A paisagem natural é a expressão dos recursos naturais em um território e a partir da instalação do homem a natureza passa por diversas alterações devido aos diferentes processos de transformação da paisagem natural que acompanham a instalação de uma cidade ou área rural, modelando a paisagem do homem.102
A identidade ambiental de um território antropisado está relacionada com a expressão das diferentes unidades de paisagem. A cidade de São Paulo é composta expressivamente pela bacia do rio Tietê cercada pelos morros que compõem a Serra da Mantiqueira, expressos através da Serra do Mar e da Cantareira, sendo a identidade ambiental da cidade de São Paulo a visualização da água na paisagem de seus principais vales, que através da preservação mínima de seus rios, córregos e áreas verdes e úmidas, proporcionaria a leitura da paisagem natural da cidade.
Ao observar a história do desenvolvimento da cidade de São Paulo, é impossível não perceber que a cidade passou por diversos processos urbanísticos em que o desenvolvimento do espaço urbano sobrepujou a preservação do ambiente natural, mutilando os elementos e os espaços naturais inerentes à preservação da identidade ambiental, colaborando para a implantação de uma cidade onde a paisagem natural encontra-se descaracterizada.
Sendo assim, como é possível afirmar que a paisagem natural ainda possa atuar como identidade ambiental do cenário urbano, já que se apresenta em parte degradada?
A Identidade Ambiental é um conjunto de fatores ambientais que oferece ao local uma paisagem diferenciada das demais, por vezes única no mundo, como a paisagem da cidade do Rio de Janeiro que apresenta identidade - conforme análise baseada nos critérios desenvolvidos por Kevin Lynch, mas é interessante acrescentar que seu relevo, suas praias, brisa ... ou seja, a paisagem como um todo é muito peculiar e turisticamente um cartão postal de abrangência mundial. Isto é identidade ambiental, pois apesar das favelas, da sujeira, do adensamento dos problemas sociais, a cidade do Rio de Janeiro é conhecida por sua paisagem natural que a identifica ambientalmente de forma única e notória.
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Pode-se dizer que uma cidade tem identidade ambiental quando mantém uma quantidade de características inatas à paisagem natural suficientes para permitir a leitura da paisagem original.
Desta forma, a cidade de São Paulo também apresenta sua identidade ambiental expressa através de sua paisagem natural que, no entanto se apóia – de certa forma, excetuando-se as Serras do Mar e da Cantareira – em áreas ecologicamente frágeis, pois conta em seu território com grandes e extensas áreas úmidas, sendo a preservação e a manutenção destas áreas foco de maior atenção – devido a sua posição geográfica e estratégica. Durante os anos em que a cidade se urbanizou e se reurbanizou, as áreas úmidas foram praticamente dizimadas no espaço urbano.
A paisagem natural é a identidade ambiental do cenário urbano, já que é praticamente impossível eliminar todos os seus aspectos em processos normais de urbanização, excetuando-se os cataclismas, sendo um exemplo muito comum da descaracterização da paisagem natural nas cidades, e em especial em São Paulo, a presença de um ou mais rios retificados, compondo um cenário ambiental alterado no qual as áreas úmidas ao longo dos rios apresentam-se drenadas e alteradas, sendo então questionado se o rio ainda permanece na paisagem.
Conclui-se que os rios retificados e poluídos ainda permanecem na paisagem, lógico que aquém de suas potencialidades, pois neste processo muitas de suas funções foram extirpadas, tais como: pesca, trânsito de espécies, mas outras continuam funcionando: drenagem das águas da bacia, transporte hidroviário.
O rio é um conjunto de fatores que compõem parte da paisagem natural. O rio e sua várzea são uma “unidade de paisagem” composta por uma série de elementos, tais como: relevo, perfil do solo, altura e afloramento do lençol freático, vegetação do entorno e, fauna da região. Do rio retificado são eliminadas várias destas características, restando apenas a função de drenagem da bacia hidrográfica em que se encontra. No entanto, a topografia permanece em sua essência a mesma (apesar do aterramento das várzeas): os fundos de vale permanecem e as águas continuam escoando em sua direção; o solo apesar de impermeabilizado ainda é úmido devido à altura do lençol freático; as massas frias de ar continuam a se depositar nos fundos de vale e a vegetação ainda encontra umidade suficiente no solo para sobreviver.
A água muitas vezes é o principal elemento da composição paisagística, atuante na delimitação e na identificação do território do cenário ambiental urbano, de forma que sua leitura na paisagem permite em muitos casos a preservação da identidade ambiental do território, pois em torno da água giram diversos aspectos, não só técnicos, mas também da cultura e percepção humana milenar, tais como:
- a representação da água como fonte da vida - a água representa a pureza dos sentimentos, a fluidez do amor divino e a certeza do perdão eterno. Não é sem fundamento que uma das maiores representações do amor cristão ocorre através do batismo, que na Antigüidade realizava-se através da imersão do fiel no rio Jordão, já na atualidade a água permanece neste ritual com o significado da renovação da vida;
- a preservação do retrato lúdico do amor através da composição de paisagens bucólicas e naturalistas, criadas pelo ser humano a fim de representar e enaltecer a natureza na cidade, refletindo a emoção retratada e presente nos mais diversos e extensos gestos artísticos refletidos em milhares de obras de arte, tanto na literatura como na pintura e na escultura através dos tempos;
- valorização da paisagem através da abertura de grandes perspectivas em que a umidificação do ar e o controle de temperatura são contemplados através do desenvolvimento de parques lineares onde é possível a prática de esportes aquáticos e náuticos, estimulando o contato e a percepção da água, assim como o lazer em geral.
A água apresentada em rios ou lagos também é um forte símbolo de tranqüilidade, de que são exemplo as inúmeras pessoas que meditam às margens do rio Ganges, buscando na tranqüilidade de suas águas um momento de transcendência.
A transcendência pode ser experimentada de muitas formas - através de orações, da dor, de esportes ... Em geral os momentos em que nos envolvemos com a natureza, também podem ser considerados especialmente transcendentes, mas um momento inesquecível e especialmente emocionante é quando entramos no mar. O contato com a água é tão intenso e tão atrativo que há a cada feriado prolongado a um enorme contingente social em direção ao litoral. A relação apaixonada do homem com o mar é descrita por MELVILLE103 ilustrando
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muito bem esta necessidade do homem de interagir com a água e reforçando a necessidade da preservação da leitura das águas na paisagem urbanizada, a fim de preservar a identidade ambiental do território, permitindo a imaginabilidade 104 da paisagem natural.
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