desse texto, refere-se a um relativo desprendimento31, o qual permitiria uma postura, diria, relativamente crítica em relação aos outros e em relação a si mesmo. Acredito ser produtiva a interpretação de que Weber passa a entender a cultura como um espaço de disputa por aquisição e imposição de bens culturais e materiais. Se o Estado é o espaço em que o uso dos meios de violência é legítimo e, se a política é o ofício daquele que se interessa pelo Estado e, portanto, pela utilização desses meios, a disputa política e a disputa no mercado precisam ser inequivocamente pacíficas. Isso pressupunha, em minha opinião, duas coisas a respeito da percepção dessa polissemia de sentidos e de éticas discordantes e abriria o caminho, ao meu ver, para as seguintes orientações fundamentais: uma postura crítica, e um relativismo na cultura.
Inclusive, uma vez que nem todos dispunham do interesse, meios, ou talento para a atuação na vida política, e, uma vez que seu espaço se torna cada vez mais especializado diante de outras esferas da vida, parece que a própria disputa política passa a ser entendida
31 Não se trata, é claro, da idéia de um instrumentalismo desprendido e, inclusive, talvez mesmo o termo
desprendimento não seja adequado. Ele pretende aqui indicar justamente para o fato de que o modelo de mundo que possibilitaria e sustentaria um tal tipo de ética, também colocaria os indivíduos em condições de lidar com os outros reconhecendo as mediações e delimitações impostas pela diversidade de ritmos, perspectivas e assimetrias humanas a que se tem acesso e a que se está sujeito.
enquanto uma disputa num mercado concorrencial. Constitui-se a política partidária de massas na qual os eleitores se assemelhariam a consumidores ou clientela32. Isso, quando relacionado com a relativa valorização da vida cotidiana frente à participação em outros setores e performances da vida – sobretudo o a política, a contemplação e a guerra – pode ter tido conseqüências interessantes para se compreender alguns aspectos das chamadas sociedades de massa do século XX33.
Estou insistindo na política pelo fato já comentado de nela se mostrarem de forma mais aguda os problemas éticos que se explicitam ao se lidar com a disponibilidade legítima do uso dos meios coercitivos e violentos. Mas também justamente por se tender a desejá-la imune aos efeitos da mercadificação; ainda que o termo tenha, inicialmente, adquirido sua fisionomia moderna justamente daí34, só depois sendo relacionado aos efeitos das modernas tecnologias de massa – basicamente, rádio, fotografia, cinema, televisão e um serviço de imprensa rápido e barato – e ao desenvolvimento de um mercado consumidor ativo e extenso, principalmente no que tange o consumo de artigos de luxo. Mas não se trata apenas da política, espaço que, ainda que bastante interessante de se observar, por exigir e guardar uma relação explícita e exigente com a questão da decisão, como já foi dito, somente estaria aberto e convidativo a muito poucos.
32 Em todo caso, seria valioso se estar atento e cauteloso para a sugestão de passividade, relativa imobilidade
e posição de submissão que o termo consumidor sugere. Como indica Michel de Certeau, o termo consumo só adquire seu sentido pleno e pode ser melhor compreendido enquanto estipulação de uma prática. Ao mesmo tempo, as práticas de consumo nunca se resolveriam como absorção passiva de uma “casta” de dominados. Ao contrário, exigiriam “técnicas” e modos ativos e subversivos de apropriação, sendo que estes se assemelhariam muito mais a uma reorientação e reelaboração dos usos, seus tempos e lugares pelas pessoas.
33 Talvez a dificuldade aqui seria a de se suspender, ou melhor, reconhecer, entender e, se possível, enfrentar
um pouco o moralismo das interpretações assombradas e ressentidas diante das “perdas e ausências de valores” que se julgava, ou se desejava imprescindíveis, imperecíveis.
34 “A concepção da sociedade de massas, que teve sua origem nos historiadores romanos sobre o populacho
turbulento e sua maior expressão literária em Coriolanus, é primordialmente um produto do século XIX. Nessa época apresentou-se como um produto da reação contra as Revoluções Francesas, que se estenderam desde 1729, 1830 e 1848, até 1871.” (SHILS, 1983, p. 115)