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FIGURA 26

Vale do Anhangabaú, meninos no chafariz – foto da autora, janeiro/ 2006

Atualmente poucos são os espaços onde se pode perceber a água na cidade de São Paulo. A foto acima parece revelar uma outra São Paulo, na verdade as dimensões deste espaço em relação ao seu entorno são desproporcionais e a percepção poética da água se faz muito mais nesta foto do que no vale do Anhangabaú, e tampouco as fontes do vale fazem a alusão ao velho ribeirão.

No entanto água é o elemento mais presente na crosta terrestre sendo que 60% da superfície do planeta são oceano, com mais de 1,6 quilômetro de profundidade, de forma que deveríamos chamar nosso planeta de Água84 e não de Terra. A composição dos sais existentes

na água do mar é estranhamente semelhante à de nossos tecidos, tanto que suamos e choramos água do mar85, de forma que o homem apresenta-se estranhamente ligado à água, já que não é

capaz de tolerar a ingestão da água do mar, pois há nela cerca de setenta vezes mais sais do que consegue metabolizar com segurança – um litro de água do mar contém aproximadamente duas colheres e meia de chá de sal comum, mas também quantidades bem maiores de outros

84

A observação de que o planeta deveria chamar-se Água e não Terra devido as suas proporções é defendida por Philip Ball e está explícita em BALL, H2O, p. 21 apud BRYSON: 2005, pág. 279.

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Margullis e Sagan observaram a semelhança na composição dos sais nos tecidos do corpo humano e da água do mar, e também a impossibilidade do homem beber água do mar. MARGULLIS e SAGAN, Microcosmos, p. 184 apud BRYSON: 2005, pág. 278.

elementos, compostos químicos e outros sólidos dissolvidos que são coletivamente conhecidos como sais. 86

De toda a água do planeta, 97% encontram-se nos oceanos e apenas 3% são água doce, estando a maior parte sob a forma de gelo, sendo 90% do gelo do planeta encontrados na Antártida que sozinha possui 25 milhões de quilômetros cúbicos de gelo e onde a espessura é superior a três quilômetros contra 4,6 metros de espessura no pólo Norte 87. Caso derretesse o

gelo da Antártida, o nível dos oceanos aumentaria 61 metros 88. Apenas 0,036% da água doce

encontram-se em rios, lagos e reservatórios e uma porção ainda menor, 0,001% encontra-se na atmosfera sob a forma de nuvens ou vapor. Caso chovesse toda a água da atmosfera, os oceanos elevariam seu nível em apenas poucos centímetros.89

A água na paisagem está associada à beleza, portanto para observar a paisagem é necessária certa dose de poesia, de espiritualidade, de transcendência... é necessário transportar-se para um mundo melhor, um momento ideal e imaginário em que ser humano possa sentir-se parte da natureza, a associação do potencial transcendente90 é descrita muitas vezes mediante a

observação do ciclo hidrológico, ou seja, a partir da água pura, em equilíbrio e integrada à natureza.

“A alma do homem é como a água; Vem do céu e sobe para o Céu,

Para depois voltar à Terra, em eterno ir e vir”

(Goethe apud WEISS: 1996, pág. 9.)

A água se apresenta como um dos elementos mais importantes na composição da paisagem e considerando as bacias hidrográficas como unidades de paisagem abrangentes, através do ciclo hidrológico a água demonstra ser o elemento que permeia e integra as diversas mudanças na paisagem, de forma que mesmo após retificações de rios, drenagem de várzeas,

86

DENNIS, The bird in the waterfall, p. 248 apud BRYSON: 2005, pág. 278.

87

SMITH, The Weather, p. 62 apud BRYSON: 2005, pág. 279.

88

SCHULTZ, Ice Age Lost, p. 75 apud BRYSON: 2005, pág. 279.

89

BRYSON: 2005, pág. 279.

90

O processo de transcendência é descrito por Leonardo Boff, no conjunto de seu livro “Tempo de Transcendência: o Homem como um projeto infinito.” BOFF: 2000, passim.

represamento de águas e adução das mesmas através de tubulações, a água apenas se transforma.

A água ainda permanece na paisagem, permeando-a e podendo ser considerada o elemento de maior trânsito e integração, dada a sua plasticidade, permeabilidade e potencialidade. Sobre suas características físicas associadas à espiritualidade, há uma bela descrição das propriedades da água em determinado momento do filme “O Pequeno Buda” de Bernardo Bertolucci, no qual um dos Lamas Tibetanos explica que o espírito de uma pessoa assemelha- se ao chá, pois o chá se amolda a uma xícara ou a um bule, podendo também o chá evaporar ou condensar, esfriar ou esquentar e se a xícara se quebrar derramando o chá, ao ser enxugado com um pano o chá ainda é chá.

Poética e espiritualmente o ciclo hidrológico foi explicado e a água trabalha desta forma na paisagem, pois se molda a qualquer recipiente seja ele um rio, córrego, lago, represa, nascente, tanque, solo ou pântano, passando ao ar através da evapotranspiração sob a forma de gás, retornando ao solo através das chuvas e purificando-se em complexos sistemas de filtragem subterrânea, a água ainda é água, poluída ou pura, encanada ou engarrafada a água permeia a paisagem e o ser humano, estando diretamente relacionada sua qualidade à saúde física, emocional e espiritual do homem.

No entanto e apesar de toda a beleza dos 1,3 bilhões de quilômetros cúbicos de água disponíveis no planeta Terra91 em um domínio das águas conhecido como hidrosfera e

predominantemente oceânico, que há cerca de 3,8 bilhões de anos já foi seis vezes o volume atual92, a Terra se apresenta como um planeta dominado pelo óxido de diidrogênio, um

composto químico sem gosto nem cheiro e de propriedades tão variáveis que, em geral, é benigno, mas pode também ser rapidamente letal93, pois dependendo do estado em que se

encontre pode escaldá-lo ou congelá-lo e, na presença de certas moléculas orgânicas, é capaz de formar ácidos carbônicos tão nocivos que podem arrancar as folhas das árvores e corroer o rosto de estátuas, além de sua incomparável força ao apresentar-se agitado e em grandes

91

GREEN, Water, ice and stone, pág. 25 apud BRYSON: 2005, pág. 278.

92

WARD e BROWNLEE, Rare Earth, pág. 360 apud BRYSON: 2005, pág. 279.

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quantidades, mesmo aos que aprenderam a conviver com ela ainda é uma substância por vezes perigosa e muitas vezes venenosa.94

Mesmo assim a paisagem que acalma e que transcende está diversas vezes associada à água, seja a paisagem de um lago, de um regato ou do mar, a água doce ou salgada nos remete a um universo maior de organizações macro e micro cósmicas descritas biológica e ecologicamente por Odum95.

As potencialidades da água também podem ser observadas no trabalho de Stanley Miller, 1953 - estudante de pós graduação da Universidade de Chicago – que em dois frascos contendo, no primeiro, um pouco de água para representar o oceano primordial e no segundo uma mistura dos gases metano, amoníaco e ácido sulfídrico para representar a atmosfera antiga da Terra, une-os com tubos de borracha e introduz algumas faíscas elétricas para representar os raios. Após alguns dias, a água dos frascos - agora verde e amarela, tornara-se um caldo forte de aminoácidos, ácidos gordurosos, açucares e outros compostos orgânicos. O supervisor de Miller, o prêmio Nobel Harold Urey, observou encantado “Se Deus não fez desta maneira, perdeu uma boa chance”. 96

Experiências científicas como as acima relatadas podem comprovar que a água é senciente e com certeza um veiculo para o início de vida ... talvez daí venha a expressão água é vida, mas mesmo sem entrar no mérito da questão pode-se afirmar que a água ainda abriga mistérios a serem desvendados e que paisagisticamente é indispensável.

A paisagem é reconhecida e muitas vezes transformada através da regularidade, abundância ou carência da água – a paisagem é antropisada, desta experiência resultam as diferenças climáticas e bioclimáticas reconhecidas através dos percentuais de umidade, de forma que ao alterar as porções de terra e água naturais de um território, a exemplo da drenagem de várzeas e da reversão de rios, altera-se a fisionomia da paisagem, muitas vezes transformando o fluxo das águas em uma permanente lamúria, pois a paisagem torna-se subordinada à manutenção de reservatórios de abastecimento, do fornecimento de potencial hidroelétrico e ainda das

94 BRYSON: 2005, pág. 276. 95 ODUM: 1988, passim. 96 BRYSON: 2005, pág. 293.

imposições dos fluxos urbanos, surgindo assim a geografia da sobrevivência, 97 considerada

em um sentido maior uma nova unidade de paisagem.

A bacia hidrográfica inteira é considerada uma unidade mínima de ecossistema, quando se trata de interesses humanos e para gerenciamento prático deve-se saber que para cada metro quadrado ou hectare de água, corresponde uma área de drenagem terrestre de pelo menos 20 vezes maior, considerando que a razão entre a superfície aquosa e a área da bacia hidrográfica poderá variar amplamente e também depende da precipitação, da estrutura geológica das rochas subjacentes e da topografia. 98

A estruturação dos espaços através da água é um fator importante para que a mesma seja percebida e valorizada na paisagem da cidade, portanto a estruturação ecológica da cidade de São Paulo contribuirá imensamente para o resgate da imagem da água na paisagem urbana. É inegável que a percepção da água na estruturação do espaço urbano da cidade será mais intensa se desenvolvida através de rios ladeados por parques lineares os quais trarão ao cidadão a percepção e o respeito pela natureza que somente a grandiosidade do espaço pode proporcionar, sendo a água realmente percebida como recurso natural, diferente da percepção da água quando se apresenta encanada ou engarrafada, quando é tida como bem de consumo e valorizada desta forma. Os espaços nos quais a água pode ser observada na cidade atualmente são restritos, de forma que os espaços estruturados pela água precisam ser ampliados criteriosamente, principalmente através da preservação e recuperação daqueles existentes, assim como o incentivo de novos espaços onde a água participe da estruturação do espaço.

A percepção da água na paisagem dos espaços estruturais da cidade permite o desenvolvimento da ecologia urbana, desenvolve a preservação do trânsito de espécies silvestres e estimula a melhoria da relação homem - natureza através da percepção da energia divina.