5 Variable attributes
5.1 Variable description attributes
5.1.4 VAR_DIMENSION
Subjacente aos atuais estudos de Linguística Textual, a questão da estruturação textual era já foco de análise na retórica clássica – sendo aí formulada como dispositio, a segunda fase de elaboração do discurso. Assim, na medida em que consiste na escolha e ordenação das partes (pensamentos, formas linguísticas e formas artísticas) que formam a totalidade da obra/discurso, a dispositio poderá ser encarada, como observa Barthes (1966), um plano de descrição textual (a par da elocutio).
3.2.1. Organização global da configuração textual
Nos últimos anos, sobretudo a partir da década de 1970, as questões de composicionalidade textual voltaram a ser alvo de reflexão nos estudos teóricos de Linguística Textual. Em termos de organização global do texto, tal reflexão ganhou forma, sobretudo, na teoria das superestruturas proposta por van Dijk (1977, 1980, 1989), bem como nas noções de plano de texto e de sequências prototípicas, da autoria de Adam (1992, 1997, 1999, 2002a, 2005); no âmbito do ISD, foi concebido um modelo de infraestrutura geral do texto (Bronckart, 1997, 2008a), que dá conta dos vários níveis de estruturação textual.
Superestrutura (van Dijk)
Van Dijk (1977, 1980, 1989) considera a existência de dois níveis textuais, um macroestrutural, outro, microestrutural. Ao contrário do que acontece no nível microestrutural, que incide em níveis de organização hierarquicamente inferiores, referentes a operações locais, o nível macroestrutural engloba estruturas semânticas
78 (temáticas), pragmáticas e formais que atuam em termos globais. Interessam, neste momento, as estruturas fomais, que o autor designa como superestruturas, e que define como estruturas globais de natureza formal, esquemática e convencional:
One of the crucial differences between macrostructures and superstructures is not only that the first are semantic and the second are schematic or “structural” but also that macrostructures necessarily characterize any kind of complex information
processing, whereas superstructures have a more conventional nature.
Van Dijk 1980, 12
As superestruturas são, pois, estruturas esquemáticas de natureza funcional que formatam/organizam convencionalmente o conteúdo macroestrutural/semântico de um texto, podendo assumir uma forma narrativa ou uma forma argumentativa45:
Quadro 17 – Tipos de superestruturas convencionais(Van Dijk 1980)
Superestrutura Categorias superestruturais
Superestrutura narrativa
• Situação inicial (localização temporal e espacial; descrição do protagonista, contextualização social e/ou histórica)
• Complicação(ões) (evento/ação) • Resolução (ões) (re-ação(ões))
• Avaliação (reação mental do narrador face à ação narrada) • Coda ou moral (conclusão)
Superestrutura argumentativa
• Premissa
Facto (evento considerado verdadeiro pelo ouvinte e imediatamente aceite)
Warrant (se p, então q)
(Backing (relevância para a argumentação)) • Conclusão
Síntese elaborada com base em Van Dijk 1980, 112-119
Van Dijk reconhece, no entanto, a dificuldade em conceber uma teoria das superestruturas, já que estas podem não ter uma natureza fixa:
Although many kinds of discourse have conventional schematic forms, it is not obvious that all discourses have such fixed superstructures. Conventions will of course be established only for those discourse types which occur frequently and which require effective production and comprehension by means of fixed schemata. Everyday conversations, narrative discourse, and arguments are examples in point.
45
Van Dijk (1980) apresenta também uma proposta a estrutura do artigo científico e do artigo jornalístico; no entanto, ao contrário do que acontece com as superestruturas narrativa e argumentativa, estas propostas remetem mais para estruturas de géneros textuais do que para tipos de texto (entendidos como formatos de organização linguística), razão pela qual não me parece pertinente referi-las neste momento.
79 Then we have the discourse types that have institutionalized schemata, such as scientific papers, legal documents, church rituals, court proceedings, exams, and lectures. On the other hand, there hardly seem to be fixed forms for advertisements, (modern) poems, personal letters, etc.
Van Dijk 1980, 109
Podendo ser encarada como um contributo pioneiro no âmbito do estudo da dimensão composicional global dos textos, a noção de superestrutura “confrontou-se com outros contributos, conheceu outras formulações e tende a estabilizar-se noutros termos” (Coutinho 2011), nomeadamente nos de plano de texto e de infraestrutura geral do texto.
Plano de texto (J.-M. Adam)
Adam (2005) entende o texto como a unidade composicional e configuracional de complexidade mais elevada46. Independentemente da extensão, um texto apresenta-se composto e estruturado em unidades menores (sequências, períodos, proposições). Para este autor, o facto de os textos serem constituídos por proposições enunciadas dispostas ordenada e hierarquicamente traduz-se nos chamados planos de texto. Estes são responsáveis pela organização global dos textos, na medida em que organizam a sua estrutura composicional e permitem construir (quer no momento da produção, quer no da receção-interpretação) a sua organização global.
O plano de texto pode ser sinalizado por vários tipos de unidades “vi-lisibles”, de carácter inerentemente semiótico: mudança de parte, capítulo ou de parágrafo; títulos, subtítulos, intertítulos; estrofação e versificação (na poesia); paginação em geral; distribuição espacial particular do texto; tipografia; indicações alfanuméricas, marcação de alíneas; presença de componentes icónicas (fotografia, desenho, infografia)47.
Adam considera dois tipos de plano texto, os planos fixos (ou convencionais) e os planos ocasionais. Cada um deles resulta de ligações de ordem composicional, que
46
O texto é, na ótica de Adam (2005), uma macroestrutura semântico-pragmática – sendo que a coerência semântico-pragmática que lhe assiste resulta da articulação de dois aspetos espetos distintos, a macroestrutura de sentido (tema) e o macroacto de discurso que visa a força ilocutória e argumentativa) e composicional. Enquanto unidade composicional, o texto resulta da articulação entre o plano de texto e a estrutura sequencial.
47
Segundo Adam (2002a), o plano de texto pode também ser sinalizado pela pontuação e por organizadores e conectores textuais.
80 se sucedem linearmente no texto e que se repercutem em operações de composição distintas – de planificação ou de estruturação: