5.1 Forståelse i matematikk
5.1.3 Variabelforståelse
Na área do município de São Paulo quase todos os rios e córregos são afluentes do rio Tietê e estão na bacia hidrográfica do Alto Tietê, sendo os principais rios da cidade objeto de obras municipais de retificação, canalização, drenagem e de aterro das várzeas, de forma que a paisagem das áreas úmidas da cidade foi desaparecendo, sendo as principais justificativas: - as várzeas reuniam uma grande porção territorial da cidade necessária ao desenvolvimento econômico;
- na época da cheia dos rios (quase meio ano) as várzeas permaneciam inundadas, por vezes apresentando um cenário de águas poluídas estagnadas, propiciando a proliferação de doenças;
- as grandes extensões úmidas causavam vários transtornos àqueles que precisavam cruzar a cidade - devido às poucas e precárias pontes adequadas à travessia das imensas áreas úmidas. Devido aos fatores acima expostos e principalmente após o Plano de avenidas de Prestes Maia, surgiram as avenidas de fundo de vale, pois conjugavam três condições propícias ao seu desenvolvimento:141
- a implantação das ações de saneamento básico;
- facilidade de implantação, pois não haveria necessidade de grandes desapropriações; - disponibilidade de recursos federais destinados ao saneamento básico das grandes cidades. Apesar dos projetos de saneamento viabilizarem a implantação das vias de fundo de vale, facilitando o desenvolvimento do município de São Paulo sobre a extensa e rica área de várzea, não estavam integrados a nenhum projeto de sistema viário, de forma que os diversos planos e projetos de saneamento, que ao longo dos anos possibilitaram a execução destas vias, também não resguardaram uma área mínima de preservação do território, eliminando a leitura dos rios do território da cidade.
141
Em 1907, o vereador Augusto Carlos da Silva Telles142 elaborou um projeto para o vale do
Anhangabaú que se caracterizava como uma área quase rural, na qual o córrego Anhangabaú apresentava-se em estado natural, com seu sítio formado pelos fundos dos lotes das casas que davam suas frentes para as duas encostas.
Neste ano, Silva Telles escreve e pública o livro “Os melhoramentos de São Paulo” e nele descreve inúmeras obras que julgava pertinentes ao desenvolvimento da cidade, que na época abrangia a colina histórica entre os vales do Anhangabaú e Tamanduateí.
A circulação viária era destacada como uma das maiores dificuldades necessitando de intervenções imediatas como alargamento de algumas ruas e as dificuldades para a travessia do vale. Pouco tempo depois da elaboração deste estudo, Silva Telles apresenta à Câmara Municipal um novo projeto para o vale do Anhangabaú.
“ onde além do alargamento da rua Líbero Badaró seria dado um tratamento paisagístico à região do fundo do vale onde poderia ter também outra avenida artisticamente traçada.” (...) “Esta proposta dava início a uma prática que se difunde amplamente, em São Paulo, com o Plano de Avenidas, em 1930, de aproveitamento dos fundos de vale para a localização das principais avenidas.”
(LEME: 1999, pág. 282)
Segundo Simões Jr. em LEME, 1999 – a idéia de Silva Telles era inovadora para a época, pois propunha a utilização do fundo de vale para uma ligação viária em uma cidade que se expandia apenas sobre os espigões nos quais não havia problemas de drenagem.
Este projeto lança atenção sobre a área e motiva a elaboração de mais dois projetos: a) o projeto da prefeitura , b) o projeto do governo estadual.
Esta discussão só terminaria com a proposta conciliadora do consultor francês Joseph Antonie Bouvard, em 1912.
Em 1912, o rio Anhangabaú foi mote para o projeto do consultor francês Joseph Antonie Bouvard143, que se encontrava como consultor na cidade de São Paulo, após sua passagem
142
Augusto Carlos da Silva Telles exerceu cargo de vereador da Câmara Municipal paulistana de 1905 - 1911; também foi professor da Escola Politécnica, assumindo a cátedra do curso de Engenharia Industrial. LEME: 1999, pág. 447.
143
Arquiteto francês, em 1911, chamado pela prefeitura de São Paulo a opinar sobre dois projetos para o vale do Anhangabaú, propõe uma terceira solução conciliadora. Ibid, pág. 268.
pelo Rio de Janeiro e a caminho de Buenos Aires onde estava elaborando um plano para a cidade.
Deve-se a presença de Bouvard em São Paulo ao vereador Alcântara Machado que, influenciado pelas idéias referentes à polêmica entre o projeto da prefeitura e o do estado e expostas por Victor da Silva Freire em seu artigo publicado na Revista Politécnica, propôs à Câmara Municipal a indicação de um árbitro para se estabelecer uma solução conciliatória. Bouvard aceita o convite para elaborar uma proposta conciliadora e passa 40 dias em São Paulo. O projeto elaborado aproxima-se muito daquele proposto pela prefeitura e seus desenhos são marcados por um traçado orgânico dos arruamentos. Neste projeto Bouvard propõe um parque na várzea do Carmo assim como outras interferências abaixo citadas.
“O projeto de Bouvard completa-se com um plano global de arruamentos para as áreas de expansão do centro e por um projeto de transformação da várzea do Tamanduateí onde seriam construídos o novo mercado municipal e um pavilhão para exposições agrícolas e industriais”
(SIMÕES JR. apud LEME, 1999, pág. 285)
O desenvolvimento industrial e a falta de controle populacional, assim como a mortalidade infantil e as pestes contribuíram muito para o desenvolvimento de uma cidade onde as áreas úmidas foram sendo drenadas e afastadas da convivência dos munícipes, pois representavam perigosa área de contaminação e também um entrave ao deslocamento e à industrialização. O abastecimento da cidade com águas de boa qualidade era difícil e urgente, o despejo de efluentes domésticos ou industriais diretamente nos rios e córregos era comum, de forma que as áreas úmidas se tornavam focos de doenças e, deste modo, a população apoiava as obras de drenagem das várzeas, retificação e canalização dos rios e córregos, transformando-os em canais.
As áreas úmidas não foram preservadas nem total nem tão pouco parcialmente, mas poderiam ter sido contempladas e preservadas com o desenvolvimento de parques lineares. O “Emerald Necklace” 144, sistema de parques em Boston, foi desenvolvido por Frederick Law Olmsted145
e consta do “Plano Geral para a Melhoria Sanitária do Rio Muddy” de 1881 que já apresentava alternativas de ocupação das áreas permeáveis aliada ao tratamento de efluentes
144
SPIRN: 1995, 162 – 167.
145
domésticos e industriais, além de assegurar a possibilidade da continuidade da relação do homem com a natureza, muito embora a diretriz primeira do projeto tenha sido o tratamento dos efluentes e das águas, o sistema preserva as áreas de fragilidade ecológica.
As áreas de várzea coincidem com os “solos não idôneos à urbanização"146 e deveriam ser
preservados em meio as áreas urbanas a fim de proporcionar um bom equilíbrio ambiental à cidade, de forma que são apresentados na metodologia de planejamento ambiental como áreas a serem preservadas ou, se necessário, que sejam pouquíssimo adensadas e ocupadas com agricultura.
A recuperação da memória dos rios é essencial a uma cidade que pretende desenvolver-se de acordo com os paradigmas ecológicos e ambientalistas, posto que os processos sustentáveis primam pela preservação e valorização dos diversos tipos de capital: ambiental, artificial e cientifico – enfatizando que a transferência dos mesmos de geração para geração deve ser responsável, no que tange à qualidade de vida e às possibilidades de uso destes recursos pelas próximas gerações.
Como tesouros perdidos e tratados como “tesouros sem valor”, os rios e córregos do município de São Paulo encontram-se destituídos de uma leitura paisagística, natural e/ou ambiental, posto que em sua maioria estão canalizados – muitas vezes não restando sequer memória de seu leito original.147
Não há como julgar as ações do passado com os valores do presente, é necessário entender os motivos que levaram a tais atitudes e orientações urbanístico - sanitaristas, no entanto não se deve continuar insistindo em um sistema que comprovadamente se mostra insatisfatório ambientalmente, portanto após o entendimento dos motivos e justificativas históricos, que colaboraram para a transformação das características naturais da cidade, torna-se necessário resgatar a cidadania paulistana e a percepção ambiental, talvez através da recuperação da memória urbana em que a releitura de alguns espaços urbanos possa ser atingida coletivamente através da re-inserção das fontes de abastecimento que, apesar de todos seus inconvenientes, estruturavam o espaço urbano através da presença da água.
146
McHARG: 2000, passim.
147
Cf. capítulo 6 – 6.3 Operações urbanas: uma oportunidade para o ressurgimento da água na estruturação da paisagem paulistana.